textosintegrais@gmail.com


Sei que há muita gente que consulta este blogue e utiliza os materiais aqui publicados, mas poucos deixam comentários e eu gostava mesmo de saber a vossa opinião... :-) textosintegrais@gmail.com

Mostrar mensagens com a etiqueta Contos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Contos. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Mais um texto de Agualusa


Pré-leitura:


  1. Sobre este quadro, o seu autor disse uma das frases abaixo. Indica qual terá sido, justificando a tua escolha:
Procurar "Edward Hopper, Nighthawks, 1942"

  1. Pintei a solidão de uma grande cidade.
  2. Pintei o convívio que se estabelece numa cidade.
  3. Pintei um animado local de convívio.

 
  1. Lê, agora, o texto e estabelece uma ligação possível com o quadro.

 

“Havia muito sol do outro lado”, José Eduardo Agualusa

 

Aquilo tornara-se um vício. Ele ouvia um telefone a tocar e logo estendia o braço e levantava o auscultador.
          - E se fosse para mim?
         Os amigos faziam troça:
         - No consultório do teu dentista?
         Uma noite estava sozinho, no Rossio, à espera de um taxi, quando o telefone tocou numa cabine ao lado. Era no fim da noite e chovia: uma água mole, desesperançada, tão leve que parecia emergir do próprio chão. Ruben enfiou as mãos nos bolsos do casaco.
         - É claro que não vou atender - disse alto. - Não pode ser para mim. Se atender este telefone é porque estou a enlouquecer.
         O telefone voltou a tocar. Não chegou a tocar cinco vezes. Ele correu para a cabine e atendeu.
          - Está?
         Estava muito sol do outro lado. Era, tinha de ser, uma tarde de sol.
         - Posso falar com o Gustavo?
         A voz dela iluminou a cabina. Ruben pensou em dizer que era o Gustavo. Estava ali, àquela hora absurda, abandonado como um náufrago na mais triste noite do mundo. Tinha direito de ser o Gustavo (fosse ele quem fosse).
         - Você não vai acreditar mas a sua chamada foi parar a uma cabina telefónica.
         Ela riu-se. Meus Deus – pensou Ruben- era como beber sol pelos ouvidos.
        - Não brinques! És tu, Gustavo, não és?...
         Sim ele tinha o direito de ser o Gustavo:
        -Infelizmente não. Você ligou para uma cabina telefónica, no Rossio, eu estava à espera de um taxi e atendi.
       Quase acrescentou: "pensei que pudesse ser para mim". Felizmente não disse nada. Ela voltou a rir:
       -Tenho a sensação de que esta chamada vai ficar-me cara. Sabe onde estou?
       Estava em Pulau Penang, na Malásia, e dali, do seu quarto, num hotel chamado Paradise, podia ver todo o esplendor do mar.
      -Nunca vi nada com esta cor- sussurrou- só espero que Deus me dê a alegria de morrer no mar.
       Ele ficou em silêncio. Aquilo parecia a letra de um samba. Ela começou a chorar:
      - Desculpe que vergonha...Nem sequer sei como se chama.
       Ruben apresentou-se:
      - Ruben, 34 anos, trabalho em publicidade.
       Pediu-lhe o número de telefone e ligou utilizando o cartão de crédito. Aquela chamada ficou-lhe cara. Casaram oito meses depois. Ele diz a toda a gente que foi o destino. Ela, pelo sim pelo não, proibiu-o de atender telefones.
                                                                                              José Eduardo Agualusa, in A substância do amor e outras crónicas

FICHA DE AFERIÇÃO DE LEITURA DO CONTO

 

3.    Esta crónica começa com a frase “Aquilo tornara-se um vício.”. Indica as palavras para que remete o pronome demonstrativo “Aquilo”.

 

4.    “Era no fim da noite e chovia: uma água mole, desesperançada, tão leve que parecia emergir do próprio chão.”

4.1.        Comprova as seguintes características da descrição transcrita em 4:

a.    emprego do verbo ser e outros verbos caracterizadores de qualidades, de estados;

b.    uso do presente ou do pretérito imperfeito do indicativo;

c.    abundância de adjetivos qualificativos.

 

4.2.        Podemos distinguir, nesta descrição, elementos objetivos e subjetivos. Indica uns e outros, justificando.

4.2.1.    Transcreve outro excerto do texto relativo ao tempo que reforça o caráter subjetivo desta descrição.

 

4.3.        Identifica a principal função desta descrição:

a.    informar sobre o tempo em que a acção se desenrola.

b.    revelar indiretamente o estado de espírito da personagem.

c.    ornamentar a narrativa.

 

5.    A situação em que ele e ela se encontravam é em tudo oposta: local, momentos do dia, clima. Comprova esta afirmação.

 

6.    Transcreve as frases que revelam o efeito que a voz e o riso dela provocaram em Ruben. Comenta a sua expressividade.

 

7.                    Que consequências teve aquele telefonema na vida das duas personagens?

 

8.                    Ruben descobriu o amor graças ao seu “vício” de atender qualquer telefone que tocasse.

8.1.        Como interpretas essa necessidade? Na tua opinião, o que revelará sobre a personagem?

 
BOM TRABALHO!!

