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Sei que há muita gente que consulta este blogue e utiliza os materiais aqui publicados, mas poucos deixam comentários e eu gostava mesmo de saber a vossa opinião... :-)

terça-feira, 31 de julho de 2012

Conto brasileiro sobre a força do amor


OS AMORES DE UIRAPURU, O PÁSSARO VERMELHO
uirapuru

(Conto tradicional do Brasil)

            Numa aldeia bem escondida na floresta da amazónia vivia uma índia tão linda que quase todos os rapazes sonhavam casar com ela. Alguns já tinham tentado falar-lhe de amor, mas ela só se ria e não dava importância especial a nenhum deles. Certo dia, porém, o feiticeiro da tribo foi procurar os pais da menina e pediu-a em casamento. Aquele pedido era uma honra. No entanto ficaram tristes porque o feiticeiro, velho e feíssimo, tinha várias mulheres e péssimo feitio. Mas não tiveram outro remédio senão chamar a filha e dizer-lhe que se preparasse para a cerimónia mais importante da vida de uma mulher. De nada serviu à indiazinha chorar toda a noite e de nada lhe serviu também fugir para a floresta. O feiticeiro conhecia melhor do que ninguém os esconderijos em redor da aldeia e depressa a encontrou. A menina, desesperada, teve de se submeter à vontade dos pais e casou com o feiticeiro. Em vão tentaram animá-la, pois nem velhos nem novos conseguiram arrancar-lhe uma palavra. A índia mais bonita da tribo passava os dias no mais completo silêncio e só fazia amizade com os pássaros que vinham beber na margem do rio. O seu preferido era um magnífico uirapuru de penas vermelhas que bebia, comia, voava, aproximando-se das pessoas muito mais do que os outros pássaros, mas sem emitir qualquer som.

            ― Talvez se sinta tão triste como eu ― pensava a indiazinha. ― Somos como irmãos.

            Durante muito tempo limitou-se a observá-lo, depois começou a espalhar pelo chão as bagas que ele mais gostava de comer. A partir de certa altura quis oferecer-lhe também água e usou a taça mais bonita que tinha na cabana. O pássaro aparecia todas as manhãs, comia, bebia, espanejava-se sobre a taça, em seguida voava em círculos, desaparecia e só voltava ao pôr-do-sol. A indiazinha esperava-o cada vez mais impaciente. Um dia não resistiu e tentou agarrá-lo para lhe fazer uma festa. No momento em que lhe tocou, o pássaro transformou-se num belo rapaz de grandes olhos pretos e cabelos negros que à luz do sol poente adquiriam reflexos avermelhados. Só então perceberam que não era a amizade natural entre irmãos que os unia, era amor, um amor tão forte que até tivera aquele efeito mágico. Caíram nos braços um do outro e passaram a encontrar-se às escondidas numa outra clareira, longe da margem do rio. Ele chegava sempre na forma de pássaro, debicava os frutos, bebia água fresca que ela lhe preparava e em seguida, roçando-lhe a pele, transformava-se em homem.

            O feiticeiro começou a desconfiar daquelas andanças da mulher. Resolveu segui-la à distância e surpreendeu a cena do encontro. Cego de raiva, preparou uma poção destinada a impedir que o pássaro voltasse a tomar forma humana.

            No dia seguinte, quando a mulher saiu sozinha, pôs-se a soprar numa flauta que tinha o poder de o tornar invisível, embrenhou-se na mata, dirigiu-se à clareira, despejou umas gotas da maldita poção na taça de água fresca e ficou à espera para saborear a vingança.

            O uirapuru, conforme era costume, comeu, bebeu, lavou as penas, mas depois, por muito que afagasse a sua amada com o bico e com as asas, continuou na forma de pássaro. Exasperado, cantou pela primeira vez na vida uma melodia tão suave, tão sentida, que os outros pássaros da floresta se calaram para o ouvir.

            O feiticeiro, radiante, soltou uma gargalhada e apareceu à mulher. Ela num relance percebeu tudo e precipitou-se a beber da água que lhe roubara o seu amado. No mesmo instante transformou-se num uirapuru, de brilhante plumagem vermelha, levantou voo e juntou-se ao companheiro que escolhera e com quem viver o resto da vida. Receando que o feiticeiro conseguisse caçá-los, passaram a esconder-se por entre as copas das árvores mais cerradas e aí cantavam em liberdade, bem longe dos homens e dos seus feitiços.

            Há quem diga que tiveram muitos filhos, muitos netos, muitos bisnetos e que a todos ensinaram que deviam cantar sem se deixarem ver. Por isso ainda hoje, mesmo quem ouve o canto perfeito do uirapuru, raramente o vê.

In Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, Rãs, Príncipes e Feiticeiros

domingo, 29 de julho de 2012

Um belo texto de Sepúlveda

Aqui fica um belo texto de Luís Sepúlveda que poderá dar-se a ler aos alunos quando estudarem A História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar. É um belo  e emocionante texto sobre o amor e o desprendimento, o altruísmo e a morte.

"O AMOR E A MORTE"

De manhã o carteiro entregou-me um pacote. Abri-o. Era o primeiro exemplar de um romance que escrevi a pensar nos meus três filhos pequenos. Sebastián, que tem onze anos, e os gémeos Max e León, que têm oito.
Escrevê-lo foi um acto de amor por eles, por uma cidade onde fomos intensamente felizes, Hamburgo, e pela personagem central, o gato Zorbas, um gato grande, preto e gordo que foi nosso companheiro de sonhos, histórias e aventuras durante muitos anos.
Justamente quando o carteiro estava a entregar-me aquele primeiro exemplar do romance e eu a sentir a felicidade de ver as minhas palavras na ordem meticulosa das suas páginas, estava Zorbas a ser examinado por um veterinário, queixoso de uma doença que começou por lhe tirar o apetite e o fez andar triste e murcho e que acabou por lhe dificultar dramaticamente a respiração. Fui buscá-lo à tarde e ouvi a terrível sentença: lamento, mas o gato tem um cranco pulmonar muito avançado.
Os parágrafos finais do romance falam de um gato nobre, de um gato bom, de um gato do porto, porque Zorbas é tudo isso e muito mais. Chegou às nossas vidas justamente na altura em que Sebastián nasceu e, com o tempo, passou de nosso gato a ser mais um companheiro, um querido companheiro de quatro patas e melódico ronronar.
Amámos aquele gato, e em nome deste amor tive de reunir os meus filhos para lhes falar da morte.
Falar-lhes da morte, a eles que são a minha razão de viver. A eles, tão pequenos, tão puros, tão ingénuos, tão confiantes, tão nobres, tão generosos. Lutei com as palavras à procura das mais adequadas para lhes explicar duas terríveis verdades.
A primeira era que Zorbas, por uma lei que não inventámos e à qual no entanto temos de nos submeter, mesmo à custa do nosso orgulho, ia morrer, como tudo e como todos. A segunda era que dependia de nós evitar-lhe uma morte atroz e dolorosa, porque o amor não consiste apenas em conseguir a felicidade do ser que amamos, mas também em evitar-lhe sofrimentos e preservar a sua dignidade.
Sei que as lágrimas dos meus filhos me hão-de acompanhar toda a vida. Como me senti pobre e miserável perante a sua indefesa… Que fraco me vi perante a impossibilidade de partilhar a sua justa ira, as suas recusas, os seus cânticos à vida, as suas imprecações a um deus que, por eles e só por eles, teria em mim um crente, as suas esperanças invocadas com toda a pureza dos homens no seu melhor estado…
Será a moral um atributo ou uma invenção dos homens? Como explicar-lhes que tínhamos o dever de preservar a dignidade e a inteireza daquele explorador dos telhados, aventureiro de jardins, terror dos ratos, trepador de castanheiros, brigão de pátios à luz da lua, habitante definitivo das nossas conversas e dos nossos sonhos?
Como explicar-lhes que há doenças que precisam do calor e da companhia dos sãos, mas que há outras que são pura agonia, pura, indigna e terrível agonia, cujo único sinal de vida é o desejo veemente de morrer?
E como responder ao drástico «porquê ele? Sim, porquê ele? O nosso companheiro de passeios na Floresta Negra. Que gato tão maluco! As pessoas murmuravam ao vê-lo a correr ao nosso lado ou montado no porta-bagagens de uma bicicleta. Porquê ele? O nosso gato de mar que navegou connosco num veleiro pelas águas do Categate. O nosso gato que, mal eu abria a porta do carro, era o primeiro a subir, feliz perante a ideia de viajar. Porquê ele? De que me vale tudo o que vivi se não tive resposta para essa pergunta?
Falámos rodeando o Zorbas, que nos ouvia de olhos fechados, confiando em nós, como sempre. Cada uma das palavras entrecortadas de choro caiu sobre a sua pele negra. Acariciando-o, reafirmando-lhe que estávamos com ele, dizendo-lhe que aquele amor que nos unia nos levava à mais dolorosa das determinações.
Os meus filhos, os meus pequenos companheiros, os meus homenzinhos, os meus pequenos, ternos e duros homens murmuravam que sim, que Zorbas levasse aquela injecção que o faria dormir, sonhar com um mundo sem neve e com cães amáveis, com telhados amplos e ensolarados, com árvores infinitas. Da copa de uma delas há-de olhar-nos para nos lembrar que nunca se esquece de nós.
Escrevo de noite. Zorbas, que mal respira, descansa aos meus pés. A pele brilha-lhe à luz do candeeiro. Faço-lhe uma festa com tristeza e impotência. Ele é testemunha de tantas noites de escrita, de tantas páginas. Partilhor comigo a solidão e o vazio que vêm depois de colocado o ponto final num romance. Recitei-lhe as minhas dúvidas e os poemas que penso escrever um dia.
Zorbas. Amanhã, por amor, teremos perdido um grande companheiro.

