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Sei que há muita gente que consulta este blogue e utiliza os materiais aqui publicados, mas poucos deixam comentários e eu gostava mesmo de saber a vossa opinião... :-) textosintegrais@gmail.com

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Quem é quem em A Odisseia de Homero, adaptação de João de Barros?

Seleciona a resposta correta:

1.    Ulisses era
a.    rei de Ítaca.
b.    rei de Ogígia.
c.    rei  de Tróia.

2.    Como se chamava a mulher de Ulisses?
a.    Euricleia.
b.    Melante.
c.    Penélope.

3.    Qual era o nome do filho de Ulisses?
a.    Telémaco.
b.    Eumeu.
c.    Agamémnon.

4.    Quem era Laertes?
a.    Criado de Ulisses.
b.    Pai de Ulisses.
c.    Marinheiro de Ulisses.

5.    Que deusa era a protetora de Ulisses?
a.    Diana.
b.    Afrodite.
c.    Minerva.

6.    A rainha cujo rapto provocou a guerra de Tróia foi
a.    Diana.
b.    Minerva.
c.    Helena.

7.    O marido da dita rainha chamava-se
a.    Telémaco.
b.    Menelau.
c.    Eumeu.

8.    A deusa que habitava na ilha de Ogígia chamava-se
a.    Circe.
b.    Medusa.
c.    Calipso.

9.    Quem eram os reis dos Feácios?
a.    Alcino e Arete.
b.    Eurímaco e Minerva.
c.    Eumeu e Penélope.

10. O músico que cantava a história de Ulisses e do cerco de Tróia era
a.    Cerbero.
b.    Demódoco.
c.    Melante.

11. O povo que usou frutos mágicos para escravizar os marinheiros que viajavam com Ulisses eram os
a.    Lotófagos.
b.    Feácios.
c.    Espartanos.

12. Quem era Nausica?
a.    Rainha da ilha do Sol.
b.    Irmã de Ulisses.
c.    Filha dos reis do país dos Feácios.

13.   O Ciclope que atacou Ulisses e os seus homens era
a.    Ninguém.
b.    Polifemo.
c.    Antífoo.

14.  O rei dos ventos chama-se
a.    Eolo.
b.    Vulcano.
c.    Zeus.

15.  Euríloco era
a.    o feitor.
b.    o pai de Ulisses.
c.    um marinheiro.

16.  A feiticeira que transformou os marinheiros em porcos chamava-se
a.    Circe.
b.    Calipso.
c.    Nausica.

17.  O deus que ensinou um truque a Ulisses para não ser enfeitiçado pela bruxa foi
a.    Zeus.
b.    Mercúrio.
c.    Marte.

18.   O cão que guardava as portas do inferno era chamado
a.    Centauro.
b.    Fauno.
c.    Cerbero.

19.   Como se chamava o profeta cego que Ulisses visitou nos infernos?
a.    Tirésias.
b.    Euríbates.
c.    Demódoco.

20.   De entre aqueles que sofriam horrores no inferno, Ulisses viu alguém que estava condenado a estar rodeado de comida e de água sem poder comer nem beber. Quem era?
a.    Aquiles.
b.    Equéneo.
c.    Tântalo.

21.   O herói que morreu em Tróia com uma flecha no calcanhar, e que Ulisses encontrou no inferno, foi
a.    Héracles.
b.    Aquiles.
c.    Eneias.

22.   Sila e Caribdes são
a.    deuses.
b.    marinheiros.
c.    monstros.

23. A criada que reconheceu Ulisses por uma cicatriz
a.    Melante.
b.    Euricleia.
c.    Helena.

24.  O feitor de Ulisses que o ajudou na vingança contra os pretendentes foi
a.    Eumeu.
b.    Euríbates.
c.    Eurímaco.

