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Sei que há muita gente que consulta este blogue e utiliza os materiais aqui publicados, mas poucos deixam comentários e eu gostava mesmo de saber a vossa opinião... :-)

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O MENINO MAU -Hans Christian Andersen

 (Parece-me que alguém teve uma grande desilusão amorosa... ;-))


"Há muito tempo havia um velho poeta, um verdadeiro bom velho poeta. Uma noite, enquanto estava confortavelmente em sua casa, desencadeou-se uma terrível tempestade; a chuva caía em torrentes, mas o velho poeta não sentia frio, sentado num canto, ao lado da estufa, na qual ardia alegremente o fogo e chiavam as maçãs que ele colocara para assar.
Os infelizes que estão ao relento, com esta chuva, não terão sobre o corpo nem um só fio de roupa seco murmurou, porque era um homem de bons sentimentos.
Abra a porta, por favor! Estou com muito frio e sinto-me gelado até os ossos! exclamou um menino gritando em altas vozes lá fora.
E continuou chorando, sem deixar de bater na porta, ao mesmo tempo em que o vento fazia as janelas tremerem.
Pobrezinho! - exclamou o velho poeta, enquanto se encaminhava para a porta, a fim de abri-la.
Deparou com um menino completamente desnudo, com o cabelo ruivo empapado de chuva. Tiritava de frio, de modo que se não o fizesse entrar, certamente morreria de frio.
Pobrezinho repetiu o velho Poeta tomando-o pela mão. Entre que você se aquecerá. Beberá um pouco de vinho e comerá uma maçã assada. Vejo que você é um belo menino.
E ele o era, realmente. Tinha os olhos brilhantes como duas estrelas e, mesmo molhado, seu cabelo caía em lindos cachos. Parecia um anjo-menino, mas o frio lhe tirara as cores e seus membros tremiam. Carregava um lindo arco na mão, mas que estava muito estragado pela chuva; demais, as belas cores das setas haviam desaparecido, lavadas completamente pela água.
0 velho poeta sentou-se perto da estufa e pousou o menino em seus joelhos; espremeu a água que havia em seus cabelos, aqueceu-lhe as mãozinhas e ofereceu-lhe um pouco de vinho.
Logo o menino se refez e o corado apareceu novamente em suas faces; pulou para o chão e, alegre ao extremo, começou a dançar.
Você é muito alegre! - exclamou o ancião. - Como se chama?
Cupido respondeu o interpelado. Não me conhece? Este é o meu arco e garanto-lhe que sei manejá-lo. Veja, já começa a fazer bem tempo e a lua está brilhando no céu.
Mas você está com o arco escangalhado observou o dono da casa.
É uma pena replicou o menino. Examinou-o com extremo cuidado e acrescentou: Já secou totalmente. Continuará funcionando bem e a corda não se estragou muito. Veja, vou experimentá-lo. Não se mova.
Encurvou o arco, colocou no mesmo uma flecha, apontou e cravou uma seta no coração do ancião.
Vê como o meu arco não se estragou? Exclamou sorrindo.
E logo se afastou, rindo-se às gargalhadas. Era um menino muito mau, pois atirou no velho poeta, que o tratara com tanta bondade, dando-lhe vinho e a melhor das maçãs que pusera para assar.
0 ancião estava estendido no solo e chorava, porque recebera uma flechada no coração e dizia a si mesmo:
Que mau é o Cupido! Darei conta disso a todos os meninos, para que tenham cuidado e nunca brinquem com ele, pois poderiam ser vítimas de alguma travessura.
Todos os meninos e meninas bondosos a quem contou a sua aventura tiveram o maior cuidado em evitar o pequeno Cupido, mas ele sempre conseguia enganá-los, porque é muito astuto.
Quando os escolares saem do colégio, ele começa a correr ao seu lado, coberto com uma camisola preta e levando um livro debaixo do braço. Eles não o reconhecem e dão-lhe o braço, tomando-o por um colega e então ele se aproveita para cravar-lhes uma flecha no coração.
Quando as mocinhas saem da escola e quando estão na igreja. Sempre a mesma coisa com todos. Senta-se nos carros, nos teatros e produz uma chama brilhante; as pessoas pensam que aquilo não passa de uma lâmpada, mas logo percebem seu engano.
Circula pelos jardins e corre pelos muros e em certa ocasião chegou a cravar uma flecha no coração de seu pai e no de sua mãe.
Pergunte a eles e verá o que dizem. Esse Cupido é um menino mau. Mais cedo ou mais tarde consegue desviar a sua vítima e até a sua pobre avozinha não pôde evitar sua flechada.
Isso aconteceu há muito tempo e os efeitos dessa ferida já passaram, porém, é sempre uma coisa que não esquecemos jamais. Que mau é o Cupido!
E agora que você está inteirado de sua maldade, tome muito cuidado, pois do contrário se arrependerá."
In Virtualbooks, Biblioteca Virtual