A professora: Lucinda Cunha

 


Proposta de correção (ficha e correção retiradas do manual Diálogos 8, da Porto Editora, pp.160-163):

1. a

2. No texto, há uma personagem que é “viciada” em atender telefones. Esta procura constante de ouvir os outros pode ser uma forma de fugir/ enganar a sua solidão.

3. Remete para a frase que vem imediatamente a seguir: Ele ouvia um telefone a tocar e logo estendia o braço e levantava o auscultador.

4.1. a. “Era”, “parecia”; b. pretérito imperfeito do indicativo; c. mole, desesperançada, leve

4.2. objetivos: “era no fim da noite e chovia”; subjetivos: “uma água mole, desesperançada, tão leve que parecia emergir do próprio chão.”

4.2.1. “na mais triste noite do mundo”

4.3. b

5. Ele estava num espaço exterior, no Rossio, em Lisboa, numa noite de chuva. Ela encontrava-se num espaço interior, num quarto de hotel em Pulau Penang, na Malásia, num dia de sol.

6. “A voz dela iluminou a cabina.”; “era como beber sol pelos ouvidos”. Estas frases revelam o prazer intenso que a voz dela conseguiu provocar em Ruben, transformando a “noite mais triste do mundo” num dia luminoso de sol.

7. Os dois casaram e ele deixou de atender telefones.

8.1. É possível que essa necessidade pudesse corresponder a um desejo de procurar (e descobrir) o amor.

 

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A próxima ficha de leitura será sobre o conto que se segue, proposto pelas novas metas para 8º ano