25. O cão de Ulisses chamava-se
a.    Cerbero.
b.    Sila.
c.    Árgus.

26.   O deus do mar é
a.    Zeus.
b.    Apolo.
c.    Neptuno.

27.   O pai dos deuses chama-se
a.    Marte.
b.    Zeus.
c.    Dionísio.


Correção:

1-a
2-c
3-a
4-b
5-c
6-c
7-b
8-c
9-a
10-b
11-a
12-c
13-b
14-a
15-c
16-a
17-b
18-c
19-a
20-c
21-b
22-c
23-b
24-a
25-c
26-c
27-b









sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Agualusa de novo

Há muitos anos viveu na Pérsia um grão-vizir - nome dado naquela época aos chefes dos governos -, que gostava imenso de ler. Sempre que tinha de viajar ele levava consigo quatrocentos camelos, carregados de livros, e treinados para caminhar em ordem alfabética. O primeiro camelo chamava- se Aba, o segundo Baal, e assim por diante, até ao último, que atendia pelo nome de Zuzá. Era uma verdadeira biblioteca sobre patas. Quando lhe apetecia ler um livro o grão-vizir mandava parar a caravana e ia de camelo em camelo, não descansando antes de encontrar o título certo.
Um dia a caravana perdeu-se no deserto. Os quatrocentos camelos caminhavam em fila, uns atrás dos outros, como um carreirinho de formigas. À frente da cáfila, que é como se chama uma fila de camelos, seguiam o grão-vizir e os seus ministros. Subitamente o céu escureceu, e um vento áspero começou a soprar de leste, cada vez mais forte. As dunas moviam-se como se estivessem vivas. O vento, carregado de areia, magoava a pele. O grão-vizir mandou que os camelos se juntassem todos, formando um círculo. Mas era demasiado tarde. O uivo do vento abafava as ordens. A areia entrava pela roupa, enfiava-se pelos cabelos, e as pessoas tinham de tapar os olhos para não fica-rem cegas. Aquilo durou a tarde inteira. Veio a noite e quando o Sol nasceu o grão-vizir olhou em redor e não foi capaz de descobrir um único dos quatrocentos camelos. Pensou, com horror, que talvez eles tivessem ficado enterrados na areia. Não conseguiu imaginar como seria a vida, dali para a frente, sem um só livro para ler. Regressou muito triste ao seu palácio. Quem lhe contaria histórias?
Os camelos, porém, não tinham morrido. Presos uns aos outros por cordas, e conduzidos por um jovem pastor, haviam sido arrastados pela tempestade de areia até uma região remota do deserto.
Durante muito tempo caminharam sem rumo, aos círculos, tentando encontrar uma referência qualquer, um sinal, que os voltasse a colocar no caminho certo. Por toda a parte era só areia, areia, e o ar seco e quente. À noite as estrelas quase se podiam tocar com os dedos.
Ao fim de quinze dias, vendo que os camelos iam morrer de fome, o jovem pastor deu-lhes alguns livros a comer. Comeram primeiro os livros transportados por Aba, ou seja, todos os títulos come-çados pela letra A. No dia seguinte comeram os livros de Baal. Trezentos e noventa e oito dias depois, quando tinham terminado de comer os livros de Zuzá, viram avançar ao seu encontro um grupo de homens. Eram as tropas do grão-vizir.
Conduzido à presença do grão-vizir o jovem guardador de camelos, explicou-lhe, chorando, o que tinha acontecido. Mas este não se comoveu:
- Eras tu o responsável pelos livros - disse -, assim por cada livro destruído passará um dia na pri-são.
O guardador de camelos fez contas de cabeça, rapidamente, e percebeu que seriam muitos dias. Cada camelo carregava quatrocentos livros, então quatrocentos camelos transportavam cento e sessenta mil! Cento e sessenta mil dias são quatrocentos e quarenta e quatro anos. Muito antes disso morreria de velhice na cadeia.
Dois soldados amarraram-lhe os braços atrás das costas. Já se preparavam para o levar preso, quando Aba, o camelo, se adiantou uns passos e pediu licença para falar:
- Não faças isso, meu senhor ? disse Aba dirigindo-se ao grão-vizir ? esse homem salvou-nos a vida.
O grão-vizir olhou para ele espantado:
- Meu Deus! O camelo fala!?
- Falo sim, meu senhor ? confirmou Aba, divertido com o incrédulo silêncio dos homens - Os livros deram-nos a nós, camelos, a ciência da fala.
Explicou que, tendo comido os livros, os camelos haviam adquirido não apenas a capacidade de falar, mas também o conhecimento que estava em cada livro. Lentamente enumerou de A a Z os títulos que ele, Aba, sabia de cor. Cada camelo conhecia de memória quatrocentos títulos.
- Liberta esse homem - disse Aba -, e sempre que assim o desejares nós viremos até ao vosso palácio para contar histórias.
O grão-vizir concordou. Assim, a partir daquele dia, todas as tardes, um camelo subia até ao seu quarto para lhe contar uma história. Na Pérsia, naquela época, era habitual dizer-se de alguém que mostrasse grande inteligência:
- Aquele homem é sábio como um camelo.
Isto foi há muito tempo. Mas há quem diga que, quando estão sozinhos, os camelos ainda conversam entre si.
Pode ser.
José Eduardo Agualusa, Estranhões & Bizarrocos
estórias para adormecer anjos], Publicações Dom Quixote