segunda-feira, 27 de junho de 2011

O Gigante Adamastor- texto em prosa- João de Barros

“(…)
Navegamos cada vez mais por diante, vencendo sempre com boa cara os perigos incessantes que surgiam.
Mas, cinco dias depois da aventura de Veloso, numa noite em que sopravam ventos prósperos, estando nós de vigia, uma nuvem imensa, que os ares escurecia, apareceu de súbito sobre as nossas cabeças.
Tão temerosa e carregada vinha que os nossos valentes corações se encheram de pavor!
O Mar bramia ao longe, como se batesse nalgum distante rochedo. Tudo infundia pavor. E nunca na nossa viagem tínhamos encontrado nuvem tão espessa e tão assustadora. Todas as tempestades pareciam vir dentro dela, para de lá saírem e nos assaltarem.
Erguendo a voz ao Céu, supliquei piedade a Deus.
Mal acabava de rezar e logo uma figura surgiu no ar, robusta, fortíssima, gigantesca, de rosto pálido e zangado, de barba suja, de olhos encovados, e numa atitude feroz.
Os cabelos eram crespos e cheios de terra. A boca era negra. Os dentes amarelos.
Tão grandes eram os seus membros, que julguei ver um segundo colosso de Rodes, esse colosso que era uma das sete maravilhas do Mundo, de tal maneira alto que, diz-se, por baixo das suas pernas passavam à vontade enorme navios!...
Num tom de voz grossa, como a voz do mar profundo, começou a falar-nos.
Arrepiámo-nos todos, só de ouvir e de ver tão monstruosa criatura.
Disse então o Gigante, voltando-se para nós:
Ó Gente ousada mais de que nenhuma outra, que nunca descansais de lutas e combates, já que não temeis ultrapassar os limites onde ninguém mais chegou, e navegar por mares que me pertencem; já que vindes devassar os meus segredos escondidos, que nenhum humano deveria conhecer ouvi agora os danos que prevejo para vós, para a vossa raça, que subjugará no entanto todo o largo Mar e a imensa Terra.
Ficai sabendo que todas as naus que fizerem esta viagem encontrarão castigo merecido do seu atrevimento sem par! as maiores dificuldades nestes meus domínios. E sofrerão o horror de tormentas desmedidas.
Punirei de tal modo a primeira armada que vier aqui depois da vossa frota, que os seus tripulantes mal sentirão talvez o perigo de me defrontarem. Mas hão de chorar depois do dano que eu lhes fizer…
Hei de me vingar de quem primeiro me descobriu, do vosso Bartolomeu Dias, fazendo-o naufragar aqui mesmo.
E outras vinganças imprevistas executarei…
D. Francisco de Almeida deixará aqui a sua glória e os troféus que arrancar aos Turcos. Manuel Sepúlveda verá aqui morrer os filhos queridos, verá aqui sofrer mil ferimentos a sua mulher, que os negros cafres hão de torturar e matar.
E tantos, tantos mais dos vossos, hão de experimentar a fúria do meu ódio pela audácia de me inquietarem, perturbando a solidão em que vivo e quero viver…
Era tão assustador o que me dizia o monstro horrendo, que eu o interrompi, perguntando-lhe quem ele era, e porque estava assim tão zangado.
Retorcendo a boca e os olhos, e lançando um espantoso brado, respondeu-me em voz pesada e amarga, como quem se aborrecera da pergunta feita:
Eu sou aquele oculto e grande Cabo, a quem vós tendes chamado Tormentório, e que ninguém, a não ser vós, Portugueses, algum dia conheceu e descobriu.
Sou um rude filho da Terra, e meu nome é Adamastor.
Andei na luta contra o meu Deus, contra Júpiter, e, depois, fiz-me capitão do mar e conquistei as ondas do Oceano.
E então me apaixonei por Tétis, princesa do mar e filha de Neptuno.
Ai de mim!... Sou tão feio, tão horrível, que ela nem me podia olhar!
Determinei conquistá-la à força e mandei-lhe participar esta minha intenção.
Tétis fingiu aceitar o meu pedido de casamento…
E julguei certa noite vê-la e supus que vinha visitar-me e combinar as nossas bodas.
Deslumbrado, corri como um doido para ela e comecei a abraçá-la.
Mas nem sei de tristeza como conte o que me sucedeu…
Julgando abraçar quem amava, achei-me de repente abraçado a um duro monte, coberto de mato bravio e espesso. Tétis transformara-se em rocha feia e fria!
Vendo um penedo a tocar a minha fronte, em lugar do roto angélico de Tétis, penedo me tornei também, de desespero.
Em penedos se me fizeram os ossos, a carne em terra inculta, e estes membros e esta figura que te horroriza estenderam-se pelo mar fora.
Enfim, a minha grandíssima estatura converteu-se neste remoto Cabo.
E, para redobrar as minhas mágoas, Tétis anda-me sempre cercando, transformada em onda.
E, como as ondas, que ora estão junto da praia, ora dela fogem para o mar alto, assim faz a princesa do Oceano: ora está perto, ora longe de mim, nunca se deixando prender, nunca ficando tranquila entre os meus braços de pedra…
Assim contou a sua história o Gigante Adamastor… E logo de seguida a nuvem negra, que nos escondia o céu, desfez-se e o Mar bramiu ao longe, muito ao longe…
De novo rezei a Deus, pedindo-lhe que nos guardasse dos perigos que o Adamastor anunciara.
Quando a manhã rompia, é que avistamos e torneamos o Cabo em que se tinha convertido o grande gigante. (…)”
In Os Lusíadas de Luís de Camões contados às crianças e lembrados ao povo,
adaptação em prosa de João de Barros