A INAUDITA GUERRA DA AVENIDA GAGO COUTINHO
 
      O grande Homero às vezes dormitava, garante Horácio. Outros poetas dão-se a uma sesta, de vez em quando, com prejuízo da toada e da eloquência do discurso. Mas, infelizmente, não são apenas os poetas que se deixam dormitar. Os deuses também.
      Assim aconteceu uma vez a Clio, musa da História que, enfadada da imensa tapeçaria milenária a seu cargo, repleta de cores cinzentas e coberta de desenhos redundantes e monótonos, deixou descair a cabeça loura e adormeceu por instantes, enquanto os dedos, por inércia, continuavam a trama. Logo se enlearam dois fios e no desenho se empolou um nó, destoante da lisura do tecido. Amalgamaram-se então as datas de 4 de Junho de 1148 e de 29 de Setembro de 1984.
      Os automobilistas que nessa manhã de Setembro entravam em Lisboa pela Avenida Gago Coutinho, direitos ao Areeiro, começaram por apanhar um grande susto, e, por instantes, foi, em toda aquela área, um estridente rumor de motores desmultiplicados, travões aplicados a fundo, e uma sarabanda de buzinas ensurdecedora. Tudo isto de mistura com retinir de metais, relinchos de cavalos e imprecações guturais em alta grita.
       É que, nessa ocasião mesma, a tropa do almóada lbn-elMuftar, composta de berberes, azenegues e árabes em número para cima de dez mil, vinha sorrateira pelo valado, quase à beira do esteiro de rio que ali então desembocava, com o propósito de pôr cerco às muralhas de Lixbuna, um ano atrás assediada e tomada por hordas de nazarenos odiosos.
      Viu-se de repente o exército envolvido por milhares de carros de metal, de cores faiscantes, no meio de um fragor estrondoso - que veio substituir o suave pipilar dos pássaros e o doce zunido dos moscardos - e flanqueado por paredes descomunais que por toda a parte se erguiam, cobertas de janelas brilhantes. Assustaram-se os beduínos, volteando assarapantados os cavalos, no estreito espaço de manobra que lhes era deixado, e Ali-ben-Yussuf, lugar-tenente de Muftar, homem piedoso e temente a Deus, quis ali mesmo apear-se para orar, depois de ter alçado as mãos ao céu e bradado que Alá era grande.
      De que Alá era grande estava o chefe da tropa convencido, mas não lhe pareceu o momento oportuno para louvaminhas, que a situação requeria antes soluções práticas e muito tacto. Travou os desígnios do adjunto com um gesto brutal, levantou bem alto o pendão verde e bradou uma ordem que foi repetida, de esquadrão em esquadrão, até chegar à derradeira retaguarda, já muito próxima da Rotunda da Encarnação: - Que ninguém se mexesse!
      E el-Muftar, cofiando a barbicha afilada, e dando um jeito ao turbante, considerava, com ar perspicaz, o pandemónio em volta: - Teriam tombado todos no inferno corânico? Teriam feito algum agravo a Alá? Seriam antes vítimas de um passe da feitiçaria cristã? Ou tratar-se-ia de uma partida de jinns encabriolados?
      Enquanto o árabe refletia, do alto do seu puro-sangue, o agente de segunda classe da PSP Manuel Reis Tobias, em serviço à entrada da Avenida Gago Coutinho, meio escondido por detrás das colunas de um prédio, no propósito sábio e louvável de surpreender contraventores aos semáforos, entendeu que aquilo não estava certo e que havia que proceder.
      Sentindo-se muito desacompanhado para tomar conta da ocorrência, transmitiu para o posto de comando, pelo intercomunicador da mota, uma complicada mensagem, plena de números e de cifras, que podia resumir-se assim:
      Uma multidão indeterminada de indivíduos do sexo masculino, a maior parte dos quais portadores de armas brancas e outros objetos contundentes, cortantes e perfurantes, com bandeiras e trajos de carnaval, montados em solípedes, tinham invadido a Avenida Gago Coutinho e parte do Areeiro em manifestação não autorizada. Dado que se lhe afigurava existir insegurança para a circulação de pessoas e bens na via pública, aguardava ordens e passava à escuta.
      De lá lhe disseram que iriam providenciar e que se limitasse a presenciar as ocorrências, mas sem intervir por enquanto.
      Um imediato telefonema para o governador civil e deste para o ministro confirmou que não se encontravam previstos desfiles, de forma que a máquina policial se viu movida a ingerir-se no caso. Soaram as sirenes no quartel de Belém e, poucos minutos depois, alguns pelotões da Polícia de Intervenção vinham a caminho, com grande alarde de sereias e pisca-piscas multicores.
Entretanto, lbn-el-Muftar via pela frente uma grande multidão apeada que apostrofava os seus soldados. Eram os automobilistas que haviam saído dos carros e que, entre irritados e divertidos, se empenhavam numa ruidosa assuada. Que devia ser algum reclame, diziam uns; que era mas era para um filme, diziam outros.
      Ao mouro, aquela peonagem toda não se afigurou particularmente ameaçadora, tanto mais que a turba circundante, de estranhas vestimentas vestida, não parecia exibir armas de qualquer natureza. De maneira que lbn-Muftar optou por manobrar cautelosamente no pouco espaço ao dispor.
      Com alguns sinais do alfange fez que um ou dois esquadrões formassem, com dificuldade, no parque de estacionamento do Areeiro, e uma falange de gente de pé se arrumasse no terreiro da estação de serviço do lado contrário, enquanto o grosso da tropa ocupava a placa central relvada. Decidiu não se deixar impressionar com os trejeitos pouco amistosos que lhe vinham de dentro dos objetos metálicos com rodas que havia por toda a parte, nem com as caras que o fitavam por detrás de um estranho material transparente. Se era uma encantação, melhor era deixar que passasse - segredou para ben-Yussuf que lhe respondeu, desconfiado e muito pálido: - inch Allah!
      Manuel da Silva Lopes, que conduzia um daqueles irritantes camiões carregados de grades de cerveja que a Providência encarregou de ensarilhar os trânsitos em Lisboa, resolveu em má hora abandonar o volante, apear-se, e, decerto enciumado pela concorrência, apontar um calhau miúdo que foi ecoar no broquel do beduíno Mamud Beshewer que, por ainda não ter acordado de tudo isto, era um dos mais quietos da tropa.
       Desprezivamente, Ibn-Muftar deu uma ordem e logo vinte archeiros enristaram os arcos, apontaram aos céus, e expediram, com um zunido tenso, uma saraivada de setas, que obrigou toda a gente a meter-se nos automóveis e a procurar refúgio nas portadas dos prédios ou atrás dos camiões. Veio do Areeiro um grande apupo, desta vez convicto, em uníssono.
      Ora foi este clamor que o comissário Nunes, recém-chegado à Alameda D. Afonso Henriques, à frente dos seus pelotões de choque, interpretou mal. Aí estava a assuada, o arruído, considerou o comissário. Era, uma vez mais, a canalha a desafiar a polícia.
      - Toca a varrer isto tudo até ao Areeiro - disse. E, puxando do apito, pôs a equipa em acção, à bastonada, a eito, por aqui e por além.
      Aquilo não era uma pouca de gente que se varresse assim sem mais nem ontem, de modo que os pelotões da Polícia de Intervenção progrediam com dificuldade e só conseguiram chegar ao Areeiro algum tempo depois, após muita cabeça partida e duas baixas nas suas hostes, de agentes que tinham sido sabiamente atraídos a vãos de escadas por populares mais expeditos.
Expulsa parte da multidão para o Bairro dos Atores, no meio de uma tremenda algazarra, o comissário Nunes, ofegante, reagrupou os seus homens na Praça do Areeiro, em cima da placa relvada, com grande prejuízo das dálias e hortênsias ali plantadas.