sábado, 13 de agosto de 2011

Mais um conto do grande Eça

UM POETA LÍRICO

AQUI está, simplesmente, sem frases e sem ornatos, a história triste do poeta Korriscosso. De todos os poetas líricos de que tenho notícia, é este, certamente, o mais infeliz. Conheci-o em Londres, no hotel de Charing-Cross, uma madrugada regelada de Dezembro. Tinha eu chegado ao continente, prostrado por duas horas de Canal da Mancha... Ah! Que mar! E era só uma brisa fresca de Noroeste: mas ali, no tombadilho, sob uma capa de oleado de que um marujo me tinha coberto, como se cobre um corpo morto, fustigado da neve e da vaga, oprimido por aquela treva tumultuosa que o paquete ia rompendo aos roncos e aos encontrões – parecia-me um tufão dos mares da China...
Apenas entrei no hotel, gelado e estremunhado, corri ao vasto fogão do peristilo, e ali fiquei, saturando-me daquela paz quente em que a sala estava adormecida, com os olhos beatamente postos na boa brasa escarlate... E foi então que vi aquela figura esguia e longa, já de casaca e gravata branca, que do outro lado da chaminé, de pé, com a taciturna tristeza duma cegonha que cisma, olhava também os carvões ardentes, com um guardanapo no braço. Mas o porteiro tinha rolado a minha bagagem, e eu fui inscrever-me ao bureau. A guarda-livros, tesa e loura, com um perfil antiquado de medalha safada, pousou o seu crochê ao lado da sua chávena de chá, acariciou com um gosto doce os dois bandós louros, assentou corretamente o meu nome, de dedinho no ar, fazendo rebrilhar um diamante, e eu ia subir a vasta escadaria, – quando a figura magra e fatal se dobrou num ângulo, e murmurou-me num inglês silabado:
– Já está servido o almoço das sete...
Mas eu não queria o almoço das sete. Fui dormir.
Mais tarde, já repousado, fresco do banho, quando desci ao restaurante para o lunch, avistei logo, plantado melancolicamente ao pé da larga janela, o indivíduo esguio e triste. A sala estava deserta numa luz parda: os fogões flamejavam; e fora, no silêncio do domingo, nas ruas mudas, a neve caía sem cessar dum céu amarelento e baço. Eu via apenas as costas do homem; mas havia na sua linha magra e um pouco dobrada uma expressão tão evidente de desalento, que me interessei por aquela figura. O cabelo comprido, de tenor, caído sobre a gola da casaca, era, manifestamente, dum meridional; e toda a sua magreza friorenta se encolhia ao aspecto daqueles telhados cobertos de neve, na sensação daquele silêncio lívido... Chamei-o. Quando ele se voltou, a sua fisionomia, que apenas entrevira na véspera, impressionou-me: era um carão longo e triste, muito moreno, de nariz judaico e uma barba curta e frisada de Cristo em estampa romântica; a testa era destas que, em boa literatura, se chama, creio eu, fronte: era larga e era lustrosa. Tinha o olhar encovado e vago, com uma indecisão de sonho nadando num fluido enternecido... E que magreza! Quando andava, a calça curta torcia-se em torno da canela como pregas de bandeira em torno dum mastro: a casaca tinha dobras de túnica ampla; as duas abas compridas e agudas eram desgraçadamente grotescas. Recebeu a ordem do meu almoço, sem me olhar, num tédio resignado: arrastou-se para o comptoir onde o maître d’hotel lia a Bíblia, passou a mão pela testa com um gesto errante e dolente, e disse-lhe numa voz surda:
– Número 307. Duas costeletas. Chá...
O maître d’hotel afastou a Bíblia, inscreveu o menu – e eu acomodei-me à mesa, e abri o volume de Tennyson que trouxera para almoçar comigo – porque, creio que lhes disse, era domingo, dia sem jornais e sem pão fresco. Fora continuava a nevar sobre a cidade muda. A uma mesa distante, um velho cor de tijolo e todo branco de cabelo e de suíças, que acabara de almoçar, dormitava de mãos no ventre, boca aberta e luneta na ponta do nariz. E o único som vinha da rua, uma voz gemente que a neve abafava mais, uma voz pedinte que à esquina defronte garganteava um salmo... Um domingo de Londres.
Foi o magro que me trouxe o almoço – e apenas ele se aproximou, com o serviço do chá, eu senti logo que aquele volume de Tennyson nas minhas mãos o tinha interessado e impressionado; foi um olhar rápido, gulosamente fixado na página aberta, um estremecimento quase imperceptível – emoção fugitiva, decerto, porque depois de ter pousado o serviço, rodou sobre os calcanhares e foi plantar-se, melancòlicamente, à janela, de olho triste e posto na neve triste. Eu atribuí aquele movimento curioso ao esplendor da encadernação do volume, que eram os Idílios de El-Rei, em marroquim negro, com o escudo de armas de Lançarote do Lago – o pelicano de ouro sobre um mar de sinopla.