P.S. Zorbas repousa ao pé de um castanheiro, na Baviera. Os meus filhos fizeram uma lápide de madeira onde se lê: «Zorbas. Hamburgo 1984 – Vilsheim 1996. Peregrino: aqui jaz o mais nobre dos gatos. Ouve-o ronronar»."

Luís Sepúlveda, As Rosas de Atacama



In http://murcon.blogspot.pt/2005/08/levei-os-meus-livros-do-eugnio-para.html

sexta-feira, 27 de julho de 2012

História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar, de Luís Sepúlveda

No youtube existe o filme em italiano. Para o encontrarem basta escrever no motor de busca "il gatto e la gabbianella". Apesar de não estar em português, dá para perceber a história (que é adaptada, claro).
Aqui fica um excerto:

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Uma história de S. Tomé


Cantagalo (Uma história de S. Tomé e Príncipe)



Há muitos, muitos anos todos os galos do mundo se refugiavam na Ilha de São Tomé, talvez por ser uma terra lindíssima e boa para viver. Quando o Sol rompia as nuvens, de madrugada, punham-se todos a cantar anunciando um novo dia: «Cocorococó!» A alegria imensa de estarem juntos e o facto de as suas vozes funcionarem bem em coro, levava-os a repetir a cantoria a qualquer hora, esquecendo que incomodavam os outros habitantes da ilha.
Havia pessoas que lhes achavam graça e até gabavam aquela alegria contagiante que enchia a atmosfera de música. Mas a maior parte reclamava: «Isto não pode ser! Precisamos de sossego! Ninguém aguenta esta barulheira...»
Os dois grupos discutiam, uns a favor dos galos, outros contra. E as conversas iam-se tornando tão azedas que por pouco não se envolviam à pancada. Então um homem sensato resolveu tomar medidas para resolver o assunto. Pegou num papel e numa caneta e escreveu a seguinte mensagem para os galos: «Aconselho-vos a emigrarem e a fixarem-se num local afastado onde possam cantar quando lhes apetecer sem se tornarem aborrecidos. Se não aceitarem a sugestão, haverá guerra.»
Os galos, sendo bem-educados e pouco apreciadores de brigas, preferiram partir. Reuniram-se para escolher um rei que chefiasse a expedição; a escolha do recaiu num enorme galo preto, de que todos gostavam muito porque tinha imensas qualidades, e lá foram em busca de um sítio ideal para músicos bem-dispostos e barulhentos que gostavam de gozar a vida sem se tornarem incómodos. Juntos deram voltas e mais voltas pelas ilhas e pelos ilhéus do arquipélago, até encontrarem o que pretendiam. Ali ficaram para sempre e as pessoas batizaram o lugar com o nome de Cantagalo. Esse lugar ainda hoje existe.

História retirada do livro "Rãs, Príncipes e Feiticeiros - Oito Histórias dos Oito Países Que Falam Português. Caminho.



In http://blogdesenvolvimento.blogspot.pt

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Conto popular de Angola


A rã Mainu (conto popular de Angola)



Quando o filho de Kimanaueza chegou à idade de casar, o pai perguntou.-lhe se queria escolher a noiva. Mas ele deu uma resposta surpreendente:

– Não me casarei com uma mulher da terra, só casarei com a filha do senhor SOL e da senhora LUA.

– E como pensas pedi-la em casamento?

– Cá me hei de arranjar.

O rapaz escreveu uma carta e foi pedir a um veado que a levasse. Ele recusou:

– Sendo um animal terrestre, não posso levar ao céu a carta.

– Tens razão, vou arranjar outro mensageiro.

Depois de falar com o antílope que lhe deu uma resposta semelhante à do veado, o rapaz procurou quem pudesse voar. Teve uma conversa com o falcão, que ainda agitou as asas mas desistiu:

– Desculpa, não te posso valer. O céu é muito alto.

Quanto ao abutre, foi mais direto:

– Nem penses. O fôlego só me permite ir até meio caminho.

Desconsolado o rapaz guardou a carta. Acontece que a notícia daquele estranho desejo já se tinha espalhado pela aldeia e chegou aos ouvidos da rã Mainu, que resolveu oferecer os seus serviços. O rapaz ficou admirado e até zangado:

– Como te atreves a dizer que vais ao céu se aqueles que possuem asas garantem que não é possível!

– Dá-me a carta e eu levo-a - insistiu a rã Mainu.

Ele aceitou com maus modos.

– Toma. Mas olha que se não cumprires o combinado, levas uma sova.

A rã não ficou nada aflita. Dirigiu-se ao poço onde o povo do Sol e da Lua costumava abastecer-se de água, prendeu a carta na boca, desceu e ficou quieta.

As pessoas esperadas não tardaram e logo que lançaram o balde à água a rã entrou disfarçadamente e assim viajou até ao céu sem ninguém saber. Chegando ao destino, deu um pulo e foi colocar a carta no quarto do rei Sol e da senhora Lua. Eles ficaram muito admirados quando leram a carta mas aceitaram o pedido. A rã Mainu regressou a casa pelo mesmo processo. A noiva desceu à terra deslizando por um fio especial tecido pela aranha que servia o rei.

O rapaz casou com a filha do senhor Sol e da senhora Lua, foram felizes para sempre e tudo graças à inteligência viva da rã Mainu.


 In http://www.ciadejovensgriots.org.br/Contos_Africanos_Infantis/Gracas_a_ra_Mainu.php

Conto que consta também em Rãs, Príncipes e Feiticeiros (oito histórias dos oito países que falam português), de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, com ilustrações de Danuta Wojciechowska.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

O Conto da Ilha Desconhecida, de Saramago


in Google.pt

Um homem foi bater à porta do rei e disse-lhe, Dá-me um barco. A casa do rei tinha muitas mais portas, mas aquela era a das petições. Como o rei passava todo o tempo sentado à porta dos obséquios (entenda-se, os obséquios que lhe faziam a ele), de cada vez que ouvia alguém a chamar à porta das petições fingia-se desentendido, e só quando o ressoar contínuo da aldraba de bronze se tornava, mais do que notório, escandaloso, tirando o sossego à vizinhança (as pessoas começavam a murmurar, Que rei temos nós, que não atende), é que dava ordem ao primeiro-secretário para ir saber o que queria o impetrante, que não havia maneira de se calar. Então, o primeiro-secretário chamava o segundo-secretário, este chamava o terceiro, que mandava o primeiro-ajudante, que por sua vez mandava o segundo, e assim por aí fora até chegar à mulher da limpeza, a qual, não tendo ninguém em quem mandar, entreabria a porta das petições e perguntava pela frincha, Que é que tu queres. O suplicante dizia ao que vinha, isto é, pedia o que tinha a pedir, depois instalava-se a um canto da porta, à espera de que o requerimento fizesse, de um em um, o caminho ao contrário, até chegar ao rei. Ocupado como sempre estava com os obséquios, o rei demorava a resposta, e já não era pequeno sinal de atenção ao bem-estar e felicidade do seu povo quando resolvia pedir um parecer fundamentado por escrito ao primeiro-secretário, o qual, escusado se ria dizer, passava a encomenda ao segundo-secretário, este ao terceiro, sucessivamente, até chegar outra vez à mulher da limpeza, que despachava sim ou não conforme estivesse de maré.

