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Sei que há muita gente que consulta este blogue e utiliza os materiais aqui publicados, mas poucos deixam comentários e eu gostava mesmo de saber a vossa opinião... :-) textosintegrais@gmail.com

terça-feira, 22 de março de 2011

“Jangada para longe”, Ondjaki

“Jangada para longe”, Ondjaki

Si rotcha é pâgina! Pêra ê sílaba
si corpé é caneta! Coraçon ê tinta

Corsino Fortes, Árvore & tambor

Para ele o mundo era um quintal enorme dotado de compartimentos separados por água, e fenómenos como as chuvas, as tempestades, ou mesmo os ódios dos homens carregados em navios enormes, eram gotículas para qualquer sorriso desfazer.
Por hábito, sentava-se no monte observando navios partir e chegar. Vivia obcecado com a ideia de conhecer outros países, mais do que isso!, outras gentes, como se as suas veias fossem irrigadas por sensações movediças e volúveis ao empurrão do  vento, nisso que era o seu prazer mais íntimo: observar os que chegavam, cheirar-lhes os cabelos, catalogar-lhes o sorriso segundo a proveniência, e, quase impercetivelmente, fazê-los falar de coisas banais acontecidas do outro lado do mundo.
Trabalhava há meses na secreta engenhoca, desenvolvendo no alpendre barulhos entrecortados com pancadinhas, importando para o habitáculo toda uma gama variada de pregos, panos, tubagens diversas, correntes, metais, tintas, até ao dia em que a barulhagem cessou e apenas restou o som de um assobio simples, desnutrido de qualquer ritmia mais complicada ─ como cantam os pássaros antes de terem molhado o bico na frescura da manhã.
Sem cerimónias para empolar o acontecimento, retirou o engenho da casa num lento mas eficaz berço semimecanizado, e o povoado sorriu em uníssono numa candura de espanto e respeito pelo enorme objeto misterioso que desfilava pelas pedras da calçada. O desfile solitário cessou na praça principal.
A estranha criatura de madeira era perturbante e bela, fria e poética, ridícula e cativadora, o que impelia os observadores locais a sorrir de modo involuntário, como se a incompreensão do seu funcionamento em vez do rancor pelo inventor antes instigasse uma sensação de autoria coletiva. Todos, cada um a seu tempo, modo e sorriso, sentiam patentes na obra o cunho da sua contribuição pessoal e nunca se saberá quem foi o primeiro jovem ou a primeira velha a depositar no corpo do ser móbil a primeira recordação, o segundo objeto de decoração, a terceira folha de árvore, a quarta estátua de madeira ou a quinta folha de secção de poesia do único jornal local. Naquilo que se julgou ser o guiador da máquina, a velha mais velha do povoado (sendo por isso a mais bela) amarrou com vigor o único sibitchi que o engenho levava.
Durante dois dias a exibição perdurou, numa ânsia que crescia por si e se alimentava de horas e olhares, tendo originado que a máquina fosse já outra, repleta de decorativos tradicionais, besuntada de cores vivas, vítima de peso duplicado pelas oferendas que as duas bagageiras abarrotavam. Crianças, aleijados e idosos, bebés de colo e cães vadios, nuvens e sóis, centopeias negras e pássaros brancos, marinheiros e putas pobres, comerciantes e doidos serenos, pescadores com estórias de sereias e ventos místicos, farmacêuticos e padres, bêbados e beatas, o governador e a esposa gorda e até um caixeiro-viajante, estiveram todos na praça, no terceiro dia, aguardando as primeiras palavras do inventor da escultura já carnavalesca. A velha mais velha do povoado (sendo por isso a mais sabedora) viu o mundo e o povoado banhados pela névoa da sua lágrima idosa e todos então souberam: era uma máquina de se pedalar para longe. 