Nessa noite parti no expresso para a Escócia, e ainda não tinha passado Iorque, adormecida na sua gravidade episcopal, já me esquecera o criado romanesco do restaurante de Charing-Cross. Foi só daí a um mês, ao voltar a Londres, que entrando no restaurante, e revendo aquela figura lenta e fatal atravessar com um prato de rosbife numa das mãos e na outra um pudim de batata, senti renascer o antigo interesse. E nessa noite mesmo tive a singular felicidade de saber o seu nome e de entrever um fragmento do seu passado. Era já tarde e eu voltava do Covent-Garden, quando no peristilo do hotel encontrei, majestoso e próspero, o meu amigo Bracolletti.
Não conhecem Bracolletti? A sua presença é formidável; tem a amplidão pançuda, o negro cerrado da barba, a lentidão, o cerimonial dum paxá gordo. Mas esta ponderosa gravidade turca é temperada, em Bracolletti, pelo sorriso e pelo olhar. Que olhar! Um olhar doce, que me faz lembrar o dos animais da Síria: é o mesmo enternecimento. Parece errar no seu fluido macio a religiosidade meiga das raças que dão os Messias... Mas o sorriso! O sorriso de Bracolletti é a mais completa, a mais perfeita, a mais rica das expressões humanas; há finura, inocência, bonomia, abandono, ironia doce, persuasão, naqueles dois lábios que se descerram e que deixam brilhar um esmalte de dentes de virgem!... Ah! Mas também este sorriso é a fortuna de Bracolletti.
Moralmente, Bracolletti é um hábil. Nasceu em Esmirna de pais gregos; é tudo o que ele revela: de resto, quando se lhe pergunta pelo seu passado, o bom grego rola um momento a cabeça de ombro a ombro, esconde sob as pálpebras cerradas com bonomia o seu olho maometano, desabrocha o sorriso duma doçura de tentar abelhas, e murmura, como afogado em bondade e em enternecimento:
–Eh! mon Dieu! Eh! mon Dieu…
Nada mais. Parece, porém, que viajou – porque conhece o Peru, a Criméia, o Cabo da Boa Esperança, os países exóticos – tão bem como Regent-Street: mas é evidente para todos que a sua existência não foi tecida, como a dos vulgares aventureiros do Levante, de ouro e estopa, de esplendores e pelintrices: é um gordo e, portanto, um prudente: o seu magnífico solitário nunca deixou de lhe brilhar no dedo: nenhum frio jamais o surpreendeu sem uma peliça de dois mil francos: e nunca deixa de ganhar, todas as semanas, no Fraternal Clube, de que é um membro querido, dez libras ao whist. É um forte.
Mas tem uma debilidade. É singularmente guloso de rapariguinhas de doze a catorze anos: gosta delas magrinhas, muito louras, e com o hábito de praguejar. Coleciona-as pelos bairros pobres de Londres, com método. Instala-as em casa, e ali as tem, como passarinhos na gaiola, metendo-lhes a papinha no bico, ouvindo-as palrar todo baboso, animando-as a que lhe roubem os xelins da algibeira, gozando o desenvolvimento dos vícios naquelas flores da lama de Londres, pondo-lhes ao alcance as garrafas de gin para que os anjinhos se embebedem; – e quando alguma, excitada de álcool, de cabelo ao vento e face acesa, o injuria, o arrepela, baba obscenidades – o bom Bracolletti, encruzado no sofá, de mãos beatamente cruzadas na pança, o olhar afogado em êxtase, murmura no seu italiano da costa Síria:
– Piccolina! Gentilletta!
Querido Bracolletti! Foi, realmente, com prazer que o abracei, nessa noite, em Charing-Cross: e como nos não víamos há muito, fomos cear juntos ao restaurante. O criado triste lá estava no seu comptoir, curvado sobre o Journal des Débats. E apenas Bracolletti apareceu, na sua majestade de obeso, o homem estendeu-lhe silenciosamente a mão; foi um shake-hands solene, enternecido e sincero.
Bom Deus, eram amigos! Arrebatei Bracolletti para o fundo da sala, e vibrando de curiosidade, interroguei-o com sofreguidão. Quis primeiro o nome do homem.
– Chama-se Korriscosso – disse-me Bracolletti, grave.
Quis depois a sua história. Mas Bracolletti, como os deuses da Ática que, nos seus embaraços no mundo, se recolhiam à sua nuvem, Bracolletti refugiou-se na sua vaga reticência.
–Eh! mon Dieu!... Eh! mon Dieu!…
– Não, não, Bracolletti. Vejamos. Quero-lhe a história... Aquela face fatal e byroniana deve ter uma história...