Contudo, no caso do homem que queria um barco, as coisas não se passaram bem assim. Quando a mulher da limpeza lhe perguntou pela nesga da porta, Que é que tu queres, o homem, em lugar de pedir, como era o costume de todos, um título, uma condecoração, ou simplesmente dinheiro, respondeu, Quero falar ao rei, Já sabes que o rei não pode vir, está na porta dos obséquios, respondeu a mulher, Pois então vai lá dizer-lhe que não saio daqui até que ele venha, pessoalmente, saber o que quero, rematou o homem, e deitou-se ao comprido no limiar, tapando-se com a manta por causa do frio. Entrar e sair, só por cima dele. Ora, isto era um enorme problema, se tivermos em consideração que, de acordo com a pragmática das portas, ali só se podia atender um suplicante de cada vez, donde resultava que, enquanto houvesse alguém à espera de resposta, nenhuma outra pessoa se poderia aproximar a fim de expor as suas necessidades ou as suas ambições. À primeira vista, quem ficava a ganhar com este artigo do regulamento era o rei, dado que, sendo menos numerosa a gente que o vinha incomodar com lamúrias, mais tempo ele passava a ter, e mais descanso, para receber, contemplar e guardar os obséquios. À segunda vista, porém, o rei perdia, e muito, porque os protestos públicos, ao notar-se que a resposta estava a tardar mais do que o justo, faziam aumentar gravemente o descontentamento social, o que, por seu turno, ia ter imediatas e negativas consequências no afluxo de obséquios. No caso que estamos narrando, o resultado da ponderação entre os benefícios e os prejuízos foi ter ido o rei, ao cabo de três dias, e em real pessoa, à porta das petições, para saber o que queria o intrometido que se havia negado a encaminhar o requerimento pelas competentes vias burocráticas. Abre a porta, disse o rei à mulher da limpeza, e ela perguntou, Toda, ou só um bocadinho. O rei duvidou por um instante, na verdade não gostava muito de se expor aos ares da rua, mas depois reflexionou que pareceria mal, além de ser indigno da sua majestade, falar com um súdito através de uma nesga, como se tivesse medo dele, mormente estando a assistir ao colóquio a mulher da limpeza, que logo iria dizer por aí sabe Deus o quê, De par em par, ordenou. O homem que queria um barco levantou-se do degrau da porta quando começou a ouvir correr os ferrolhos, enrolou a manta e pôs-se à espera. Estes sinais de que finalmente alguém vinha atender, e que portanto a praça não tardaria a ficar desocupada, fizeram aproximar-se da porta uns quantos aspirantes à liberalidade do trono que por ali andavam, prontos a assaltar o lugar mal ele vagasse. O inopinado aparecimento do rei (nunca uma tal coisa havia sucedido desde que ele andava de coroa na cabeça) causou uma surpresa desmedida, não só aos ditos candidatos mas também à vizinhança que, atraída pelo repentino alvoroço, assomara às janelas das casas, no outro lado da rua. A única pessoa que não se surpreendeu por aí além foi o homem que tinha vindo pedir um barco. Calculara ele, e acertara na previsão, que o rei, mesmo que demorasse três dias, haveria de sentir-se curioso de ver a cara de quem, sem mais nem menos, com notável atrevimento, o mandara chamar. Repartido pois entre a curiosidade que não pudera reprimir e o desagrado de ver tanta gente junta, o rei, com o pior dos modos, perguntou três perguntas seguidas, Que é que queres, Por que foi que não disseste logo o que querias, Pensarás tu que eu não tenho mais nada que fazer, mas o homem só respondeu à primeira pergunta, Dá-me um barco, disse. O assombro deixou o rei a tal ponto desconcertado, que a mulher da limpeza se apressou a chegar-lhe uma cadeira de palhinha, a mesma em que ela própria se sentava quando precisava de trabalhar de linha e agulha, pois, além da limpeza, tinha também à sua responsabilidade alguns, trabalhos menores de costura no palácio como passajar as peúgas dos pajens. Mal sentado, porque a cadeira de palhinha era muito mais baixa que o trono, o rei estava a procurar a melhor maneira de acomodar as pernas, ora encolhendo-as ora estendendo-as para os lados, enquanto o homem que queria um barco esperava com paciência a pergunta que se seguiria, E tu para que queres um barco, pode-se saber, foi o que o rei de facto perguntou quando finalmente se deu por instalado, com sofrível comodidade, na cadeira da mulher da limpeza, Para ir à procura da ilha desconhecida, respondeu o homem, Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, dos que têm a mania das navegações, a quem não seria bom contrariar logo de entrada, A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, já não há ilhas desconhecidas, Quem foi que te disse, rei, que já não há ilhas desconhecidas, Estão todas nos mapas, Nos mapas só estão as ilhas conhecidas, E que ilha desconhecida é essa de que queres ir à procura, Se eu to pudesse dizer, então não seria desconhecida, A quem ouviste tu falar dela, perguntou o rei, agora mais sério, A ninguém, Nesse caso, por que teimas em dizer que ela existe, Simplesmente porque é impossível que não exista uma ilha desconhecida, E vieste aqui para me pedires um barco, Sim, vim aqui para pedir-te um barco, E tu quem és, para que eu to dê, E tu quem és, para que não mo dês, Sou o rei deste reino, e os barcos do reino pertencem-me todos, Mais lhes pertencerás tu a eles do que eles a ti, Que queres dizer, perguntou o rei, inquieto, Que tu, sem eles, és nada, e que eles, sem ti, poderão sempre navegar, Às minhas ordens, com os meus pilotos e os meus marinheiros, Não te peço marinheiros nem piloto, só te peço um barco, E essa ilha desconhecida, se a encontrares, será para mim, A ti, rei, só te interessam as ilhas conhecidas, Também me interessam as desconhecidas quando deixam de o ser, Talvez esta não se deixe conhecer, Então não te dou o barco, Darás. Ao ouvirem esta palavra, pronunciada com tranquila firmeza, os aspirantes à porta das petições, em quem, minuto após minuto, desde o princípio da conversa, a impaciência vinha crescendo, e mais para se verem livres dele do que por simpatia solidária, resolveram intervir a favor do homem que queria o barco, começando a gritar, Dá-lhe o barco, dá-lhe o barco. O rei abriu a boca para dizer à mulher da limpeza que chamasse a guarda do palácio a vir restabelecer imediatamente a ordem pública e impor a disciplina, mas, nesse momento, as vizinhas que assistiam das janelas juntaram-se ao coro com entusiasmo, gritando como os outros, Dá-lhe o barco, dá-lhe o barco. Perante uma tão iniludível manifestação da vontade popular e preocupado com o que, neste meio tempo, já haveria perdido na porta dos obséquios, o rei levantou a mão direita a impor silêncio e disse, Vou dar-te um barco, mas a tripulação terás de arranjá-la tu, os meus marinheiros são-me precisos para as ilhas conhecidas. Os gritos de aplauso do público não deixaram que se percebesse o agradecimento do homem que viera pedir um barco, aliás o movimento dos lábios tanto teria podido ser Obrigado, meu senhor, como Eu cá me arranjarei, mas o que distintamente se ouviu foi o dito seguinte do rei, Vais à doca, perguntas lá pelo capitão do porto, dizes-lhe que te mandei eu, e ele que te dê o barco, levas o meu cartão. O homem que ia receber um barco leu o cartão de visita, onde dizia Rei por baixo do nome do rei, e eram estas as palavras que ele havia escrito sobre o ombro da mulher da limpeza, Entrega ao portador um barco, não precisa ser grande, mas que navegue bem e seja seguro, não quero ter remorsos na consciência se as coisas lhe correrem mal. Quando o homem levantou a cabeça, supõe-se que desta vez é que iria agradecer a dádiva, já o rei se tinha retirado, só estava a mulher da limpeza a olhar para ele com cara de caso. O homem desceu do degrau da porta, sinal de que os outros candidatos podiam enfim avançar, nem valeria a pena explicar que a confusão foi indescritível, todos a quererem chegar ao sítio em primeiro lugar, mas com tão má sorte que a porta já estava fechada outra vez. A aldraba de bronze tornou a chamar a mulher da limpeza, mas a mulher da limpeza não está, deu a volta e saiu com o balde e a vassoura por outra porta, a das decisões, que é raro ser usada, mas quando o é, é. Agora sim, agora pode-se compreender o porquê da cara de caso com que a mulher da limpeza havia estado a olhar, foi esse o preciso momento em que ela resolveu ir atrás do homem quando ele se dirigisse ao porto a tomar conta do barco. Pensou ela que já bastava de uma vida a limpar e a lavar palácios, que tinha chegado a hora de mudar de ofício, que lavar e limpar barcos é que era a sua vocação verdadeira, no mar, ao menos, a água nunca lhe faltaria. O homem nem sonha que, não tendo ainda sequer começado a recrutar os tripulantes, já leva atrás de si a futura encarregada das baldeações e outros asseios, também é deste modo que o destino costuma comportar-se connosco, já está mesmo atrás de nós, já estendeu a mão para tocar-nos o ombro, e nós ainda vamos a murmurar, Acabou-se, não há mais que ver, é tudo igual.