Depois das palavras do governador, encorajando a atitude criativa do cidadão, elogiando com emoção a sua iniciativa cultural e declarando aquele dia feriado nacional, o inventor tomou a palavra e, nuns modos verbais desajeitados, instigou a população a contribuir com gravuras, comida seca, plantas medicinais, panos, sementes e livros ou registos pessoais de poesia:
Poesia, sim… ─ disse, em banho de comoção. ─ Porque é isso que um povo deve oferecer a outro!
Mais adiantou o local da sua derradeira partida, explicando que faria esse longo percurso em velocidade lentíssima para que os conterrâneos apreciassem as qualidades da máquina, indagassem de suas potencialidades e lhe fossem entregando nesse percurso inclinado para o lado de lá do mundo, as cartas, os recados e os conselhos válidos para a movimentação humana que aquela viagem materializava.
Ao longo da estrada, entre um e outro solavanco de pedra, exibiu ao povoado o complicado engenho que a sua imaginação fizera eclodir: uma labiríntica máquina de ventos e popas, tubos de refrigeração e reaproveitamento de líquidos e sopros, compartimentos impossíveis, reguladores de temperatura e duas enormes bagageiras para livros já com cantos falsos previstos para a naftalina em bola branca. Era máquina para ocupar meia dúzia de metros quadrados mas com estabilidade estudada e apetrechos científicos que a permitiam mover-se a vento, ácido úrico ou força humana que se expressasse em ato de pedalação.
Quando chegou à praia, nesse lento cortejo que havia acontecido, alguns dos ilustres convivas do povoado já lá o esperavam e, na tendência narcísica de se voltarem a ouvir, quiseram mesmo reinventar novos discursos. O dono da engenhoca dissuadiu-os de o fazer, enquanto se desfazia de alguns volumosos mantimentos gastronómicos que a população ofertara, sendo que a praia, azulada e linda, foi palco de um improvisado banquete de que as crianças puderam usufruir com certa euforia.
O fim da tarde, propício a momentos de marítima aventuragem, havia-se já instalado. Pássaros aos longe, o sol se extinguindo na água salgada, o violão sorridente de Kaká Barbosa, as cervejas derretendo os corações e a mulata triste, ao longe também, que com o olhar se despedia do homem que partia.
Movimento humano, rústico, o homem iniciou as movimentações ─ correntes puxadas e velas içadas, duas espécies de pedais que se desdobravam de tubos secretos, e a máquina de se pedalar revelou uma poética simbiose de jangada com algo que existisse sob a designação de bicicleta naval. As gentes afastaram-se do homem deixando-o de braços suados com a sequencial preparação mecânica que o ato requeria. E moveu-se ─ aquilo.
Uma onda embateu estrondosa na janguicleta, como seria mais tarde chamada, e os lábios de baixo ─ espanto e burburinho, pois a máquina dançava encaixada na curva das ondas, resistindo às laterais investidas da água, desenvolvendo brilhos d’água nas gotas de sol que as enormes pás movimentavam.
A estranha criatura de madeira e o homem nela baloiçavam na direção do horizonte estirado, e só então um padre despertou para a evidência do que não havia sido indagado:
Ô nhôôôô… ─ o berro sobre as gentes, sobre as águas. ─ Undi ki nhu átabai?[1]
Lá das guelras salgadas da sua garganta, entre o sorriso-só e suor-delícia, entre sombra de sol e raio lunar, entre certezismo hirto e utópico deslumbramento, o homem pedalante gritou assim:
N’ta ba tê Spanha…, ta ba tê Merca di bicycleeeetaaaaa![2]