Bracolletti então tomou todo o ar cândido que lhe permitem a sua pança e as suas barbas – e confessou-me, deixando cair as frases às gotas, que tinham viajado ambos na Bulgária e no Montenegro... Korriscosso foi seu secretário... Boa letra... Tempos difíceis... Eh! mon Dieu!...
– De onde é ele?
Bracolletti respondeu sem hesitar, baixando a voz, com um gesto repassado de desconsideração:
– É um grego de Atenas.
O meu interesse sumiu-se como a água que a areia absorve. Quando se tem viajado no Oriente e nas escalas do Levante, adquire-se fàcilmente o hábito, talvez injusto, de suspeitar do grego: aos primeiros que se vêem, sobretudo tendo uma educação universitária e clássica, o entusiasmo acende-se um pouco, pensa-se em Alcibíades e em Platão, nas glórias duma raça estética e livre, e perfilam-se na imaginação as linhas augustas do Pártenon. Mas, depois de os ter freqüentado, às mesas redondas e nos tombadilhos das Messageries, e principalmente depois de ter escutado a lenda de velhacaria que eles têm deixado desde Esmirna até Túnis, os outros que se vêem provocam, apenas, estes movimentos: abotoar rapidamente o casaco, cruzar fortemente os braços sobre a cadeia do relógio e aguçar o intelecto para rechaçar a escroquerie. A causa desta reputação funesta é que a gente grega, que emigra para as escalas do Levante, é uma plebe torpe, parte pirata e parte lacaia, bando de rapina astuto e perverso. A verdade é que, apenas soube Korriscosso um grego, lembrei-me logo que o meu belo volume de Tennyson, na minha última estada em Charing-Cross, me desaparecera do quarto, e recordei o olhar de gula e de presa que cravara nele Korriskosso... Era um bandido!
E durante a ceia não falamos mais de Korriscosso. Serviu-nos outro criado, rubro, honesto e são. O lúgubre Korriscosso não se afastou do comptoir, abismado no Journal des Débats.
Nessa noite aconteceu, ao recolher-me ao meu quarto, que me perdi... O hotel estava atulhado, e eu tinha sido alojado naqueles altos de Charing-Cross, numa complicação de corredores, escadas, recantos, ângulos, onde é quase necessário roteiro e bússola.
De castiçal na mão, penetrei num passadiço onde corria um bafo morno de viela mal arejada. As portas aí não tinham números, mas pequenos cartões colados onde estavam inscritos nomes: John, Smith, Charlie, Willie... Enfim, eram evidentemente as habitações dos criados. De uma porta aberta saía a claridade de um bico de gás; adiantei-me, e vi logo Korriscosso, ainda de casaca, sentado a uma mesa alastrada de papéis, de testa pendida sobre a mão, escrevendo.
– Pode-me indicar o caminho para o número 508?
Ele ergueu para mim um olhar estremunhado e enevoado; parecia ressurgir de muito longe, de um outro universo; batia as pálpebras, repetindo:
– 508? 508?...
Foi então que eu avistei, sobre a mesa, entre papéis, colarinhos sujos e um rosário – o meu volume de Tennyson! Ele viu o meu olhar, o bandido! e acusou-se todo numa vermelhidão que lhe inundou a face chupada. O meu primeiro movimento foi não reconhecer o livro: como era um movimento bom, e obedecendo logo à moral superior do mestre Talleyrand, reprimi-o; apontando o volume com um dedo severo, um dedo de Providência irritada, disse-lhe:
– É o meu Tennyson...
Não sei que resposta ele tartamudeou, porque eu, apiedado, retomado também pelo interesse que me dava aquela figura picaresca de grego sentimental, acrescentei num tom repassado de perdão e de justificação:
– Grande poeta, não é verdade? Que lhe pareceu? Tenho a certeza que se entusiasmou...
Korriscosso corou mais: mas não era o despeito humilhado do salteador surpreendido: era, julguei eu, a vergonha de ver a sua inteligência, o seu gosto poético adivinhados – e de ter no corpo a casaca coçada de criado de restaurante. Não respondeu. Mas as páginas do volume, que eu abri, responderam por ele; a brancura das margens largas desaparecia sob uma rede de comentários a lápis: Sublime! Grandioso! Divino! – palavras lançadas numa letra convulsiva, num tremor de mão, agitada por uma sensibilidade vibrante...
No entanto Korriscosso permanecia de pé, respeitoso, culpado, de cabeça baixa, com o laço da gravata branca fugindo para o cachaço. Pobre Korriscosso! Compadeci-me daquela atitude, revelando todo um passado sem sorte, tantas tristezas de dependência... Lembrei-me que nada impressiona o homem do Levante, como um gesto de drama e de palco; estendi-lhe ambas as mãos num movimento à Talma, e disse-lhe:
– Eu também sou poeta!...
Esta frase extraordinária pareceria grotesca e impudente a um homem do Norte; o levantino viu logo nela a expansão de uma alma irmã. Porque, não lhes disse? o que Korriscosso estava escrevendo, numa tira de papel, eram estrofes: era uma ode.
Daí a pouco, com a porta fechada, Korriscosso contava-me a sua história – ou antes fragmentos, anedotas desirmanadas da sua biografia. É tão triste, que a condenso. De resto, havia na sua narração lacunas de anos; – e eu não posso reconstituir com lógica e seqüência a história deste sentimental. Tudo é vago e suspeito. Nasceu com efeito em Atenas; seu pai parece que era carregador no Pireu. Aos 18 anos, Korriscosso servia de criado a um médico, e nos intervalos do serviço frequentava a Universidade de Atenas; estas coisas são frequentes là-bas, como ele dizia. Formou-se em leis: isto habilitou-o, mais tarde, em tempos difíceis, a ser um intérprete de hotel. Desse tempo datam as suas primeiras elegias num semanário lírico, intitulado Ecos da Ática. A literatura levou-o diretamente à política e às ambições parlamentares. Uma paixão, uma crise patética, um marido brutal, ameaças de morte, forçam-no a expatriar-se. Viajou na Bulgária, foi em Salonica empregado numa sucursal do Banco Otomano, remeteu endechas dolorosas a um jornal da província – a Trombeta da Argólida. Aqui há uma dessas lacunas, um buraco negro na sua história. Reaparece em Atenas, com fato novo, liberal e deputado.
Este período de sua glória foi breve, mas suficiente para o pôr em evidência; a sua palavra colorida, poética, recamada de imagens engenhosas e lustrosas, encantou Atenas: tinha o segredo de florir, como ele dizia, os terrenos mais áridos; duma discussão de imposto ou de viação fazia saltar éclogas de Teócrito. Em Atenas este talento leva ao poder: Korriscosso era indicado para gerir uma alta administração do Estado: o ministério, porém, e com ele a maioria de que Korriscosso era o tenor querido, caíram, sumiram-se, sem lógica constitucional, num destes súbitos desabamentos políticos tão comuns na Grécia, em que os governos se aluem, como as casas em Atenas – sem motivo. Falta de base, decrepitude de materiais e de individualidades... Tudo tende para o pó num solo de ruínas...
Nova lacuna, novo mergulho obscuro na história de Korriscosso…
Volta à superfície; membro de um clube republicano de Atenas, pede num jornal a emancipação da Polônia, e a Grécia governada por um concílio de gênios. Publica então os seus Suspiros da Trácia. Tem outro romance de coração... E enfim – e isto disse-mo, sem explicações, – é obrigado a refugiar-se em Inglaterra. Depois de tentar em Londres várias posições, coloca-se no restaurante de Charing-Cross.
– É um porto de abrigo – disse-lhe eu, apertando-lhe a mão.
Ele sorriu com amargura. Era decerto um porto de abrigo, e vantajoso. É bem alimentado; as gorjetas são razoáveis; tem um velho colchão de molas, – mas as delicadezas da sua alma são, a todo o momento, dolorosamente feridas...
Dias atribulados, dias crucificados, os daquele poeta lírico, forçado a distribuir numa sala, a burgueses estabelecidos e glutões, costeletas e copos de cerveja! Não é a dependência que o aflige; a sua alma de grego não é particularmente ávida de liberdade, basta-lhe que o patrão seja cortês. E, como ele me disse, é-lhe grato reconhecer que os fregueses de Charing-Cross nunca lhe pedem a mostarda ou o queijo sem dizer if you please; e quando saem, ao passar por ele, levam dois dedos à aba do chapéu: isto satisfaz a dignidade de Korriscosso.
Mas o que o tortura é o contato constante com o alimento. Se ele fosse um guarda-livros dum banqueiro, primeiro caixeiro dum armazém de sedas... Nisso há uma sobra de poesia – os milhões que se revolvem, as frotas mercantes, a brutal força do ouro, ou então dispor ricamente os estofos, os cortes de seda, fazer correr a luz nas ondulações dos moirés, dar ao veludo as molezas da linha e da prega... Mas num restaurante como se pode exercer o gosto, a originalidade artística, o instinto da cor, do efeito, do drama – a partir nacos de rosbife ou de presunto de Iorque?!... Depois, como ele disse, dar a comer, fornecer alimento, é servir exclusivamente a pança, a tripa, a baixa necessidade material: no restaurante, o ventre é Deus: a alma fica fora, com o chapéu que se pendura no cabide ou com o rolo de jornais que se deixou no bolso do paletó.