      Mas lbn-el-Muftar mostrava-se então sobremaneira irritado por todos os rumores e confusões em torno, e em especial pela zipada de água que alguém havia deixado cair de uma das janelas e que lhe impregnara o manto e a cota de malha.
      Quando viu aqueles peões de escudo e viseira, formados em frente, pensou que era, enfim a guarda avançada de Ibn-Arrik, o cão tomador de Lixbuna, que vinha aí travar-lhe o passo, a coberto de um encantamento mágico.
      Num ápice, rompeu uma carga de cavaleiros berberes, aos gritos de guerra, de alfange em riste, ladeando automóveis, amolgando capots, e aproximando-se inexoravelmente dos rapazes do comissário Nunes.
      Estes, em consciência, não se sentiam preparados para enfrentar cargas de cavalaria moura: a formatura oscilou, rodopiou, desfez-se e, quando os primeiros alfanges assomavam ao lado de um autocarro da Carris, já os briosos homens da Polícia de Intervenção corriam a bom correr até à Cervejaria Munique, onde se refugiavam atrás do balcão, deixando a moirama senhora da placa central da Praça do Areeiro.
      Por essa altura, já a tropa do Ralis e a da Escola Prática de Administração Militar, ali ao Lumiar, tinha recebido ordens para intervir. E em boa hora, porque o comissário Nunes e a sua gente, acuados na Munique, a ver passar árabes a cavalo, de ar ameaçador e façanhudo, sentiam-se cada vez menos seguros.
      Os blindados do Ralis não conseguiram passar além do Bairro da Encarnação. Ocuparam a faixa da esquerda, para chegarem mais depressa, e acabaram por ver-se envolvidos num medonho engarrafamento com camiões TIR.
      Mais sorte teve o capitão Aurélio Soares, à frente da sua companhia de intendentes. Largaram as viaturas em frente do Vavá, na Avenida dos Estados Unidos, e abalaram em passo de corrida por ali abaixo, pela faixa relvada, até estabelecerem contacto com a tropa de lbn-el-Muftar, no cruzamento com a Gago Coutinho.
      O capitão Aurélio trazia instruções para proceder a um reconhecimento, avaliar a situação e agir em conformidade, mas sempre com moderação. De maneira que dispôs a sua gente em atiradores, depois de afastar os civis com berros enérgicos, e mediu o que tinha pela frente: eram milhares de mouros, a maior parte dos quais a cavalo, que se apertavam na Gago Coutinho, por entre os automóveis e o tráfego da hora de ponta.
      - Estas coisas só me acontecem a mim! - lamentava-se o capitão para consigo, esquecido dos muitos milhares de lisboetas que se encontravam no momento confrontados com o fenómeno. - Bom, vamos lá a ver... - E comandou alto, para o lado: - Venha você daí comigo, ó nosso alferes, e traga uma secção prà segurança!
      Cautelosamente, os sete homens, de dedo no gatilho, aproximaram-se da mourama.
      Nessa ocasião, lbn-el-Muftar e o seu estado-maior desciam a Avenida para observar o estado geral do exército, e vinham encarar com a embaixada do capitão Soares que, à cautela, acenava com um trapo branco, emprestado pelos locatários de um rés-do-chão da vizinhança. Ao árabe, por instinto, afigurou-se-lhe serem aqueles homens militares e, embora não percebesse bem o significado do pendão branco que o capitão brandia, não lhe pareceu que as intenções fossem suspeitas. As circunstâncias, por outro lado, com toda aquela estranha balbúrdia em volta, aconselhavam a contemporização. Assim, dispôs-se desde logo a parlamentar.
       A trote, rompeu pela frente de um piquete da Companhia dos Telefones que olhava para tudo aquilo com um ar espantado, dirigiu-se ao capitão, e saudou, de mão no peito:
      - Salam aleikum.
      E o capitão Soares, que tinha feito uma comissão na Guiné, em contacto com gente muçulmana, respondeu automaticamente, curvando-se um pouco:
      - Aleikum salam.
      Neste momento, a deusa Clio acordou do seu sonho, num sobressalto, e logo atentou no erro cometido. Num credo, desfez a troca de fios e reconduziu cada personagem a seu tempo próprio.
      De maneira que, assim como haviam surgido, assim se sumiram os árabes da Avenida Gago Coutinho, deixando o capitão Soares e todos os outros a coçar a cabeça, abismados.
      lbn-el-Muftar, por seu lado, logo que viu despejarem-se os campos daquelas gentes, daqueles objectos e daqueles prédios, soltou um suspiro de alívio e resolveu arrepiar caminho, desistindo de atacar Lixbuna onde, aliás, e ao contrário do que pensava, já lbn-Arrik o esperava, com máquinas de guerra e fogos acesos nas muralhas. 0 árabe considerou todas aquelas aparições de mau agoiro, pouco propiciadoras de investidas felizes contra Lisboa, e desistiu da cidade.
      A musa Clio não teve poderes para fazer com que os eventos já verificados regressassem ao ponto zero. Disso nem o pai dos deuses seria capaz. Mas pôde obnubilar a memória dos homens com borrifos de água do rio Letes, de maneira que, poucos segundos após os acontecimentos narrados, nem a tropa moura de lbn-el-Muftar se lembrava do encantamento que lhe tinha surgido ao caminho, nem o comissário Nunes sabia o que estava a fazer escondido atrás do balcão da Munique, nem o capitão Soares sabia por que estava ali a flanar com a tropa no fundo da Avenida dos Estados Unidos, nem o guarda de segunda classe da PSP, Manuel Tobias, sabia por que se tinha dado aquele engarrafamento, nem o coronel Vaz Rolão, do Ralis, sabia como tinha ido parar à estrada e deixado que uma auto-metralhadora se enfeixasse num camião TIR.
      Ao lbn-Muftar não foi muito gravoso o acontecimento, pois aproveitou o caminho de regresso para talar os campos de Chantarim, nas margens do Tejo, com grande vantagem de troféus e espólios.
      Pior foi para o comissário Nunes, o capitão Soares e o coronel Rolão explicarem em processo marcial o que se encontravam a fazer naquelas zonas à frente de destacamentos armados. Falou-se muito em insurreição, nesses dias, e os jornais acompanharam apaixonadamente o correr dos processos.
      Quanto à deusa Clio, foi privada de ambrósia por quatrocentos anos o que, convenhamos, não é seguramente castigo dissuasor de novas distrações.
in Carvalho, Mário de, A inaudita guerra da Avenida Gago Coutinho , Lisboa, Caminho, 1992.