Andando, andando, o homem chegou ao porto, foi à doca, perguntou pelo capitão, e enquanto ele não chegava deitou-se a adivinhar qual seria, de quantos barcos ali estavam, o que iria ser o seu, grande já se sabia que não, o cartão de visita do rei era muito claro neste ponto, por conseguinte ficavam de fora os paquetes, os cargueiros e os navios de guerra, tão-pouco poderia ser ele tão pequeno que resistisse mal às forças do vento e aos rigores do mar, o rei também havia sido categórico neste ponto, Que navegue bem e seja seguro, foram estas as suas formais palavras, assim implicitamente excluindo os botes, as faluas e os escaleres, os quais, sendo bons navegantes, e seguros, conforme a condição de cada qual, não tinham nascido para sulcar os oceanos, que é onde se encontram as ilhas desconhecidas. Um pouco afastada dali, escondida por trás de uns bidões, a mulher da limpeza correu os olhos pelos barcos atracados, Para o meu gosto, aquele, pensou, porém a sua opinião não contava, nem sequer havia sido ainda contratada, vamos ouvir antes o que dirá o capitão do porto. O capitão veio, leu o cartão, mirou o homem de alto a baixo, e fez a pergunta que o rei se tinha esquecido de fazer, Sabes navegar, tens carta de navegação, ao que o homem respondeu, Aprenderei no mar. O capitão disse, Não to aconselharia, capitão sou eu, e não me atrevo com qualquer barco, Dá-me então um com que possa atrever-me eu, não, um desses não, dá-me antes um barco que eu respeite e que possa respeitar-me a mim, Essa linguagem é de marinheiro, mas tu não és marinheiro, Se tenho a linguagem, é como se o fosse. O capitão tornou a ler o cartão do rei, depois perguntou, Poderás dizer-me para que queres o barco, Para ir à procura da ilha desconhecida, Já não há ilhas desconhecidas, O mesmo me disse o rei, O que ele sabe de ilhas, aprendeu-o comigo, É estranho que tu, sendo homem do mar, me digas isso, que já não há ilhas desconhecidas, homem da terra sou eu, e não ignoro que todas as ilhas, mesmo as conhecidas, são desconhecidas enquanto não desembarcarmos nelas, Mas tu, se bem entendi, vais à procura de uma onde nunca ninguém tenha desembarcado, Sabê-lo-ei quando lá chegar, Se chegares, Sim, às vezes naufraga-se pelo caminho, mas, se tal me viesse a acontecer, deverias escrever nos anais do porto que o ponto a que cheguei foi esse, Queres dizer que chegar, sempre se chega, Não serias quem és se não o soubesses já. O capitão do porto disse, Vou dar-te a embarcação que te convém, Qual é ela, É um barco com muita experiência, ainda do tempo em que toda a gente andava à procura de ilhas desconhecidas, Qual é ele, Julgo até que encontrou algumas, Qual, Aquele. Assim que a mulher da limpeza percebeu para onde o capitão apontava, saiu a correr de detrás dos bidões e gritou, É o meu barco, é o meu barco, há que perdoar-lhe a insólita reivindicação de propriedade, a todos os títulos abusiva, o barco era aquele de que ela tinha gostado, simplesmente. Parece uma caravela, disse o homem, Mais ou menos, concordou o capitão, no princípio era uma caravela, depois passou por arranjos e adaptações que a modificaram um bocado, Mas continua a ser uma caravela, Sim, no conjunto conserva o antigo ar, E tem mastros e velas, Quando se vai procurar ilhas desconhecidas, é o mais recomendável. A mulher da limpeza não se conteve, Para mim não quero outro, Quem és tu, perguntou o homem, Não te lembras de mim, Não tenho idéia, Sou a mulher da limpeza, Qual limpeza, A do palácio do rei, A que abria a porta das petições, Não havia outra, E por que não estás tu no palácio do rei a limpar e a abrir portas, Porque as portas que eu realmente queria já foram abertas e porque de hoje em diante só limparei barcos, Então estás decidida a ir comigo procurar a ilha desconhecida, Saí do palácio pela porta das decisões, Sendo assim, vai para a caravela, vê como está aquilo, depois do tempo que passou deve precisar de uma boa lavagem, e tem cuidado com as gaivotas, que não são de fiar, Não queres vir comigo conhecer o teu barco por dentro, Tu disseste que era teu, Desculpa, foi só porque gostei dele, Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar. O capitão do porto interrompeu a conversa, Tenho de entregar as chaves ao dono do barco, a um ou a outro, resolvam-se, a mim tanto se me dá, Os barcos têm chave, perguntou o homem, Para entrar, não, mas lá estão as arrecadações e os paióis, e a escrivaninha do comandante com o diário de bordo, Ela que se encarregue de tudo, eu vou recrutar a tripulação, disse o homem, e afastou-se.

A mulher da limpeza foi ao escritório do capitão para recolher as chaves, depois entrou no barco, duas coisas lhe valeram aí, a vassoura do palácio e a prevenção contra as gaivotas, ainda não tinha acabado de atravessar a prancha que ligava a amurada ao cais e já as malvadas estavam a precipitar-se sobre ela aos guinchos, furiosas, de goela aberta, como se ali mesmo a quisessem devorar. Não sabiam com quem se metiam. A mulher da limpeza pousou o balde, meteu as chaves no seio, firmou bem os pés na prancha, e, redemoinhando a vassoura como se fosse um espadão dos tempos antigos, fez debandar o bando assassino. Foi só quando entrou no barco que compreendeu a ira das gaivotas, havia ninhos por toda a parte, muitos deles abandonados, outros ainda com ovos, e uns poucos com gaivotinhos de bico aberto, à espera da comida, Pois sim, mas o melhor é mudarem-se daqui, um barco que vai procurar a ilha desconhecida não pode ter este aspecto, como se fosse um galinheiro, disse. Atirou para a água os ninhos vazios, quanto aos outros deixou-os ficar, até ver. Depois arregaçou as mangas e pôs-se a lavar a coberta. Quando acabou a dura tarefa, foi abrir o paiol das velas e procedeu a um exame minucioso do estado das costuras, depois de tanto tempo sem irem ao mar e sem terem de suportar os esticões saudáveis do vento. As velas são os músculos do barco, basta ver como incham quando se esforçam, mas, e isso mesmo sucede aos músculos, se não se lhes dá uso regularmente, abrandam, amolecem, perdem nervo, E as costuras são como os nervos das velas, pensou a mulher da limpeza, contente por estar a aprender tão depressa a arte de marinharia. Achou esgarçadas algumas bainhas, mas contentou-se com assinalá-las, uma vez que para este trabalho não podiam servir a linha e a agulha com que passajava as peúgas dos pajens antigamente, quer dizer, ainda ontem. Quanto aos outros paióis, viu logo que estavam vazios. Que o da pólvora estivesse desmunido, salvo uns pozinhos negros no fundo, que primeiro mais lhe pareceram caganitas de rato, não lhe importou nada, de facto não está escrito em nenhuma lei, pelo menos até onde a sabedoria duma mulher da limpeza é capaz de alcançar, que ir em busca duma ilha desconhecida tenha de ser forçosamente uma empresa de guerra. Já a ralou, e muito, a falta absoluta de munições de boca no paiol respectivo, não por si própria, que estava mais do que acostumada ao mau passadio do palácio, mas por causa do homem a quem deram este barco, não tarda que o sol se ponha, e ele a aparecer-me aí a clamar que tem fome, que é o dito de todos os homens mal entram em casa, como se só eles é que tivessem estômago e sofressem da necessidade de o encher, E se já traz marinheiros para a tripulação, que são uns ogres a comer, então é que não sei como nos iremos governar, disse a mulher da limpeza.