sábado, 25 de junho de 2011

"A Lua"- Jacob e Wilhelm Grimm


Irmãos Grimm
          Em tempos que já lá vão havia uma terra onde a noite era sempre escura e o céu estendia-se sobre ela como um lenço negro, pois ali a Lua nunca subia e nenhuma estrela piscava na escuridão. Na altura da criação do mundo, a luz da noite era suficiente. Uma vez, saíram desta terra em peregrinação quatro rapazes e chegaram a um outro reino onde, quando à noite o Sol desaparecia atrás dos montes, havia uma esfera brilhante pendurada num carvalho, que deitava uma luz suave em todas as direções. Devido a ela, era possível ver e distinguir tudo muito bem, embora não fosse uma luz tão forte como a do Sol. Os rapazes pararam e perguntaram a um lavrador, que passava por ali com o seu carro, que luz era aquela. “Aquilo é a Lua”, respondeu ele, “o nosso prefeito comprou-a por três moedas e pendurou-a no carvalho. Tem de lhe deitar óleo todos os dias e mantê-la limpa, para que ela não deixe de brilhar. Por isso, pagamos-lhe uma moeda por semana.”
         Assim que o lavrador partiu, disse um deles: “Esta lanterna fazia-nos jeito, também lá temos um carvalho, tão alto como este, onde a podemos pendurar. Que grande alegria deixar de tropeças na escuridão!” “Sabem que mais?”, disse o segundo, “precisamos de arranjar um carro e um cavalo e levar a Lua embora. As pessoas daqui bem podem comprar uma outra.” “Eu trepo com muita facilidade”, disse o terceiro, “trago-a já para baixo!” O quarto trouxe um carro e um cavalo e o terceiro trepou pela árvore acima, fez um buraco na Lua, passou-lhe um fio e fê-la descer. Assim que a Lua brilhante ficou dentro do carro, deitaram-lhe um lenço por cima, para que ninguém se apercebesse do roubo. Levaram-na sem problemas para a sua terra e penduraram-na num carvalho. Velhos e novos alegraram-se, quando a nova lanterna começou a estender a sua luz sobre os campos e os quartos e salas se encheram dela. Os anões saíram dos seus buracos nas rochas e os pequenos elfos, com os seus casacos vermelhos, faziam rodas nos prados.
         Os quatro rapazes tratavam da Lua com óleo, limpavam a mecha e recebiam a sua moeda semanal. No entanto, envelheceram e quando um deles adoeceu e se apercebeu de que a morte estava próxima, ordenou que o quarto de lua que lhe pertencia fosse levado com ele para a sepultura. Quando morreu, o prefeito trepou à árvore e, com a tesoura da poda, cortou um quarto da Lua que meteu no caixão. A luz da Lua diminuiu, mas não muito. Quando morreu o segundo, foi-lhe dado o segundo quarto e a luz minguou. Mais fraca ficou ainda quando morreu o terceiro, que também levou o seu quarto e, quando o quarto homem foi sepultado, instalou-se de novo a velha escuridão. Sempre que as pessoas saíam à noite sem lanterna, batiam com as cabeças umas nas outras.
         Porém, assim que os quartos da Lua se juntaram no inferno, os mortos, habituados à escuridão, agitaram-se e acordaram do seu sono. Ficaram espantados por poderem ver de novo: a luz da Lua chegava-lhes bem, pois os seus olhos estavam tão fracos que não teriam podido suportar a luz dos Sol. Ergueram-se, alegraram-se e retomaram os seus hábitos de vida. Alguns deles dedicaram-se ao jogo e à dança, outros foram para as tabernas onde pediram vinho, embriagaram-se, vociferaram e lutaram e, por fim, pegaram em cacetes e bateram uns nos outros. O barulho era cada vez maior até que, por fim, chegou ao céu.
         São Pedro, que guarda as portas do céu, calculou que o inferno se tinha revoltado e chamou as hostes celestes, que lutavam contra o maligno, porque este e os seus associados pretendiam assolar a morada dos abençoados. Como, porém, elas não vinham, São Pedro montou no seu cavalo, atravessou as portas do céu e foi ao inferno. Aí sossegou os mortos, fê-los voltar de novo à sepultura e levou com ele a Lua, pendurando-a no céu.

terça-feira, 21 de junho de 2011

A Odisseia, adaptação de João de Barros

FICHA DE AFERIÇÃO DA LEITURA DOS CAPÍTULOS I A V (COM CORREÇÃO NO FINAL)

Responde às questões:

1. Quem era Helena?

2. Porque se deu a Guerra de Tróia?

3. Onde se situa Ítaca?

4. Quantos anos durou a guerra de Tróia?

5. Calipso amava Ulisses. Porém, o rei só tinha um desejo. Qual?

6. Quem decidiu pedir a Júpiter ajuda para que a ninfa deixasse Ulisses partir?

7. Qual é o deus do mar?

8. Quem ajudou o deus do mar a provocar a tempestade que quase matou o rei de Ítaca?

9. Onde aportou Ulisses depois da terrível tempestade?

10. A que povo pertencia Nausica?

11. Depois de conversar com Ulisses, o que é que a princesa ordenou às criadas?

12. Como era o enorme cavalo de pau que Ulisses mandou construir para derrotar Tróia?

13. Por que motivo Ulisses chorava enquanto Demódoco cantava?

Correção:
1. Helena era a esposa de Menelau, Rei de Esparta.
2. A Guerra de Tróia aconteceu porque os troianos raptaram Helena e, com ela, levaram ainda ouro e prata em grande quantidade.
3. Ítaca é uma ilha que se situa no Mar Jónio, na Grécia.
4. A Guerra durou 10 anos.
5. O rei queria voltar para casa, para junto da esposa e do filho.
6. Minerva.
7. Neptuno.
8. Quem o ajudou foram os ventos sul- Zéfiro- e leste- Bóreas.
9. Na ilha de Córcira.
10. Feácios.
11.Ordenou que alimentassem e lavassem Ulisses.
12. O cavalo era enorme, exatamente igual a um cavalo de verdade, com crinas e cauda.
13. Ulisses chorava porque Demódoco, sem saber, estava a contar a sua própria triste história de vida.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

A prova de que as aparências iludem...

 CONSIDERO ESTE TEXTO UM CONTO, APESAR DE INSERIDO NUM LIVRO DE CRÓNICAS .
UMA ÁGUA ESCURA

       Fui eu a começar o jogo. Escolhi o sujeito sentado junto à janela, um jovem pálido, estremunhado, óculos de aros grossos. Vestia de preto, mas não como se fosse para um enterro (é o que se diz de alguém vestido de preto): parecia antes que estava a fugir de um enterro.

         Chama-se Cândido Mosso Rabin expliquei a Valéria , estuda filosofia, e vai a Lisboa, de férias, porque quer conhecer a cidade onde viveu Fernando Pessoa.

         Valéria aceitou o desafio:

         Certo. Ele próprio escreve poesia. Mas como conseguiu o dinheiro para a viagem?

         Ajuda muito, a quem lança o jogo, se a personagem estiver a ler. Cândido Mosso Rabin, por exemplo, tinha nas mãos o Livro do Desassossego, organizado por Richard Zenith, na edição brasileira, muito cuidada, da Companhia das Letras. Não era difícil supor que quisesse conhecer a Rua dos Douradores, passear, com o seu Fernando Pessoa debaixo do braço, pela “Rua do Arsenal, a Rua da Alfândega, o prolongamento das ruas tristes que alastram para leste desde que a Alfândega cessa”.

         A pergunta de Valéria, porém, fez-me pensar um pouco. Como é que Cândido tinha arranjado dinheiro para a viagem?

         Ele trabalha à noite num bar, a servir à mesa, provavelmente um lugar frequentado por artistas, poetas, jornalistas. Cândido é um tipo tímido, reservado, embora gentil, que não participa nas conversas. Os frequentadores do bar acham-no um tanto misterioso.

         Valéria entusiasmou-se:

         Não, não foi com o dinheiro ganho no bar que ele conseguiu a passagem para Lisboa. Eu conto como foi: uma noite Cândido conheceu um viajante. O homem era simpático, gostava de uma boa conversa, passava pelo bar todas as noites, bebia uma cerveja, bebia outra, e ia-se embora. Uma ocasião ficou até mais tarde. Já havia poucos clientes quando o Viajante ofereceu uma bebida a Cândido. Quis saber se ele também trabalhava ali durante o dia, onde morava, e finalmente perguntou-lhe se não gostaria de visitar Lisboa.

         Pensei que Valéria pretendia enredar-me numa história de amor. Infelizmente, era algo ainda mais óbvio:

         O Viajante pertencia a uma rede de tráfico de cocaína para a Europa e queria utilizar Cândido como correio. Achava que a polícia nunca desconfiaria de alguém assim, um pobre sujeito com ar de seminarista, estudante de filosofia na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, com a mala cheia de papéis, jornais, livros de poesia.