[1] Onde é que vai?
[2] Vou até Espanha… Até à América, de bicicleta! [Versos do poeta cabo-verdiano Corsino Fortes.]

domingo, 20 de março de 2011

“A cidade sonhada”, Mia Couto


            Quando eu tinha nove anos, a Beira era a maior cidade do mundo. As avenidas de minha terra natal eram as mais largas do universo e apenas se esperava que o futuro, triunfal, por ali desfilasse. Na Praça do Município cabiam os mais demorados domingos da História, e o Chiveve competia com os mais amazónicos estuários.
            A estação ferroviária era de tal dimensão que ali poderia desembarcar Sophia Loren ou uma outra artista saída das matinés do Olympia. As mangas do Dondo eram comidas em todo o planeta e, do alto do farol do Macúti, se contemplavam extensões que fariam inveja aos astronautas.
            De noite, enquanto nos chegavam os sons dos batuques do Chipangara, eu e o meu irmão discutíamos, especialistas em lonjuras. Ele assegurava que a floresta de Inhaminga era o lugar mais distante do planeta. Eu abria o mapa-mundo e a Beira se confirmava epicentro cósmico. Confortado, adormecia com pena dos meninos que nasciam noutros periféricos lugares.
            Certa vez embarquei num avião para rumar a Lourenço Marques. A família veio despedir-se, em lágrimas, ao maior aeroporto do mundo e era como se eu partisse para além do último horizonte. A malta do bairro também foi ao aeroporto e lançou-me um derradeiro olhar, misto de inveja e raiva. Eu ia para território rival, para a terra dos “laurentinos”, contaminar-me de valores tribais alheios.
            Regressei uma semana depois com a suspeita de que havia lugares mais distantes que Inhaminga e cidades maiores que a minha. Nos dias subsequentes, fui colocado em quarentena, punido por confessar que, afinal, outros mundos poderiam haver.
            Na altura, eu não sabia que as pequenas cidades vivem sempre o sonho de serem outra coisa. Sonham ser grandes cidades. A minha terra natal, era, afinal, um lugar acanhado, onde o mundo chegava em segunda mão. Talvez, por isso, o tamanho dos nossos sonhos fosse reforçado. Talvez, por isso, o meu lugar tivesse ficado maior quando o soube pequeno. Naquele momento, porém, eu estava sendo penalizado como Galileu que ousou descentrar o cosmos. Deixado em abandono pelos amigos, fui pescar para os lados do porto. Ao passar pelo Beira Terrace, uma multidão me alertou: num lugar onde nada sucedia algo trágico acontecera. Estavam retirando das águas os corpos de dois jovens que se tinham suicidado. Um detalhe me chamou a atenção: estavam amarrados pelos pulsos, um arame lhes prendia o fatal destino. Eram dois namorados, impedidos de exercer o seu amor porque pertenciam a raças diferentes.
            Sentado na amurada do cais, sem nenhuma vontade de lançar a linha, olhei a cidade e ela, pela primeira vez, me pareceu pequena. Como poderia ser grande um lugar se nele não cabia o amor de dois anónimos adolescentes? Até àquela tarde eu era ainda um moço capaz de sonhar vidas e viver sonhos.
            Naquele momento creio ter entendido: a cidade não é um lugar. É a moldura de uma vida, um chão para a memória. Enrolei a linha, e regressei a casa, o poente avermelhando a paisagem e os flamingos trazendo o céu para junto da terra. Então, ganhei certeza: a cidade em que nasci estava destinada a nascer de mim. Um arame invisível nos prendia os pulsos, a mim e à minha terra natal. Se alguma vez nos atirássemos sobre o abismo não seria para nos afundarmos mas para ganharmos voo, o mesmo voo dos flamingos cruzando os poentes sobre o rio Pungwé.
(Abril de 2007)
COUTO, Mia (2010): Pensageiro Frequente. Caminho, Alfragide, pp. 17-19.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Cine-Ficha sobre o documentário "Grandes Livros- Os Lusíadas"

Para conseguirem este episódio basta irem ao youtube que o encontram facilmente. A Cine-Ficha está bastante completa e permite fazer uma abordagem geral à vida do poeta e aos Lusíadas.
Responde às questões que se seguem com V ou F (conforme as afirmações sejam verdadeiras ou falsas):