Não valia a pena ter-se preocupado tanto. O sol havia acabado de sumir-se no oceano quando o homem que tinha um barco surgiu no extremo do cais. Trazia um embrulho na mão, porém vinha sozinho e cabisbaixo. A mulher da limpeza foi esperá-lo à prancha, mas antes que ela abrisse a boca para se inteirar de como lhe tinha corrido o resto do dia, ele disse, Está descansada, trago aqui comida para os dois, E os marinheiros, perguntou ela, Não veio nenhum, como podes ver, Mas deixaste-os apalavrados, ao menos, tornou ela a perguntar, Disseram-me que já não há ilhas desconhecidas, e que, mesmo que as houvesse, não iriam eles tirar-se do sossego dos seus lares e da boa vida dos barcos de carreira para se meterem em aventuras oceânicas, à procura de um impossível, como se ainda estivéssemos no tempo do mar tenebroso, E tu, que lhes respondeste, Que o mar é sempre tenebroso, E não lhes falaste da ilha desconhecida, Como poderia falar-lhes eu duma ilha desconhecida, se não a conheço, Mas tens a certeza de que ela existe, Tanta como a de ser tenebroso o mar, Neste momento, visto daqui, com aquela água cor de jade e o céu como um incêndio, de tenebroso não lhe encontro nada, É uma ilusão tua, também as ilhas às vezes parece que flutuam sobre as águas, e não é verdade, Que pensas fazer, se te falta a tripulação, Ainda não sei, Podíamos ficar a viver aqui, eu oferecia-me para lavar os barcos que vêm à doca, e tu, E eu, Tens com certeza um mester, um ofício, uma profissão, como agora se diz, Tenho, tive, terei se for preciso, mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passajar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa. O incêndio do céu ia esmorecendo, a água arroxeou-se de repente, agora nem a mulher da limpeza duvidaria de que o mar é mesmo tenebroso, pelo menos a certas horas. Disse o homem, Deixemos as filosofias para o filósofo do rei, que para isso é que lhe pagam, agora vamos nós comer, mas a mulher não esteve de acordo, Primeiro, tens de ver o teu barco, só o conheces por fora, Que tal o encontraste, Há algumas bainhas das velas que estão a precisar de reforço, Desceste ao porão, encontraste água aberta, No fundo vê-se alguma, de mistura com o lastro, mas isso parece que é próprio, faz bem ao barco, Como foi que aprendeste essas coisas, Assim, Assim como, Como tu, quando disseste ao capitão do porto que aprenderias a navegar no mar, Ainda não estamos no mar, Mas já estamos na água, Sempre tive a idéia de que para a navegação só há dois mestres verdadeiros, um que é o mar, o outro que é o barco, E o céu, estás a esquecer-te do céu, Sim, claro, o céu, Os ventos, As nuvens, O céu, Sim, o céu.

Em menos de um quarto de hora tinham acabado a volta pelo barco, uma caravela, mesmo transformada, não dá para grandes passeios. É bonita, disse o homem, mas se eu não conseguir arranjar tripulantes suficientes para a manobra, terei de ir dizer ao rei que já não a quero, Perdes o ânimo logo à primeira contrariedade, A primeira contrariedade foi estar à espera do rei três dias, e não desisti, Se não encontrares marinheiros que queiram vir, cá nos arranjaremos os dois, Estás doida, duas pessoas sozinhas não seriam capazes de governar um barco destes, eu teria de estar sempre ao leme, e tu, nem vale a pena estar a explicar-te, é uma loucura, Depois veremos, agora vamos mas é comer. Subiram para o castelo de popa, o homem ainda a protestar contra o que chamara loucura, e, ali, a mulher da limpeza abriu o farnel que ele tinha trazido, um pão, queijo duro, de cabra, azeitonas, uma garrafa de vinho. A lua já estava meio palmo sobre o mar, as sombras da verga e do mastro grande vieram deitar-se-lhes aos pés. É realmente bonita a nossa caravela, disse a mulher, e emendou logo, A tua, a tua caravela, Desconfio que não o será por muito tempo, Navegues ou não navegues com ela, é tua, deu-ta o rei, Pedi-lha para ir procurar uma ilha desconhecida, Mas estas coisas não se fazem do pé para a mão, levam o seu tempo, já o meu avô dizia que quem vai ao mar avia-se em terra, e mais não era ele marinheiro, Sem tripulantes não poderemos navegar, Já o tinhas dito, E há que abastecer o barco das mil coisas necessárias a uma viagem como esta, que não se sabe aonde nos levará, Evidentemente, e depois teremos de esperar que seja a boa estação, e sair com a boa maré, e vir gente ao cais a desejar-nos boa viagem, Estás a rir-te de mim, Nunca me riria de quem me fez sair pela porta das decisões, Desculpa-me, E não tornarei a passar por ela, suceda o que suceder. O luar iluminava em cheio a cara da mulher da limpeza, É bonita, realmente é bonita, pensou o homem, que desta vez não estava a referir-se à caravela. A mulher, essa, não pensou nada, devia ter pensado tudo durante aqueles três dias, quando entreabria de vez em quando a porta para ver se aquele ainda continuava lá fora, à espera. Não sobrou migalha de pão ou de queijo, nem gota de vinho, os caroços das azeitonas foram atirados para a água, o chão está tão limpo como ficara quando a mulher da limpeza lhe passou por cima o último esfregão. A sereia de um paquete que saía para o mar soltou um ronco potente, como deviam ter sido os do leviatã, e a mulher disse, Quando for a nossa vez faremos menos barulho. Apesar de estarem no interior da doca, a água ondulou um pouco à passagem do paquete, e o homem disse, Mas baloiçaremos muito mais. Riram os dois, depois ficaram calados, passado um bocado um deles opinou que o melhor seria irem dormir, Não é que eu tenha muito sono, e o outro concordou, Nem eu, depois calaram-se outra vez, a lua subiu e continuou a subir, em certa altura a mulher disse, Há beliches lá em baixo, o homem disse, Sim, e foi então que se levantaram, que desceram à coberta, aí a mulher disse, Até amanhã, eu vou para este lado, e o homem respondeu, E eu vou para este, até amanhã, não disseram bombordo nem estibordo, decerto por estarem ainda a praticar na arte. A mulher voltou atrás, Tinha-me esquecido, tirou do bolso do avental dois cotos de vela, Encontrei-os quando andava a limpar, o que não tenho é fósforos, Eu tenho, disse o homem. Ela segurou as velas, uma em cada mão, ele acendeu um fósforo, depois, abrigando a chama sob a cúpula dos dedos curvados, levou-a com todo o cuidado aos velhos pavios, a luz pegou, cresceu lentamente como faz o luar, banhou a cara da mulher da limpeza, nem seria preciso dizer o que ele pensou, É bonita, mas o que ela pensou, sim, Vê-se bem que só tem olhos para a ilha desconhecida, aqui está como as pessoas se enganam nos sentidos do olhar, sobretudo ao princípio. Ela entregou-lhe uma vela, disse, Até amanhã, dorme bem, ele quis dizer o mesmo doutra maneira, Que tenhas sonhos felizes, foi a frase que lhe saiu, daqui a pouco, quando lá estiver em baixo, deitado no seu beliche, vir-lhe-ão à ideia outras frases, mais espirituosas, sobretudo mais insinuantes, como se espera que sejam as de um homem quando está a sós com uma mulher. Perguntava-se se já dormiria, se teria tardado a entrar no sono, depois imaginou que andava à procura dela e não a encontrava em nenhum sítio, que estavam perdidos os dois num barco enorme, o sonho é um prestidigitador hábil, muda as proporções das coisas e as suas distâncias, separa ás pessoas, e elas estão juntas, reúne-as, e quase não se vêem uma à outra, a mulher dorme a poucos metros e ele não soube como alcançá-la, quando é tão fácil ir de bombordo a estibordo.