 

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Conto proposto pelas novas metas para o 7º ano

Ainda esta semana sairá uma ficha de leitura:

Mestre Finezas

 

 Agora entro, sento-me de perna cruzada, puxo um cigarro, e à pergunta de sempre respondo soprando o fumo:
   - Só a barba. Ora é de há pouco este meu à-vontade diante do Mestre Ilídio Finezas.
   Lembro-me muito bem de como tudo se passava. Minha mãe tinha de fingir-se zangada. Eu saía de casa, rente à parede, sentindo que aquilo era pior que ir para a escola.
   Mestre Finezas puxava um banquinho para o meio da loja e enrolava-me numa enorme toalha. Só me ficava a cabeça de fora.
   Como o tempo corria devagar! A tesoura tinia e cortava junto das minhas orelhas. Eu não podia mexer-me, não podia bocejar sequer. "Está quieto, menino", repetia Mestre Finezas segurando-me a cabeça entre as pontas duras dos dedos: "Assim, quieto!" Os pedacitos de cabelo espalhados pelo pescoço, pela cara, faziam comichão e não me era permitido coçar. Por entre as madeixas caídas para os olhos via-lhe, no espelho, as pernas esguias, o carão severo de magro, o corpo alto, curvado. Via-lhe os braços compridos, arqueados como duas garras sobre a minha cabeça. Lembrava uma aranha.
   E eu - sumido na toalha, tolhido numa posição tão incómoda que todo o corpo me doía - era para ali uma pobre criatura indefesa nas mãos de Mestre Ilídio Finezas.
   Nesse tempo tinha-lhe medo. Medo e admiração. O medo resultava do que acabo de contar. A admiração vinha das récitas dos amadores dramáticos da vila.
   Era pelo Inverno. Jantávamos à pressa e nessas noites minha mãe penteava-me com cuidado. Calçava uns sapatos rebrilhantes e umas peúgas de seda que me enregelavam os pés. Saíamos. E, no negrume da noite que afogava as ruas da vila, eu conhecia pela voz famílias que caminhavam na nossa frente e outras que vinham para trás. Depois, ao entrar no teatro, sentia-me perplexo no meio de tanta luz e gente silenciosa. Mas todos pareciam corados de satisfação. Daí a pouco, entrava num mundo diferente. Que coisas estranhas aconteciam! Ninguém ali falava como eu ouvia cá fora. E mesmo quando calados tinham outro aspecto; constantemente a mexerem os braços. Mestre Finezas era o que mais se destacava. E nunca, que me recorde, o pano desceu, no último acto, com Mestre Finezas ainda vivo. Quase sempre morria quando a cortina principiava a descer e, na plateia, as senhoras soluçavam alto.
Aquelas desgraças aconteciam-lhe porque era justo e tomava, de gosto, o partido dos fracos. E, para que os fracos vencessem, Mestre Finezas não tinha medo de nada nem de ninguém. Heroicamente, de peito aberto, e com grandes falas, ia ao encontro da morte.
   Eu arrepiava-me todo. Uma noite Mestre Finezas morreu logo no primeiro acto. Foi um desapontamento. Todos criticaram pelo corredor, no intervalo. "O melhor artista morreu mal entra em cena!... Não está certo! Agora vamos gramar quatro actos só com canastrões!", dizia o doutor delegado a meu pai.
   Mas a cena tinha sido tão viva e a sua morte tão notada durante o resto do espectáculo que, no outro dia, me surpreendi ao vê-lo caminhando em direcção à loja.
   Ora havia também um outro motivo para a minha admiração. Era o violino. Mestre Finezas, quando não tinha fregueses, o que era frequente durante a maior parte do dia, tocava violino. E, muita vez, aconteceu eu abandonar os companheiros e os jogos e quedar-me, suspenso, a ouvi-lo, de longe.
   Era bem bonito. Uma melodia suave saía da loja e enchia a vila de tristeza.
   Passaram anos. Um dia, parti para os estudos. Voltei homem. Mestre Finezas é ainda a mesma figura alta e seca.    Somente tem os cabelos todos brancos.
   - Olha bem para mim -pede-me às vezes -, olha bem e diz lá se este é o mesmo homem que tu conheceste? ...
   Finjo-me admirado de uma tal pergunta. Procuro convencê-lo de que sim, de que ainda é. Compreende as minhas mentiras e abana docemente a cabeça:
   - Estou um velho, Carlinhos!... Vou lá de vez em quando. A loja está sempre deserta. As mãos muito trémulas de Mestre Finezas mal seguram agora a navalha. Também abriram, na vila, outras barbearias cheias de espelhos e vidrinhos, e letreiros sobre as portas a substituírem aquela bola com um penacho que Mestre Finezas ainda hoje tem à entrada da loja.
     Mestre Finezas passa necessidades. Vive abandonado da família, com a mulher
entrevada