E as convivências, e a falta de conversação! Nunca se voltarem para ele senão para lhe pedirem salame ou sardinhas de Nantes! Nunca abrir os seus lábios, de onde pendia o parlamento de Atenas, senão para perguntar: – Mais pão? Mais bife? – Esta privação de eloquência é-lhe dolorosa.
Além disso o serviço impede-lhe o trabalho. Korriscosso compõe de memória; quatro passeios pelo quarto, um repelão ao cabelo, e a ode sai-lhe harmoniosa e doce... Mas a interrupção glutona da voz do freguês, pedindo nutrição, é fatal a esta maneira de trabalhar. Às vezes, encostado a uma janela, de guardanapo no braço, Korriscosso está fazendo uma elegia; são tudo luares, roupagens alvas de virgens pálidas, horizontes celestes, flores de alma dolorida... É feliz; está remontando aos céus poéticos, nas planícies azuladas onde os sonhos acampam, galopando de estrela em estrela... De repente, uma grossa voz faminta berra de um canto:
– Bife e batatas!
Ai! As aladas fantasias batem o vôo como pombas espavoridas! E aí vem o infeliz Korriscosso, precipitado dos cimos ideais, de ombros vergados e as abas da casaca baloiçando, perguntar com o sorriso lívido:
– Passado ou meio cru?
Ah! É um amargo destino!
– Mas – perguntei-lhe eu – por que não deixa este covil, este templo do ventre?
Ele deixou pender a sua bela cabeça de poeta. E disse-me a razão que o prende: disse-me, quase chorando nos meus braços, com o nó da gravata branca no cachaço: Korriscosso ama.
Ama uma Fanny, criada de todo o serviço em Charing-Cross. Ama-a desde o primeiro dia em que entrou no hotel: amou-a no momento em que a viu lavando as escadas de pedra, com os braços roliços nus, e os cabelos louros, os fatais cabelos louros, deste louro que entontece os meridionais, cabelos ricos, de um tom de cobre, dum tom de ouro-mate, torcendo-se numa trança de deusa. E depois a carnação, uma carnação de inglesa de Yorkshire – leite e rosas...
E o que Korriscosso tem sofrido! Toda a sua dor exala-a em odes – que passa a limpo ao domingo, dia de repouso e dia do Senhor! Leu-mas. E eu vi quanto a paixão pode perturbar um ser nervoso: que ferocidade de linguagem, que lances de desespero, que gritos de alma dilacerada arremessados dali, daqueles altos de Charing-Cross, para a mudez do céu frio! É que Korriscosso tem ciúmes. A desgraçada Fanny ignora aquele poeta a seu lado, aquele delicado, aquele sentimental, e ama um policeman. Ama um policeman, um colosso, um alcides, uma montanha de carne eriçada duma floresta de barbas, com o peito como o flanco de um couraçado, com pernas como fortalezas normandas. Este Polifemo, como diz Korriscosso, tem, ordinariamente, serviço no Strand; e a pobre Fanny passa o seu dia a espreitá-lo de um postigo, dos altos do hotel.
Todas as suas economias as gasta em quartilhos de gin, de brandy, de genebra, que à noite lhe leva em copinhos debaixo do avental; mantém-no fiel pelo álcool; o monstro, plantado enormemente a uma esquina, recebe em silêncio o copo, atira-o de um golpe às fauces tenebrosas, arrota cavamente, passa a mão cabeluda pela barba de hércules e segue taciturnamente, sem um obrigado, sem um amo-te, batendo o lajedo com a vastidão das suas solas sonoras. A pobre Fanny admira-o babosa... E talvez nesse momento, à outra esquina, o magro Korriscosso, fazendo no nevoeiro um esguio relevo de poste telegráfico, soluce com a face magra entre as mãos transparentes.
Pobre Korriscosso! Se ele ao menos a pudesse comover... Mas quê! Ela despreza-lhe o corpo de tísico triste; e a alma não lha compreende... Não que Fanny seja inacessível a sentimentos ardentes, expressos em linguagem melodiosa. Mas Korriscosso só pode escrever as suas elegias na sua língua materna... E Fanny não compreende grego... E Korriscosso é só um grande homem – em grego.
Quando desci ao meu quarto, deixei-o soluçando sobre o catre. Tenho-o visto depois, outras vezes, ao passar em Londres. Está mais magro, mais fatal, mais mirrado de zelos, mais curvado quando se move pelo restaurante com a travessa do rosbife, mais exaltado no seu lirismo... Sempre que ele me serve dou-lhe um xelim de gorjeta: e depois, ao retirar, aperto-lhe sinceramente a mão.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Um conto pequenino, mas cheio de significado