Tinha-lhe desejado felizes sonhos, mas foi ele quem levou toda a noite a sonhar. Sonhou que a sua caravela ia no mar alto, com as três velas triangulares gloriosamente enfunadas, abrindo caminho sobre as ondas, enquanto ele manejava a roda do leme e a tripulação descansava à sombra. Não percebia como podiam ali estar os marinheiros que no porto e na cidade se tinham recusado a embarcar com ele para ir à procura da ilha desconhecida, provavelmente arrependeram-se da grosseira ironia com que o haviam tratado. Via animais espalhados pela coberta, patos, coelhos, galinhas, o habitual da criação doméstica, debicando os grãos de milho ou roendo as folhas de couve que um marinheiro lhes atirava, não se lembrava de quando os tinha trazido para o barco, fosse como fosse era natural que ali estivessem, imaginemos que a ilha desconhecida é, como tantas vezes o foi no passado, uma ilha deserta, o melhor será jogar pelo seguro, todos sabemos que abrir a porta da coelheira e agarrar um coelho pelas orelhas sempre foi mais fácil do que persegui-lo por montes e vales. Do fundo do porão veio agora um coro de relinchos de cavalos, de mugidos de bois, de zurros de asnos, as vozes dos nobres animais necessários para o trabalho pesado, e como foi que vieram eles, como podem estar numa caravela onde a tripulação humana mal cabe, de súbito o vento deu uma guinada, a vela maior bateu e ondulou, por trás dela estava o que antes não se vira, um grupo de mulheres que mesmo sem as contar se adivinha serem tantas quantos os marinheiros, ocupam-se nas suas coisas de mulheres, ainda não chegou o tempo de se ocuparem doutras, está claro que isto só pode ser um sonho, na vida real nunca se viajou assim. O homem do leme buscou com os olhos a mulher da limpeza e não a viu, Talvez esteja no beliche de estibordo, a descansar da lavagem da coberta, pensou, mas foi um pensar fingido, porque ele bem sabe, embora também não saiba como o sabe, que ela à última hora não quis vir, que saltou para o cais, dizendo de lá, Adeus, adeus, já que só tens olhos para a ilha desconhecida, vou-me embora, e não era verdade, agora mesmo andam os olhos dele a procurá-la e não a encontram. Neste momento o céu cobriu-se e começou a chover, e, tendo chovido, principiaram a brotar inúmeras plantas das fileiras de sacos de terra alinhadas ao longo da amurada, não estão ali porque se suspeite que não haja terra bastante na ilha desconhecida, mas porque assim se ganhará tempo, no dia em que lá chegarmos só teremos que transplantar as árvores de fruto, semear os grãos das pequenas searas que vão amadurecer aqui, enfeitar os canteiros com as flores que desabrocharão destes botões. O homem do leme pergunta aos marinheiros que descansam na coberta se avistam alguma ilha desabitada, e eles respondem que não vêem nem de umas nem das outras, mas que estão a pensar em desembarcar na primeira terra povoada que lhes apareça, desde que haja lá um porto onde fundear, uma taberna onde beber e uma cama onde folgar, que aqui não se pode, com toda esta gente junta. E a ilha desconhecida, perguntou o homem do leme, A ilha desconhecida é coisa que não existe, não passa duma ideia da tua cabeça, os geógrafos do rei foram ver nos mapas e declararam que ilhas por conhecer é coisa que se acabou desde há muito tempo, Devíeis ter ficado na cidade, em lugar de vir atrapalhar-me a navegação, Andávamos à procura de um sítio melhor para viver e resolvemos aproveitar a tua viagem, Não sois marinheiros, Nunca o fomos, Sozinho, não serei capaz de governar o barco, Pensasses nisso antes de ir pedi-lo ao rei, o mar não ensina a navegar. Então o homem do leme viu uma terra ao longe e quis passar adiante, fazer de conta que ela era a miragem de uma outra terra, uma imagem que tivesse vindo do outro lado do mundo pelo espaço, mas os homens que nunca haviam sido marinheiros protestaram, disseram que ali mesmo é que queriam desembarcar, Esta é uma ilha do mapa, gritaram, matar-te-emos se não nos levares lá. Então, por si mesma, a caravela virou a proa em direcção à terra, entrou no porto e foi encostar à muralha da doca, Podeis ir-vos, disse o homem do leme, acto contínuo saíram em correnteza, primeiro as mulheres, depois os homens, mas não foram sozinhos, levaram com eles os patos, os coelhos e as galinhas, levaram os bois, os burros e os cavalos, e até as gaivotas, uma após outra, levantaram voo e se foram do barco transportando no bico os seus gaivotinhos, proeza que não tinha sido cometida antes, mas há sempre uma vez. O homem do leme assistiu à debandada em silêncio, não fez nada para reter os que o abandonavam, ao menos tinham-no deixado com as árvores, os trigos e as flores, com as trepadeiras que se enrolavam nos mastros e pendiam da amurada como festões. Por causa do atropelo da saída haviam-se rompido e derramado os sacos de terra, de modo que a coberta era toda ela como um campo lavrado e semeado, só falta que venha um pouco mais de chuva para que seja um bom ano agrícola. Desde que a viagem à ilha desconhecida começou que não se vê o homem do leme comer, deve ser porque está a sonhar, apenas a sonhar, e se no sonho lhe apetecesse um pedaço de pão ou uma maçã, seria um puro invento, nada mais. As raízes das árvores já estão penetrando no cavername, não tarda que estas velas içadas deixem de ser precisas, bastará que o vento sopre nas copas e vá encaminhando a caravela ao seu destino. É uma floresta que navega e se balanceia sobre as ondas, uma floresta onde, sem saber-se como, começaram a cantar pássaros, deviam estar escondidos por aí e de repente decidiram sair à luz, talvez porque a seara já esteja madura e é preciso ceifá-la. Então o homem trancou a roda do leme e desceu ao campo com a foice na mão, e foi quando tinha cortado as primeiras espigas que viu uma sombra ao lado da sua sombra. Acordou abraçado à mulher da limpeza, e ela a ele, confundidos os corpos, confundidos os beliches, que não se sabe se este é o de bombordo ou o de estibordo. Depois, mal o sol acabou de nascer, o homem e a mulher foram pintar na proa do barco, de um lado e do outro, em letras brancas, o nome que ainda faltava dar à caravela. Pela hora do meio-dia, com a maré, A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma.

José Saramago

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Ficha de verificação da leitura de O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá

38 perguntas para verificar a leitura integral da obra:

1.Quem escreveu este livro?
2.Consegues referir o título de mais duas obras do mesmo autor?
3.Localiza a ação da obra no espaço.
4.Material com que eram amarrados os cães naquela época.
5.Principal defeito da Manhã.
6.Como é que a Manhã acordava as estrelas?
7.Refere dois adjctivos que caracterizem o Vento.
8.Porque é que o Vento ajudava a Manhã nas suas tarefas diárias?
9.Nacionalidade do relógio que se enforcou nos próprios ponteiros.
10.O que prometeu o Tempo oferecer à Manhã em troca da história que esta ouvira ao Vento?
11.Quem contou a história ao narrador, que a escreveu?
12.Quem se suicidou contra o espinho de um mandacaru quando o seu filhinho pequeno desapareceu?
13.Que árvore chegou a acreditar que o Gato Malhado sentia uma paixão por si?
14.Qual foi a reação da Galinha Carijó quando viu, pela primeira vez, o Gato sorrir?
15.Quem era o(a) verdadeiro(a) responsável pelos desaparecimentos e mortes no Parque?
16.Refere três adjetivos que caracterizem a Andorinha, segundo a opinião dos seus vizinhos.
17.Qual é o recurso expressivo mais utilizado ao longo da obra?
18.Qual era a nacionalidade do velho cão do Parque?
19.Porque tratavam o Papagaio de “Reverendo”?
20.Que escola era frequentada pela Andorinha?
21.Quem era o professor de canto?
22.Quais eram as duas figuras com mais prestígio no Parque?
23.O que servia de travesseiro à Andorinha?
24.Identifica o recurso expressivo presente na frase “Falta sentia de outras coisas: de atenção, de carinho e de salsichas vienenses.”
25.Porque é que o Gato não gostava do Papagaio?
26.Identifica o recurso expressivo presente na frase “Seus pés como chumbo, como se tivessem toneladas de chumbo…”
27.Porque é que o capítulo do Verão é tão curto?
28.Qual era o principal motivo dos “arrufos” entre o Gato e a Andorinha?
29.Qual é o recurso expressivo na frase “A Andorinha ficou calada, num silêncio de noite profunda.”?
30.O que é que, segundo os animais do parque, impedia que o Gato e a Andorinha casassem?
31.Quem deu ao narrador a cópia do soneto que o Gato escreveu para a Andorinha?
32.Além da Andorinha, que outro habitante do Parque gostava do Gato?
33.Que animais prepararam o enxoval da Andorinha?
34.Em que Estação decorreu o casamento entre a Andorinha e o Rouxinol?
35.Em que árvore se realizou o casamento? Na Laranjeira, na Goiabeira ou na Jaqueira?
36.O que foi que a Andorinha atirou ao Gato e que fazia lembrar uma gota de sangue?
37.No último capítulo desta fábula, “A Noite sem Estrelas”, diz-se que “O Gato tomou a direção dos estreitos caminhos que conduzem à encruzilhada do fim do mundo.”. Quem morava lá?
38.Que final teve o Gato Malhado?