A. Sobre a obra:
1. Os  Lusíadas  são uma epopeia. ________
2. A epopeia e a comédia eram consideradas os géneros literários mais importantes na época. ________
3. A ação da obra acompanha a viagem de Vasco da Gama até à Índia. ________
4. Vasco da Gama chegou à Índia em 1498. ________
5. Em Os Lusíadas, Camões descreve as aventuras dos portugueses desde a fundação da nacionalidade. ________
6. Quando Camões decide escrever a obra, Portugal está a atravessar uma ótima fase a todos os níveis. ________
7. Quem disse a frase “Digo que se sabe mais em um dia agora pelos portugueses do que se sabia em cem anos pelos romanos.” foi o próprio Camões. ________
8. A ação inicia-se no dia da partida das naus. ________
9. O pai dos deuses, Júpiter, decide convocar uma reunião para saber que destino dar aos portugueses. ________
10. Vénus é a grande aliada dos portugueses, enquanto Júpiter é seu inimigo. ________
11.Baco quer auxiliar os portugueses a dominarem a Índia. ________
12. O próprio Vasco da Gama pede o au
xílio dos deuses pagãos, como Vénus ou Neptuno, quando se vê aflito. ________
13. O convívio entre o maravilhoso pagão e o maravilhoso cristão é uma das maiores inovações da obra. ________
14. Neptuno dirige os portugueses para sucessivas armadilhas. ________
15. Em Melinde, os portugueses encontram um porto de abrigo. ___
16. O Rei de Melinde não mostra nenhum interesse na História de Portugal. ________
17. Um dos episódios da História de Portugal que o Gama conta ao rei de Melinde é o do amor entre Inês de Castro e D. Pedro. ________
18. Vasco da Gama conta a despedida dos marinheiros de Belém como um momento de grande alegria. ________19. Uma figura mítica de Os Lusíadas é o Velho do Restelo. Este simboliza o conservadorismo, a incapacidade de arriscar, o medo de inovar. ________
20. Terminada a narração da História de Portugal ao Rei de Melinde, Vasco da Gama segue viagem sem problemas até à Índia. ________
21. O principal impulsionador dos descobrimentos foi o desejo de riqueza. ________
22. Os portugueses foram os primeiros a colocar em contacto os dois lados opostos do mundo. A este fenómeno chama-se globalização. ________
23. N’ Os Lusíadas o maior inimigo dos portugueses são os indianos. ________
24. Chegado à Índia, o Gama é bem recebido por todos e não tem quaisquer problemas. ________
25. De regresso a casa, Vénus decide premiar o esforço dos portugueses encaminhando-os até à Ilha dos Amores.

 
B. Sobre o autor:
1. O nome completo de Camões é Luís Damião de Camões. ____
2. Camões era um homem com pouca cultura. ________
3. O dia 10 de Junho é feriado por celebrar a data de nascimento de Camões. ________
4. Sobre a vida de Camões pouco se sabe ao certo. ________
5. Porém, a data de nascimento é dada como certa: 1525. ___
5. Terá estudado na Universidade de Lisboa. ________
6. Era um fidalgo pobre, mas bem relacionado. ________
7. Não tinha nenhum sucesso entre as mulheres. ________8. Era um homem afável e de bom trato. ________
9. Foi preso uma única vez, em 1552, por agressão. ________
10. Terá perdido um olho em Ceuta, numa batalha. ________
11. Foi em Ceuta, enquanto se reabilitava, que começou a escrever Os Lusíadas. ________
12. Vai para a Índia, mas não se sabe se de livre vontade ou desterrado pelo Rei. ________
13. Permanece fora do país durante 10 anos. ________
14. Camões tinha conhecimentos sobre História de Portugal, História Universal, Geografia, Ciências Naturais, Ética, Filosofia, Mitologia, autores clássicos e autores modernos. ________
15. O poeta terá demorado mais de 15 anos a escrever a obra em causa. ________
16. Em 1553 Camões está em Goa e durante 3 anos terá prestado serviço militar como escudeiro em diversas expedições. ________17. Depois leva uma vida folgada, esbanjando dinheiro._______
18. Em 1563 é nomeado “provedor dos defuntos”, em Macau, pelo Vice-Rei Francisco Coutinho. ________
19. Três anos depois, no regresso de Macau, o navio onde seguia naufraga e diz-se mesmo que terá nadado para salvar Os Lusíadas. ________
20. Camões vai para Angola, vivendo aí sempre na penúria. ________
21. Diogo de Couto e outros amigos ajudam-no a sobreviver e acabam por lhe pagar a viagem de regresso à pátria. ________
22. Quando chega a Portugal, o rei é D. João III, a quem Camões dedica a sua obra. ________
23. A obra é publicada em 1578. ________
24. Camões morre dois anos depois. ________
25. O corpo de Camões encontra-se no Mosteiro dos Jerónimos. ________
 