Última dose- José Mário Silva

São sete da tarde. Alberto está na sua área, perto da esquina, agitando o braço em semicírculo enquanto espera que algum automobilista se decida a estacionar naquele espaço apertado, entre um jipe e uma carrinha de caixa aberta. O dia não lhe correu de feição. Está ali desde a hora do almoço e ainda só lhe deram moedas de 50 cêntimos ou um euro. O pecúlio que tilinta no bolso do casaco nem dá para um bitoque e uma imperial, quanto mais para a dose de heroína que o seu corpo moído há muito reclama. Alberto tem frio e sabe que esta noite vai ressacar. De vez em quando adormece de pé, os olhos teimam em fechar-se, as mãos não param de tremer. E é então que ela aparece, a velhinha. A velhinha é baixinha, gordinha, coradinha, com um vestido às florzinhas que cheira a naftalina. Parece mesmo a minha avó, pensa Alberto. Arrumado o carro, começa com a cantilena do costume: “Ajude-me, é para uma sopa, tenho fome, estou doente, ajude-me por favor, tenha caridade.” Para seu espanto, a velha puxa logo da carteira e dá-lhe três notas de 50 euros. “Meu filho, toma lá isto ma solha que nunca mais te quero ver nesta vida que levas, ouviste?” Alberto nem quer acreditar: “Sim, sim, minha senhora, nunca mais me verá por aqui nestas tristes figuras, pode ficar descansada.” Dobra as notas e esconde-as dentro das meias, já a pensar na forma mais rápida de ir ter com o seu dealer. A velhinha fecha o carro e segue pela rua fora, como xaile negro pelos ombros. E só então Alberto repara num objeto estranho que ocupa os lugares traseiros do 2CV preto. Uma gadanha.
In Efeito borboleta e outras histórias