, num casebre próximo do castelo. Eu sou um dos raros fregueses e o seu único confidente.
     Ilídio Finezas sonhou ser um grande artista, ir para a capital, e quem sabe se pelo mundo fora. Eu falhei um curso e arrasto, por aqui, uma vida de marasmo e ociosidade. Há entre mim e esta gente da vila uma indiferença que não consigo vencer. O meu desejo é partir breve. Mas não vejo como. E, quando o presente é feio e o futuro incerto, o passado vem-nos sempre à ideia como o tempo em que fomos felizes. Daí eu ser o confidente de Mestre Finezas.
Ele ajuda as minhas recordações contando-me dos dias a que chama da "sua glória". Estamos sozinhos na loja. De navalha em punho, Mestre Finezas declama cenas inteiras dos "melhores dramas que já se escreveram." E há nele uma saudade tão grande das noites em que fazia soluçar de amor e mágoa as senhoras da vila que, amiúde, esquece tudo o que o cerca e fica, longo tempo, parado. Os seus olhos ganham um brilho metálico. Fixos, olham-me mas não me vêem. Estão a ver para lá de mim, através do tempo.
   Lentamente, aflora-lhe aos lábios, premidos e brancos, um sorriso doloroso.
   - Eu fui o maior artista destas redondezas!... -murmura.
   Na cadeira, com a cara ensaboada, eu revivo a infância e sonho o futuro. Mestre Finezas já nem sonha; recorda só.
De novo, a mão treme-lhe junto da minha cara. No espelho, vejo-lhe o busto mirrado, os cabelos escorridos e brancos. Oiço-lhe a voz desencantada:
   -A navalha magoa-te? Uma onda de ternura por aquele velho amolece-me. Dá-me vontade de lhe dizer que não, que a navalha não magoa, que nem sequer a sinto. O que magoa é ver a presença da morte alastrando pelas paredes escuras da loja, escorrendo dos papéis caídos do tecto, envolvendo-o cada vez mais, dobrando-lhe o corpo para o chão.
     Mas Mestre Finezas parece nada disto sentir. Salta de um assunto para outro com facilidade. Preciso de tomar atenção para lhe seguir os fios do pensamento. Agora faz-me queixas da vila. E termina como sempre:
     -Esta gente não pensa noutra coisa que não seja o negócio, a lavoura. Para eles, é a única razão da vida.
     Volto a cabeça e olho-o. Sei o que vai dizer-me. Vai falar-me do abandono a que o votaram. Vai falar-me do teatro, da música, da poesia. Vai repetir-me que a arte é a coisa mais bela da vida. Mas não. Já nos entendemos só pelo olhar. Mestre Finezas salta por cima de tudo isto e ergue a navalha num lance teatral:
     - Que sabem eles da arte? Tu que estudaste, tu sabes o que é a arte. Eles hão-de morrer sem nunca terem gozado os mais belos momentos que a vida pode dar!...
     Atravessou a loja, abriu um armário cavado na parede, e tirou o violino.
     - Eu não te disse nada, Carlinhos, mas, olha, tenho vendido tudo para não morrer de fome... Tudo. Mas isto!...
     Estendeu o violino na minha direcção e continuou, reprimindo um soluço:
     - Isto nem que eu morra!... É a minha última recordação...
     Calou-se por longo tempo de olhos no chão. Depois, de boca muito descerrada, disse-me como quem pede uma esmola:
     - Tu queres ouvir uma música que eu tocava muito, Carlinhos?...
     - Quero!... -respondi, forçando um sorriso de agrado.
     Nem me ouviu. Estava, ao meio da loja, entre mim e a porta e prendia o violino no queixo.
O arco roçou pelas cordas e um murmúrio lento começou, no silêncio que vinha das ruas da vila e enchia a casa. Lentamente, o fio de música ia engrossando. Era agora mais forte agudo, desamparado como um choro aflito. E demorava, ondeava por longe, vinha e penetrava-me de uma sensação dolorosa.
     Levantei-me de toalha caída no peito, cara ensaboada, preso não sei de que vagos desgostosos pensamentos. Talvez pensasse em fugir, pedir-lhe que não tocasse mais aquela música desarmada e triste.
     Mas, na minha frente, Mestre Finezas, alheio a tudo, fazia gemer o seu violino, as suas recordações. O sol da meia tarde entrava pela porta e aureolava-o de uma luz trémula. E erguia o corpo como levado na toada que os seus dedos desfiavam; ficava nos bicos dos pés, todo jogado para o tecto.
     De súbito, uma revoada de notas soltaram-se, desencontradas, raivosas. Encheram a loja, e ficaram vibrando.
Os braços caíram-lhe para os lados do corpo. Numa das mãos segurava o arco, na outra o violino. E, muito esguio, macilento, Mestre Finezas curvou a cabeça branca, devagar, como a agradecer os aplausos de um público invisível.
Manuel da Fonseca, in Aldeia Nova