         Senti-me defraudado:

         O Cândido, um passador? Por amor de Deus, Valéria! Olha bem o tipo: ali está muito sentadinho, assustado com os devaneios de um ajudante de guarda-livros. Aquilo, para ele, é um romance de cavalaria.

         Valéria ficou ofendida com a observação, discutimos, saltamos do jovem Cândido para rancores mais remotos e assim estragamos o resto da viagem. Chovia quando o avião pousou em Lisboa. Abriram as portas, vieram as escadas e descemos debaixo de uma água escura. Enquanto recolhíamos as bagagens vi Cândido, apertado no seu casaco funesto, passar por nós em direção à saída.

         A placa dizia: “Nada a Declarar.” Nada tínhamos a declarar. O funcionário da alfândega, porém, olhou para mim, olhou para a minha amiga, abanou a cabeça com um ar de enfado, e fez-nos passar para a salinha ao lado. Cândido Mosso Rabin também estava lá, ainda mais pálido, piscando os olhos espantados por detrás das lentes grossas. Parecia que o tinham acordado, aos safanões, naquele preciso instante. O polícia colocou a mala dele num pequeno estrado, apalpou-a, como um médico examinando um cadáver, e abriu-a. Vasculhou entre os livros, entre as pilhas de roupa, tirou uma pequena caixa de metal, desenroscou a tampa e eu vi (vimos todos) o pó, muito branco, brilhando angustiado na penumbra.

         Valéria beliscou-me o ombro: “ganhei!” O polícia sorriu (a serpente a sorrir para o passarinho):

         E então, senhor David, você vai-me dizer o que é isso?

         O jovem olhou-o com o cansaço dos vencidos:

         É o meu pai.

         Mostrou um papel cheio de carimbos e assinaturas. Era realmente o pai dele, falecido em Petrópolis, incinerado em São Paulo, e que ao fim de cinquenta anos regressava a Lisboa.

In A substância do amor e outras crónicas, D. Quixote, 3ª ed.