BOM TRABALHO!!!!!!!!!!!

A DOCENTE: Lucinda Cunha


Correção:
1. Jorge Amado;
2. Gabriela, Cravo e Canela e Tieta do Agreste (ex.);
3. Parque;
4. Linguiça;
5. Preguiça;
6. Com um beijo;
7. Bisbilhoteiro e atrevido (ex.);
8. Porque era apaixonado por ela;
9. Suíça;
10. Rosa azul;
11. Sapo Cururu;
12. Mamãe Sabiá;
13. Goiabeira;
14. Desmaiou;
15. Cobra Cascavel;
16. Curiosa, conversadeira, bela (ex.);
17. Personificação;
18. Dinamarquesa;
19. Porque estudou no Seminário e era professor de Religião;
20. Escola dos Pássaros;
21. Rouxinol;
22. Velha Coruja e Vaca Mocha;
23. Pétala de rosa;
24. Enumeração;
25. O Papagaio era hipócrita;
26. Comparação;
27. Porque o tempo da felicidade também é curto;
28. Os ciúmes que o Gato tinha da Andorinha;
29. Metáfora;
30. A lei das andorinhas;
31. Sapo Cururu;
32. Coruja;
33. Aranhas;
34. Inverno;
35. Laranjeira;
36. Pétala de uma rosa do ramo de noiva;
37. Cobra Cascavel;
38. Morreu.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Teste diagnóstico de 11º ano (ou 10º)- com correção


Proponho este teste (que segue a estrutura do exame nacional do 12º ano- como todos aqui publicados para o secundário) como diagnóstico de 11º ano (ou mesmo para a unidade do texto narrativo no 10º ano) pois este texto/ teste não é dos mais fáceis. A interpretação exige algum raciocínio que, a meu ver, a par da escrita, é uma das principais dificuldades dos nossos alunos.

IA
Conto integral:
O homem que parecia um domingo”
         O Velho Fausto parecia um domingo. Costumava vê-lo, manhã cedo, cruzar o passeio, pisando sem ruído as flores das acácias, muito aprumado no seu fato de linho branco, chapéu de palha, laço e bengala, e tão sem pressa, meu Deus!, cumprimentando com acenos lentos (largos sorrisos) a turba ansiosa. Um dia alguém o provocou:
         “Afinal, o que faz você nos dias úteis?”
         Ele sorriu, ainda mais generoso, e o claro fulgor dos seus dentes perfeitos cegou o atrevido:
         “Todos os meus dias são inúteis”, respondeu com solene orgulho: “Eu os passeio.”
         Durante muitos anos, devo confessar, quis ser como ele. Hoje sei que pecava por excessiva ambição. Trabalhando intensamente qualquer pessoa é capaz de alcançar, no fim da vida, relativa prosperidade e a admiração dos outros. Um ladrão hábil pode ficar rico em dez ou quinze anos. A conquista do poder também impõe considerável esforço; isto, já para não falar em santidade ou heroicidade. A inutilidade, porém, exige algo mais difícil: talento. Nem todos podem ser inúteis, realmente inúteis, da mesma forma que poucos conseguem fazer chorar um violino. Também nem todos merecem ser inúteis. Fausto sim, era inútil e merecia-o. Foi, enquanto viveu, ocioso e magnífico como uma tela de Gauguin.
         Depois veio a revolução. Nenhuma revolução tolera pessoas desnecessárias. Nas revoluções há os revolucionários e os reacionários; não há lugar para observadores e muito menos para imprestáveis. Fausto percebeu isso num dia em que, tendo decidido passar pela Cervejaria Biker para refrescar a alma, encontrou a velha e gloriosa catedral da boémia luandense transformada numa espécie de centro cultural. Alguém se tinha lembrado de organizar ali uma receção a um poeta, antigo preso político, há poucos dias regressado do Tarrafal. O poeta era um homenzinho miúdo, de densa barba negra, rosto pálido, liso como o de uma criança, mãos muito finas, de dedos longos, que se moviam com veemência, como se fossem independentes do corpo. Leu alguns poemas e contou histórias da cadeia. Explicou que para conseguir sobreviver à solidão e ao desespero, fechado sozinho numa minúscula cela escura, se entretivera durante anos e amestrar insetos. Em particular fizera amizade com uma barata, um bicho amável e inteligente, à qual ensinara a dançar. O poeta calou-se, a cabeça entre as mãos, enquanto na sala se fazia um silêncio comovido. Então Fausto levantou-se e pediu a palavra:
         “O que aconteceu à barata?”
         A pergunta ecoou na sala como um traque. Alguém gritou: “Fascista!” Um tipo alto, de bigodes, sentado ao lado do escritor, encolheu os ombros:
         “Calma! O camarada que falou é um notório vadio.”
O desprezo com que disse aquilo serenou os ânimos. Encontrei Fausto, horas mais tarde, ainda na mesma mesa. Ardia ao lume brando do crepúsculo. “Gostaria realmente de saber o que aconteceu à barata”, disse-me com tristeza. Ele queria saber que género de música dançava o inseto: rumba, valsa, a velha rebita? Recomendei-lhe mais cuidado com a língua. Podia-se ser preso, naquela época, por coisas assim. Fausto encolheu os ombros, cético, terminou de beber a sua cerveja e foi-se embora. Morreu, tempos depois, atropelado por um camião do exército.
Voltei a lembrar-me dele quando, há poucos dias, um amigo me disse ter descoberto no Cemitério do Alto das Cruzes uma lápide partida: “Aqui repousa Fausto Bendito. Foi ele quem renunciou à vida/ podeis continuar a ocupar o seu lugar/ vós, que nos roubastes/ Não foi, nunca foi, renunciou-se/ atingiu o zero.” Reconheci os versos de Agostinho Neto, musicados depois pelos Irmãos Kafala no belo álbum “Salipo”. “E agora vivei, cantai, chorai/ e agora casai-vos, matai-vos/ embriagai-vos/ e agora dai esmolas aos pobres/ nada me pode interessar/ que não sou, não sou/ Atingi o zero/ Nada me pode interessar/ Não sou, não sou/ Atingi o zero.”.
AGUALUSA, José Eduardo, Catálogo de Sombras, 4ª ed., Publicações D. Quixote, Lisboa, 2003.

1.    Diz-se, no conto, que “O Velho Fausto parecia um domingo.”. Explica esta afirmação partindo do texto que leste.
2.    Segundo o narrador, ser inútil é muito difícil. Explica a afirmação por palavras tuas.
3.     No texto conta-se um episódio da vida do ocioso Fausto. Faz o seu breve resumo e explica a importância desse episódio no contexto social e político em que aconteceu.
3.1.        Explica a expressividade da comparação “A pergunta ecoou na sala como um traque.”.
4.    Explica a ironia do tipo de morte sofrida por Fausto.
B


Esta é uma tela de Gauguin, pintor francês do século XIX. Num breve texto, entre 60 e 100 palavras, explica a afirmação “Foi, enquanto viveu, ocioso e magnífico como uma tela de Gauguin.”