quarta-feira, 16 de março de 2011

"A Igreja do Diabo" de Machado de Assis

No seguimento do estudo do Auto da Barca do Inferno, porque não a leitura de um conto (de um dos maiores escritores de língua portuguesa) com uma temática semelhante - a eterna luta entre o bem e o mal?  Conto seguido de ficha de aferição da leitura (vale 100 pontos).


A IGREJA DO DIABO- Machado de Assis

Capítulo I
De uma idéia mirífica

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.
- Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.
Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a idéia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo:
 - Vamos, é tempo.
E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.

Capítulo II
Entre Deus e o Diabo

Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-se logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os olhos no Senhor.
- Que me queres tu? perguntou este.
- Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do século e dos séculos.
- Explica-te.
- Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros...
- Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.
- Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação... Boa idéia, não vos parece?
- Vieste dizê-la, não legitimá-la, advertiu o Senhor.
- Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso dos mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental.
- Vai.
- Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?
- Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há tanto da tua desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja.
O Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma ideia cruel no espírito, algum reparo picante no alforje de memória, qualquer coisa que, nesse breve instante de eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:
- Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja, e trazê-las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda pura...
- Velho retórico! murmurou o Senhor.
- Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, - a indiferença, ao menos, - com que esse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios que liberalmente espalha, - ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias à vida... Mas não quero parecer que me detenho em coisas miúdas; não falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda... Vou a negócios mais altos...Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de súplica. Deus interrompeu o Diabo.
- Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?
- Já vos disse que não.
- Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufrágio, ia salvar-se numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de algodão?
- Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.
- Negas esta morte?
- Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los...
- Retórico e sutil! exclamou o Senhor. Vai, vai, funda a tua igreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas, vai! vai!
Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe silêncio; os serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus cânticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra.

Capítulo III
A boa nova aos homens

Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas.
- Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...
Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras cínica e deslavada.
Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: “Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu...” O mesmo disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos de Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de propriedades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.
As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloqüência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs. Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: Muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era um monumento de lógica.
A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no absurdo e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrado assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente.
E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma exceção foi logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito em simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele.
Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a noção de próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regime: “Leve a breca o próximo! Não há próximo!” A única hipótese em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra coisa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos achassem que uma tal explicação, por metafísica, escapava à compreensão das turbas, o Diabo recorreu a um apólogo: - Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas cada acionista não cuida realmente senão nos seus dividendos: é o que acontece aos adúlteros.
Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria.

Capítulo IV
Franjas e franjas

A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o tempo abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.
Um dia, porém, longos anos depois notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros.
A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de um droguista do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com o produto das drogas, socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de camelos, que tapava a cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à entrada de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogomano; roubou-o, com efeito, à vista do Diabo e foi dá-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O manuscrito beneditino cita muitas outras descobertas extraordinárias, entre elas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um calabrês, varão de cinqüenta anos, insigne falsificador de documentos, que possuía uma bela casa na campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meter-se na cama para não confessar que estava são. Pois esse homem, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a amizade de um cônego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquanto não lhe desvendasse nenhuma das suas ações secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se. O Diabo mal pôde crer tamanha aleivosia. Mas não havia que duvidar; o caso era verdadeiro.
Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir do espetáculo presente alguma coisa análoga ao passado. Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse-lhe:
- Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.