Teste de 8º ano


I

Compreensão do oral

 

Ouve atentamente o conto tradicional “A noiva do corvo de Teófilo Braga. De seguida escolhe a alínea que completa corretamente cada uma das afirmações (20 pontos):



1. Havia, numa terra, um corvo que queria casar. À primeira rapariga que recusou o seu pedido, o corvo
a. prometeu vingar-se. ____
b. arrancou-lhe um pedaço do braço. ____
c. arrancou-lhe os olhos. ____
d. bicou-lhe as orelhas até sangrarem. ____
 
2. Com medo, uma rapariga aceitou casar-se com o corvo. A vizinha aconselhou-a a
a. chamuscar-lhe as penas. ____
b. arrancar-lhe algumas penas quando adormecesse.____
c. deitar-lhe veneno na comida. ____
d. contratar um bandido para o matar.____
 
3. A vizinha achava que, assim,
a. o corvo não magoaria mais a esposa. ____
b. lhe quebraria o feitiço. ____
c. dessa maneira ficaria com a magia do corvo.____
d. o corvo morreria.____
 
4. Ao fazer o que a vizinha lhe aconselhou, a rapariga
a. ficou sem os olhos. ____
b. recebeu a magia do marido. ____
c. enfraqueceu o corvo. ____
d. dobrou o encantamento do corvo.___
5. O corvo pediu à mulher que chamasse os pássaros para
a. lhe darem as suas penas. ____
b. chorarem no seu funeral. ____
c. adorarem o seu rei. _____
d. o levarem até ao paraíso. ____
 
6. Logo de seguida, o corvo
a. morreu. ____
b. ficou transformado em pó. ____
c. bateu as asas e desapareceu. ____
d. foi levado pelo demónio. ____
 
7. Antes de desaparecer, o corvo disse à mulher que, para o tornar a ver, teria de
a. dançar durante sete semanas. ____
b. romper uns sapatos de ferro. ____
c. fazer um pacto com o diabo. ____
d. mandar rezar uma missa pela sua alma. ____
 
8. Ao perguntar a um velho se tinha visto um pássaro, aquele disse-lhe que
a. não tinha visto nenhum. ____
b. só tinha visto rolas e pombas. ____
c. naquela zona não havia pássaros. ____
d. vira muitos na fonte Madrepérola. ____
 
 

9. Um corvo que encontrou disse-lhe para entrar numa casa ao pé de uma fonte e para

a. matar o velho que a guardava e quebrar as gaiolas que ele tinha.____

b. procurar aí o seu marido. ____

c. esperar aí o rei dos pássaros. ____

d. bater à porta. _____

 

10. Ao fazer o que o corvo mandou, a rapariga descobriu que o seu marido era

a. um feiticeiro.

b. um belo rapaz.

c. o rei.

d. um duende encantado. ____

 

 

II- Leitura

 

1.    Analisa o anúncio publicitário e identifica (5 pontos):

 

a)    a entidade promotora;

b)    o produto;

c)    o slogan;

d)    o público-alvo;

e)    o tipo de publicidade.


2.    Lê a banda desenhada e responde às questões com respostas completas e bem estruturadas:

 

2.1.        Na tua opinião, com quem estará a falar o Calvin? Justifica a tua resposta (4 pontos). 

2.2.        Justifica o tipo de letra usada no primeiro balão (3 pontos). 

2.3.        Caracteriza o Calvin, tendo por base a situação presenciada nesta banda desenhada (10 pontos)?


3.    Completa as frases relacionadas com a obra Mar me quer (4 pontos):

a)    A obra Mar me quer foi escrita por ______________________________.

b)    O protagonista da história é também o seu_____________________.

c)    O protagonista chama-se _________________________.

d)    A mãe de D. Luarmina meteu-a num colégio de freiras por ela ser muito ___________________ .

e)    Fisicamente, Luarmina era muito ______________________.

f)     O pai do narrador, Agualberto, ganhava a vida a ________________________________.

g)    Agualberto disse ao filho que ele morreria ______________________________________.

h)    No fim, D. Luarmina desvenda o seu segredo ao vizinho, isto é, ________________________.

 

III- Gramática

1.    Identifica os advérbios presentes nos enunciados que se seguem (3 pontos):

 

a)    Calvin, fizeste os deveres, certamente!

b)    Sim, senhora professora, fi-los todos ontem, antes do jantar.

c)    Gostei muito de ouvir essa notícia tão boa!
 

2.    Divide e classifica as orações presentes nas frases que se seguem (6 pontos):


a)    Como não sabe do casaco, o Calvin está chateado.

b)    Quando encontrar o casaco, vai ficar aliviado.

c)    Se não encontrar o seu casaco preferido, o Calvin terá de usar outro.

 

3.    Identifica os processos de formação das palavras presentes no quadro (coloca um X no espaço correspondente ao processo em causa) (5 pontos):

 
Palavras
Processos de formação das palavras
Derivação
Composição
Prefixação
Sufixação
Parassíntese
Morfológica
Morfossintática
estrela-do-mar
 
 
 
 
 
cedinho
 
 
 
 
 
contentamento
 
 
 
 
 
encurtar
 
 
 
 
 
guarda-civil
 
 
 
 
 
automóvel
 
 
 
 
 
lusodescendente
 
 
 
 
 
peixe-espada
 
 
 
 
 
apadrinhar
 
 
 
 
 
imoral
 
 
 
 
 

 


4.    Identifica o vocativo nas frases que se seguem (2 pontos):

a)    Mãe, onde está o meu casaco?

b)    O casaco, Calvin, está no armário.

c)    Chega aqui, filho!

d)    Mas que chatice, Miguel…

 

5.    Indica se as frases que se seguem estão na voz ativa ou na passiva (2 pontos):

 

a)    O Calvin procura o casaco todas as manhãs.

b)    O Calvin ama o seu tigre.

c)    O casaco foi comprado no centro comercial.

d)    A mãe do Calvin será operada pelos médicos.

 

5.1.        Em qual destas frases está explícito o complemento agente da passiva (1 ponto)?

 

5.2.        Transforma as frases que estão na voz ativa e coloca-as na passiva e vice-versa (4 pontos).

 

IV- Produção escrita (o cartoon não é o mesmo, mas a ideia é similar)

 

1.    Escreve um texto de opinião, de 100 a 150 palavras, onde comentes o cartoon, apresentes o teu ponto de vista sobre a mensagem que o cartoonista pretendeu transmitir e reflitas sobre o papel que cada um de nós terá de desempenhar na poupança da água (27 pontos).
 