sábado, 18 de junho de 2011

Excerto da crónica "O vampiro de Berlim" de Agualusa

       "O meu filho quer ser vampiro. Fui com ele a uma livraria, na intenção de lhe comprar O Mandarim, do Eça, e saímos de lá com uma coisa chamada Sangue Fresco. A coisa em causa tem um blogue ao seu serviço e serviu de base a uma série para a televisão, True Blood, criada por Alan Ball, que já se havia distinguido anteriormente ao produzir Sete Palmos de Terra. O meu filho convenceu-me também a comprar e a ver com ele Crepúsculo, sobre uma bela adolescente, Isabella (Kristen Stewart) que se apaixona por Edward Cullen (Robert Pattinson), um colega solitário e excessivamente maquilhado. “Eu não sou um super-herói, pelo contrário, estou do outro lado”, explica Edward à jovem, tentando justificar alguns dos seus estranhos poderes. Ela não se convence da maldade do rapaz, e com razão. Trata-se, na verdade, de um vampiro light, que recusa alimentar-se de sangue humano, o que a mim me parece uma perversão horrorosa.
     Quando eu tinha a idade do meu filho os vampiros eram honestamente mais e por isso gostávamos tanto deles. Agora bebem cerveja sem álcool, café sem cafeína, não fumam, são estudantes aplicados e demonstram uma exasperante propensão para a melancolia e o amor platónico. (…)
     Conheci um vampiro. Foi em 2001. Passei aquele ano em Berlim, a escrever, beneficiando de uma bolsa literária atribuída por uma instituição alemã. Uma noite a minha mulher adoeceu e vi-me forçado a chamar um médico. Creio que fui à lista telefónica e escolhi um ao acaso. Passado meia hora apareceu à porta um sujeito sem nada de notável, exceto a palidez de inválido, e uma ligeira gaguez, que na altura julguei ser consequência de um acanhamento indomável.
     Suponho que se apaixonou pela minha mulher, pois a partir daquela noite passou a visitar-nos às horas mais improváveis, trazendo flores, chocolates e — durante o Festival Internacional de Cinema de Berlim — bilhetes para os melhores filmes. Uma noite convidou-nos para jantar. Levou-nos a um restaurante caro, encomendou um vinho magnífico e tornou-se eloquente e (quase) divertido. Por fim, recostou-se e confessou que nos trouxera ali para revelar algo importante. Fez-nos aguardar alguns segundos, e anunciou: “Sou um vampiro!”
     Soltei uma gargalhada. Milagres de um bom vinho, pensei, capaz de transformar um alemão grave e tímido num razoável humorista. O homem esticou-se na cadeira, ainda mais pálido, e só então compreendi que falava a sério. “Sou um vampiro”, insistiu — voltara-lhe a gaguez. Acrescentou que pertencia a uma antiga confraria de vampiros teutónicos. Dias depois levou-nos a visitar uma amiga, artista plástica, em cujo estúdio se mergulhava através de uma intensa luz púrpura. (…) Também a artista fazia parte — pelo que julguei compreender — da tal confraria de vampiros.
     No dia em que saímos de Berlim foi o nosso vampiro quem nos levou ao aeroporto. Ofereceu-nos a, à despedida, três pequena estatuetas africanas, representando mascarados a dançar (muxiques). Guardo-as até hoje. Guardo igualmente uma série de postais, com temas vampíricos, que o nosso amigo nos enviou durante vários meses, e aos quais nunca respondemos.