 II

Lê o seguinte texto com atenção:

Superpotências: ao assalto da África
Por: CARLOS REIS, Jornalista
“No século XXI, África constitui-se definitivamente como fornecedor de recursos naturais das duas superpotências. A China não impõe contrapartidas políticas, enquanto os Estados Unidos não são indiferentes aos problemas de segurança e às emergências humanitárias. A não ingerência de Pequim é mais sedutora para os Estados africanos.
Com a ascensão da China ao estatuto de superpotência, o novo milénio apresenta-se como um mundo bipolar tendo como centros Washington e Pequim. A nova realidade é visível especialmente no relacionamento do G2, a China e Estados Unidos, com África. Os países do continente menos desenvolvido passaram a contar com as opções das vias norte-americana ou chinesa. Pequim oferece a harmonia ao proclamar a ajuda ao desenvolvimento sem pré-condições e ao prezar a paz, desenvolvimento e comércio e ignorar modelos políticos ou económicos. O gigante asiático não está nos negócios com África para exportar modelos de desenvolvimento ou projetos políticos, em oposição aos Estados Unidos, que pretendem contrapartidas como mais democracia, liberdade, direitos humanos e o domínio da lei.
O Governo de Hu Jintao pretende apenas fazer negócios em paz sob a sua conceção do mundo em que o crescimento é o objetivo absoluto. Uma visão estratégica assente na convicção de que a economia resolverá a maioria dos problemas de direitos e desenvolvimento humano do continente. Esta ênfase na harmonia abona a favor de Pequim, tanto mais que rivaliza com a estratégia de compensações norte-americana. «Se o consenso de Washington é ideologicamente intervencionista, o emergente consenso de Pequim parece ideologicamente agnóstico», observa Roger Cohen, colunista do diário «The New York Times».

Enquanto a Administração norte-americana condiciona a ajuda a África à democracia e combate à corrupção, a China faz acordos energéticos sem pré-condições como o estabelecido no FOCAC, o fórum de cooperação China-África. Os países africanos têm agora uma superpotência alternativa e podem desvalorizar não só os Estados Unidos, como o G8, grupo dos países mais industrializados, e as ONG de ajuda ao desenvolvimento, muito preocupadas com a boa governabilidade e os direitos humanos. (…)”
1. Para cada um dos itens de 1.1. a 1.7., escolhe a alternativa correta, de acordo com o sentido do texto:
1.1. Segundo o primeiro parágrafo do texto,

a. os negócios entre África, a China e os Estados Unidos são harmoniosas.

b. as negociações com a China são consideradas mais vantajosas.

c. os Estados Unidos são um país sem preocupações sociais.

d. o regime chinês não necessita dos recursos naturais africanos.


1.2. Neste novo século,

a. continua a verificar-se a supremacia dos Estados Unidos da América sobre o mundo.

b. a China aspira cada vez mais ao estatuto de superpotência.

c. o continente africano já depende pouco da ajuda externa.

d. o maior país da Ásia continua a não valorizar os direitos humanos.

1.3. O que significa o enunciado “em oposição aos Estados Unidos, que pretendem contrapartidas como mais democracia, liberdade, direitos humanos e o domínio da lei.” (2º parágrafo)?

a. Os Estados Unidos seguem as mesmas ideologias da China.

b. Os Estados Unidos procuram fazer respeitar a democracia no seu país.

c. A China e os Estados Unidos têm pontos de vista diferentes no que concerne aos negócios com África.

d. Os Estados unidos não são uma nação interventiva.


1.4. Qual é o processo irregular de formação de palavras que se verifica em “FOCAC” (último parágrafo)?

a. Truncação.

b. Empréstimo.

c. Sigla.

d. Acrónimo.



1.5. A expressão “O gigante asiático”, referido no segundo parágrafo, pretende retomar a palavra “China”, sendo considerada, por isso,

a. uma anáfora.

b. uma catáfora.

c. um correferente.

d. uma elipse.



1.6. Que figura de retórica se verifica no enunciado “continente menos desenvolvido” (2º parágrafo)?

a. Eufemismo.

b. Perífrase.

c. Antonomásia.

d. Metonímia.



1.7. Que figura de retórica se verifica no enunciado “Pequim oferece a harmonia (…)” (2º parágrafo)?

a. Metonímia.

b. Metáfora.

c. Eufemismo.

d. Pleonasmo.



2. Responde, de forma correta, aos itens apresentados.



2.1. Indica a que classe de palavras pertence a palavra sublinhada em “Pequim oferece a harmonia ao proclamar a ajuda ao desenvolvimento sem pré-condições”.

2.2. Identifica a função sintática sublinhada no enunciado “Os países do continente menos desenvolvido passaram a contar com as opções das vias norte-americana ou chinesa.” (2º par.).

2.3. Classifica a oração subordinada presente no enunciado “em oposição aos Estados Unidos, que pretendem contrapartidas como mais democracia, liberdade, direitos humanos e o domínio da lei.” (2º par.).


III



         Num texto bem estruturado, entre 150 e 200 palavras, comenta o cartoon apresentado, refletindo sobre a importância que os computadores assumem na vida do Homem: moderno.


BOM TRABALHO!!!

COTAÇÕES:
Grupo I………… 100 pontos
1………………… 15pontos (C=9+O=6)
2………………….10 pontos (C=6+O=4)
3.………………..20 pontos (C=12+O=8)
3.1……………..10 pontos (C=6+O=4)
4………………. 15 pontos (C=9+O=6)
B…………………….. 30 (C=18+O=12)
Grupo II …………….. 50 pontos
1……………………… 35 pontos
2……………………… 15 pontos
Grupo III…………….. 50 pontos (C=30+O=20)


                       Conteúdo = C                                                        Organização e Correção Linguística = O

QUERO FRISAR AQUI QUE QUANDO OS EXERCÍCIOS NÃO SÃO DA MINHA AUTORIA EU REFIRO SEMPRE A FONTE. ESTE TESTE É DA MINHA INTEIRA RESPONSABILIDADEJ (peço desculpa por qualquer lapso):
Proposta de Correção:
1.O Velho Fausto parecia um domingo visto que era considerado um “inútil”, alguém ocioso que não fazia nada de útil para a sociedade. Limitava-se a passear o seu fato de linho branco pela cidade de Luanda, sem preocupações, “sem pressa” e a irradiar simpatia e sorrisos. Ora, sendo o domingo o dia de descanso semanal, em que as pessoas podem passar o seu tempo despreocupadamente, é assim que se justifica esta afirmação que dá também o título ao conto.

2.Segundo o narrador, ser inútil exige um talento que nem todos possuem. Ou seja, será mais fácil ficar-se rico, ser-se poderoso, tornar-se um herói ou ser considerado santo que ser considerado um verdadeiro inútil e merecer sê-lo.

3.Um dia, Fausto decidiu refrescar-se com uma bebida numa cervejaria famosa de Luanda onde se juntavam pessoas ligadas à cultura. Nesse dia homenageava-se um poeta que tinha sido libertado há poucos dias da prisão do Tarrafal. O poeta contou que, para sobreviver à solidão e não perder a sanidade, amestrou alguns insetos, em particular uma barata que até aprendeu a dançar. Fausto quis saber o que foi feito da barata e aquela pergunta foi considerada terrivelmente ofensiva para aqueles que ali discutiam a revolução e alguém como Fausto, sem preocupações e indiferente quanto à política, era visto como alguém desprezível e sem importância.

3.1. A pergunta inofensiva e sem conotação política foi vista como uma ofensa por aqueles cuja única preocupação se prendia com a revolução e a mudança do regime político opressor que vigorava na altura.

4. Fausto, que não se importava minimamente com política nem com as coisas sérias da vida, e que foi apelidado de “fascista” durante aquele encontro na Cervejaria Biker, ironicamente foi morto por um veículo do governo.

B. Sugestão de resposta:

Neste quadro de Gauguin vemos três raparigas à sombra de uma árvore acompanhadas de dois animais, um deles também a descansar refugiado do calor. Pela cor da erva percebe-se que a cena se passa no auge do verão. Num plano mais afastado vemos uma série de montanhas e um lago, o que transmite uma sensação de tranquilidade e serenidade. Este quadro retrata-nos um belo e maravilhoso momento de descanso, através de cores fortes, tanto nos seres animados como na própria natureza, tão próprias da técnica do artista. (87 palavras)

II. 1.1. b; 1.2. d; 1.3. c; 1.4. d; 1.5. c; 1.6. b; 1.7. a;

2.1. Preposição.

2.2. Complemento oblíquo.

2.3. Oração subordinada adjetiva relativa explicativa.

III. Resposta aberta.