Proposta de correção:
Grupo I-1.c; 2.a; 3.b; 4.d; 5.a; 6.c; 7.b; 8.d; 9.a; 10.c
A Noiva do Corvo
Havia numa terra uma mulher, que tinha em sua companhia um corvo. Defronte dela moravam três raparigas muito lindas. Como o corvo queria casar, mandou falar à mais velha; respondeu-lhe que não, e o corvo, raivoso, arrancou-lhe os olhos. Sucedeu o mesmo com a segunda, até que a terceira sempre se sujeitou a casar com o corvo.
Tempos depois de já viverem na sua casa, a rapariga falou a uma vizinha no seu desgosto de estar casada com um corvo; a vizinha aconselhou-lhe que lhe chamuscasse as penas, porque podia ser obra de encantamento, e assim se quebraria. Quando à noite se foram os dois deitar, a rapariga chegou a candeia às penas do corvo; ele acordou logo, dando um grande berro:
- Ai, que me dobraste o encantamento! Se me queres salvar, vai pôr-te àquela janela, e todos os pássaros que vires, chama-os e pede-lhes assim: «Venham, passarinhos, venham despir-se para vestir el-rei que está nu.» De facto os passarinhos começaram a vir poisar na janela, e cada um deixava cair uma pena com que o corvo se foi cobrindo. Depois que ficou outra vez emplumado, o corvo bateu as asas e desapareceu, dizendo para a mulher: «Agora se me quiseres tornar a ver sapatos de ferro hás-de romper.»
A pobre rapariga ficou sozinha toda aquela noite, e logo que amanheceu foi comprar uns sapatos de ferro e meteu-se a correr o mundo. Tinha os sapatos quase estragados de andar, quando encontrou um velho e lhe perguntou se não tinha visto um pássaro. O velho respondeu:
- Eu venho da fonte da Madrepérola, onde estavam bastantes.
Ela continuou o seu caminho, e antes de chegar à fonte ali encontrou um corvo que lhe disse:
_ Olha, se quiseres salvar o rei, vai à fonte, onde estará uma lavadeira a lavar um vestido de penas, tira-lho e lava-o tu. Ao pé da fonte está uma casa, e um velho que a guarda; entra aí, mata o velho para poderes quebrar todas as gaiolas e dar a liberdade aos pássaros que ele tem lá presos.
A rapariga chegou à fonte, e fez como o corvo lhe tinha dito: lavou o vestido de penas, e depois entrou na casa onde estava o velho, fingiu que via vir pelo mar uma linda embarcação; o velho chegou-se à janela e a rapariga pegou-lhe pelas pernas e deitou-o ao mar. Depois quebrou todas as gaiolas e os pássaros em liberdade tornaram-se príncipes que estavam encantados, e entre eles estava o seu marido, que era o rei e lhes pôs obrigação de a servirem toda a vida.
Grupo II
1.    a. Brahma
b. cerveja (sem álcool)
c. Se for dirigir não beba. Se beber, beba Brahma.
d. população adulta
e. comercial
2.     
2.1. Muito provavelmente, o Calvin estará a falar com a mãe, já que é ela que costuma saber onde está tudo em casa.
2.2. No primeiro balão, a letra é maior e está mais carregada para traduzir a fala em voz alta.
2.3. Percebe-se, pela situação presenciada, que o Calvin é um menino resmungão, desorganizado e que não assume as suas falhas, já que a obrigação de arrumar o casaco era apenas sua.
2.4. Na quarta vinheta, o Calvin mostra-se muito aborrecido por ir encontrar o casaco no armário que, pelos vistos, era o sítio mais improvável onde deveria estar.
2.5. a) balão de fala coletiva; b) balão de fala; c) balão de pensamento; d) balão de voz alta; e) balão de injúrias ou palavrões
3.  Mia Couto; narrador; Zeca Perpétuo; bonita; gorda; abençoar os anzóis; afogado nos lençóis; ela era a amante do pai que caiu ao mar.
Grupo III
1. a) certamente; b) Sim, ontem, antes; c) muito, tão
2.
a)    Como não sabe do casaco- oração subordinada adverbial causal
o Calvin está chateado.- oração subordinante
b)    Quando encontrar o casaco- oração subordinada adverbial temporal
vai ficar aliviado.- oração subordinante
c)    Se não encontrar o seu casaco preferido- oração subordinada adverbial condicional
o Calvin terá de usar outro.- oração subordinante
3. estrela-do-mar, guarda civil, peixe-espada- composição morfossintática
cedinho, contentamento- sufixação
encurtar, apadrinhar- parassíntese
automóvel, lusodescendente- composição morfológica
imoral- prefixação
4. Mãe, onde está o meu casaco?
O casaco, Calvin, está no armário.
Chega aqui, filho!
Mas que chatice, Miguel…
 
5.
a)    O Calvin procura o casaco todas as manhãs. (ativa)
b)    O Calvin ama o seu tigre. (ativa)
c)    O casaco foi comprado no centro comercial.  (passiva)
d)    A mãe do Calvin será operada pelos médicos. (passiva)
 
5.1. d
5.2. Todas as manhãs, o casaco é procurado pelo Calvin.
O tigre é amado pelo Calvin.
Compraram o casaco no centro comercial.
Os médicos operarão a mãe do Calvin
Grupo IV- Resposta aberta