FICHA DE AFERIÇÃO DA LEITURA

1.       Um dia, o Diabo teve uma ideia. Decidiu:
a)     fundar uma igreja.
b)     ir ao Paraíso.
c)      tirar uns dias de folga.

2.      O Diabo decidiu comunicar a sua ideia:
a)     ao Senhor.
b)     aos seus demónios.
c)      aos santos.

3.      Quando o Diabo chegou ao pé de Deus, este estava a receber um recém-chegado. O seu nome era:
a)     Miguel.
b)     Fausto.
c)      Mateus.

4.      Quem eram os “serafins”?
a)     Almas pecadoras.
b)     Espíritos inquietos.
c)      Anjos.

5.      Como morreu Fausto?
a)     Atropelado por um camião.
b)     Afogado por salvar um casal de noivos.
c)      Queimado num incêndio.

6.      Já na Terra, o Diabo apresentou-se para:
a)     corrigir as pessoas da ideia que tinham dele e das histórias que contavam as beatas.
b)     conseguir cativar algumas almas desencaminhadas.
c)      semear simpatia a seu respeito.

7.      O Diabo decidiu:
a)     desafiar Deus para um confronto para ver qual era mais forte.
b)     negar os pecados mortais.
c)      convencer  Deus que tinha mudado e que só queria o bem dos humanos.

8.     Segundo o Diabo, a maior das virtudes era:
a)     a bondade.
b)     a sinceridade.
c)      a inveja.

9.      Como é que o Diabo definia “fraude”?
a)     Braço esquerdo do homem; o braço direito era a força.
b)     A melhor coisa que se podia fazer.
c)      Um pecado menor.

10.  O Diabo condenou:
a)     todo o mal praticado.
b)     o amor entre os homens.
c)      todas as formas de respeito.

11.   Para rematar a sua obra, o Diabo achou que devia:
a)     acabar  com toda a solidariedade humana.
b)     transformar as beatas em demónios.
c)      prestar contas a Deus do que tinha feito.

12.  O maior obstáculo à obra do Diabo era:
a)     ter de voltar rapidamente para o Inferno.
b)     o amor ao próximo.
c)      a intervenção dos santos.

13.  Para provar que se devia odiar e desprezar os outros, o Diabo fazia uma citação de Galiani:
a)     “O melhor da vida é pecar!”
b)     “Leve a breca o próximo! Não há próximo!”
c)      “Só os tolos se preocupam com o paraíso.”

14.   Alguns anos depois, o Diabo notou que:
a)     estava  a ficar cansado da vida que tinha.
b)     Deus tinha razão em certas coisas que dizia.
c)      as pessoas estavam de novo a praticar o bem.

15.   Um dos exemplos é o de um calabrês, fraudulento e mentiroso, que fez amizade:
a)     com um cónego a quem se confessava semanalmente.
b)     com um sapateiro com problemas de consciência.
c)      com uma mulher abandonada pelo marido e que estava na miséria.

16.   Identifica a figura de estilo presente em “sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada.”
a)     Adjectivação.
b)     Eufemismo.
c)      Enumeração.

17.   Na frase “Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil.” que expressão ou expressões desempenha(m) a função de complemento direto?
a)     “a cabeça”.
b)     “a cabeça” e “os braços”.
c)      “os braços”.

18.  Em “batendo as asas”, em que modo se encontra a forma verbal?
a)     Infinitivo.
b)     Condicional.
c)      Gerúndio.

19.  Na frase “Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu.” que nomes identificas?
a)     “Deus”, “Diabo”, “ancião” e “céu”.
b)     “Deus”, “Diabo” e “céu”.
c)      Deus” e “Diabo”.

20.  “Só agora concluí uma observação”, disse o Diabo. Em que voz se encontra esta frase?
a)     Ativa.
b)     Passiva.
 (Correção:a,a,b,c,b,a,b,c,a,c,a,b,b,c,a,c,b,c,a,a,)