     Foi em Berlim, portanto, que comecei a perder a fé nos vampiros. Vivemos num tempo estranho, em que já nem a maldade é genuína. Tentei explicar tudo isto ao meu filho, mas não tive sucesso. Ele insiste. Há de ser vampiro. Pior do que isso só lutador de wrestling. "
     José Eduardo Agualusa, in revista Pública, 19/4/2008 (texto com supressões)

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Ficha de aferição da leitura do episódio da Batalha de Aljubarrota (com correção)


1.    Responde às frases com V (verdadeiro) ou F (falso):
a.    Este episódio situa-se na Narração. ______
b.   O plano é o das reflexões do poeta. ______
c.    Este episódio é mitológico. ______
d.   O narrador é Vasco de Gama. ______
e.    Quem está a ouvir esta narração é o Rei de Portugal, D. João I. ______
f.     A Batalha de Aljubarrota deu-se no séc. XIV. ______
g.    A figura central deste episódio é Nuno Álvares Correia. ______
h.   O Rei D. João I também combateu ao lado dos soldados. ______
i.      Este episódio é composto por três partes lógicas. ______
j.      Na estância 29 existem várias personificações. ______
k.   O som da trombeta castelhana foi ouvido com indiferença pelos portugueses. ______
l.      Os vv. 3-4 da estância 30 querem dizer que não havia perigo nenhum. ______
m.           Do lado espanhol combateram alguns portugueses. ______
n.   Os maiores traidores de que se fala são os irmãos de D. João I. ______
o.   Na estância 31 existem muitas palavras associadas à sensação auditiva. ______
p.   A batalha foi cruel e mortífera, pois os portugueses eram muitos mais que os espanhóis. ______
q.   Na estância 33, no verso 1, existem duas apóstrofes. ______
r.    Na estância 33, no verso 5, encontramos uma hipérbole. ______
s.    Ao ver que os portugueses estão a perder o ânimo, o rei faz um discurso motivador. ______
t.     O discurso do rei não funciona porque os combatentes do lado português abandonam o terreno e fogem. ______
u.   Na estância 36 começa o discurso do rei. ______
v.    Para convencer a assembleia a combater, o rei utiliza o modo imperativo. ______
w. Na estância 38, encontramos uma hipérbole nos dois últimos versos. ______
x.    Na estância 39, quando o sujeito poético se refere ao “Márcio jogo” (v. 4) está a falar da guerra. ______
y.    Na estância 40, o “Estígio lago” (v.1) é o Paraíso. ______
z.    Os irmãos de Nuno Álvares Pereira sobreviveram à Batalha. ______
aa.          No verso 7 da estância 41 a bandeira castelhana é elogiada. ______
bb.         O Rei de Castela morreu na batalha de Aljubarrota. ______
cc.           No final da batalha, milhares de corpos estão caídos no chão. ______
dd.        Na estância 44 o sujeito poético faz o elogio da guerra. ______
ee.          Mal acabou a batalha, o rei D. João I regressou a Lisboa. ______
ff.       Nuno Álvares Pereira foi em perseguição dos castelhanos que sobreviveram. ______
Cotações:
Cada item vale 3,125 pontos
(32 questões x 3,125= 100 pontos)
A professora: Lucinda Cunha

São verdadeiras as alíneas: a, d, f, h, i, j, m, o, q, s, v, w, z, aa, cc, ff.


terça-feira, 14 de junho de 2011

Os Lusíadas

FICHA DE AVALIAÇÃO DE CONHECIMENTOS SOBRE O EPISÓDIO DE
 INÊS DE CASTRO – 9º ano de escolaridade

1.    Este episódio pode ser dividido em três grandes momentos.
1.1.           Delimita as estrofes correspondentes a cada uma das três partes:
·         breve introdução ao episódio;
·         episódio de Inês de Castro;
·         vingança de D. Pedro.


A-  A introdução

1.    Identifica o narrador.
2.  Diz em que plano narrativo se situa este excerto.
3.  Retira os versos que situam a ação no tempo e no espaço.
4.  Completa, com as palavras dadas, a síntese da introdução proposta por António José Saraiva:


Amor          rainha          vítimas        Portugal       memorável            guerra
                                   cruel                   morte                  paz


“Afonso voltou para ____________ a lograr a ____________ com a mesma felicidade que já tivera na ____________; aconteceu então o caso ____________ da malfadada que foi ____________ depois de morta.
Foi o ____________, unicamente, que deu causa à sua ____________, como se ela fosse uma inimiga. Dizem que o Amor ___________ não se contenta com as lágrimas: exige, como um deus despótico, _________ humanas.”
In Os Lusíadas, 2ª ed., Livr. Figueirinhas, 1999

B-  O episódio de Inês de Castro

1.    Neste episódio podemos, ainda, salientar cinco momentos que correspondem às estrofes indicadas no quadro que se segue. Completa-o, conforme os exemplos apresentados:


Estrofes
Frase-síntese
120-122 (vv.1-4)

122 (vv.5-8)- 124 (vv. 1-4)
Razões invocadas para a morte de Inês, trazida diante do rei.
124 (vv.5-8)- 129

130-133

134-135
Observações finais do narrador.


2.  Evidencia o principal sentimento que domina Inês na estrofe 120.


3.  Explica os versos:
“Naquele engano de alma ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito,”   (est. 120, vv. 3-4)

4.  Identifica o recurso estilístico presente no primeiro verso da estrofe 123.

5.  Atenta, agora, no discurso de Inês de Castro.
5.1.          Indica os argumentos apresentados por Inês para dissuadir o rei das suas intenções.
5.2.         Identifica a função de linguagem predominante no seu discurso.

6.  D. Afonso IV não fica indiferente às palavras de Inês. Todavia, acaba por manter a decisão inicial contra a própria vontade. Transcreve os versos que provam isso.

7.   Atenta na caracterização de Inês, depois de morta, na estrofe 134. Retira um recurso estilístico e identifica-o.

C-  A vingança de D. Pedro

1.    Explica de que modo a morte de Inês se refletiu no comportamento de D. Pedro depois de este se tornar rei de Portugal.



A professora: Lucinda Cunha