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segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Belo conto de Ondjaki

Para já, fica apenas o conto integral, mas brevemente publicarei uma ficha de trabalho sobre o mesmo (há muito para explorar ;-) ).
 
Ondjaki
"O Kazukuta", Ondjaki


Nós estávamos sempre atentos à queda das nêsperas, das pitangas e das goiabas, e era mesmo por gritarmos ou por corrermos que o Kazukuta acordava assim no modo lento de vir nos espreitar, saía da casota dele a ver se alguma fruta ia sobrar para a fome dele.
Normalmente ele comia as nêsperas meio cansadas ou de pele já escura que ninguém apanhava. Mexia-se sempre devagarinho, e bocejava, e era capaz de ir procurar um bocadinho de sol pra lhe acudir as feridas, ou então mesmo buscar regresso na casota dele. Às vezes, mesmo no meio das brincadeiras, meio distraído, e antes de me gritarem com força para eu não estar assim tipo estátua, eu pensava que, se calhar, o Kazukuta naquele olhar dele de ramelas e moscas, às vezes, ele podia estar a pensar. Mesmo se a vida dele era só estar ali na casota meio triste, sair e entrar, tomar banho de mangueira com água fraca, apanhar nêsperas podres e voltar a entrar na casota dele, talvez ele estivesse a pensar nas tristezas da vida dele.
Acho que o Kazukuta era um cão triste porque é assim que me lembro dele. Nós mesmo não lhe ligávamos nenhuma. Ninguém brincava com ele, nem já os mais velhos lhe faziam só uma festinha de vez em quando. Mesmo nós só queríamos que ele saísse do caminho e não nos viesse lamber com a baba dele bem grossa de pingar devagarinho e as feridas quase a nunca sararem. Acho que o Kazukuta nunca apanhou nenhuma vacina, se calhar ele tinha alergia ou medo, não sei, devia perguntar no tio Joaquim. Também o Kazukuta não passeava na rua e cada vez andava só a dormir mais. Sim, o Kazukuta era um cão triste.
Um dia era de tarde, e vi o tio Joaquim dar banho ao Kazukuta. Um banho longo. Fiquei espantado: o tio Joaquim que ficava até tarde a ler na sala, o tio Joaquim que nos puxava as orelhas, o tio Joaquim silencioso, como é que ele podia ficar meia hora a dar banho ao Kazukuta?

Lembro o Kazukuta a adorar aquele banho, deve ser porque era um banho sincero, deve ser porque o tio punha devagarinho frases em kimbundu ao Kazukuta, e ele depois ia adormecer. Kazukuta..., lembro bem os teus olhos doces brilharem tipo um mar de sonho só porque o tio Joaquim - o tio Joaquim silencioso - veio te dar banho de mangueira e te falou palavras tranquilas num kimbundu assim com cheiros da infância dele.
E demorou.
Nós já estávamos quase a parar a nossa brincadeira. Porque afinal a água caía nos pêlos do Kazukuta, e os pêlos ficavam assim coladinhos ao corpo, e virados para baixo como se já fossem muito pesados, e a água foi, não tinha mais, e mesmo sem fechar a torneira o tio Joaquim, com a mangueira ainda a pingar as últimas gotas dela, e no regresso do Kazukuta à casota, depois daquele abano tipo chuvisco de nós rirmos, o Tio Joaquim deu a notícia que tinha demorado aquele tempo todo para dar:
- Meninos, a tia Maria morreu.
Até tive medo, não daquela notícia assim muito séria, mas do que alguém perguntou:
- Mas podemos continuar a brincar só mais um bocadinho?
O tio largou a mangueira, veio nos fazer festinhas.
- Sim, podem.
Parece mesmo vi um sorriso pequenino na boca dele. O tio Joaquim era muito calado e sorria devagarinho como se nunca soubesse nada das horas e das pressas dos outros adultos. Às vezes ele aparecia no quintal sem fazer ruído e espreitava a nossa brincadeira sem corrigir nada. Olhava de longe como se fosse uma criança quieta com inveja de vir brincar connosco também.

O tio Joaquim gostava muito de dar banho ao Kazukuta. Um dia kazukuta estava muito velho e morreu mesmo.
In Os da minha rua

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Conto com ficha de leitura (com soluções)

Os calções verdes do Bruno


Até a camarada professora ficou espantada e interrompeu a aula quando o Bruno entrou na sala. Não era só o que se via na mudança das roupas, mas também o que se podia cheirar com a chegada daquele Bruno tão lavadinho.
No intervalo, em vez de irmos todos brincar a correr, cada um ficou só espantado a passar perto do Bruno, mesmo a fingir que ia lá fazer outra coisa qualquer. A antiga blusa vermelha tinha sido substituída por uma camisa de manga curta esverdeada e flores brancas tipo Havai. Mas o mais espantoso era o Bruno não trazer os calções dele verdes justos com duas barras brancas de lado. A pele cheirava a sabonete azul limpo, as orelhas não tinham cera, as unhas cortadas e limpas, o cabelo lavado e cheio de gel. Até os óculos estavam limpos. Tortos mas limpos.
Lá fora a gritaria continuava. O Bruno, ao contrário dos últimos seis anos de partilha escolar, estava mais sério e mais triste.
Fiquei no fundo da sala. Eu era grande amigo do Bruno e mesmo assim não consegui entender aquela transformação. Olhei o pátio onde as meninas brincavam “trinta e cinco vitórias”. Na porta, uma contra-luz do meio-dia iluminava a cara espantada da Romina. Eu olhava a Romina, o sol na porta e o Bruno também.
O mujimbo já tinha circulado lá fora e eu nem sabia. Havia uma explicação para tanto banho e perfumaria. Parece que o Bruno estava apaixonado pela Ró. A mãe do Bruno tinha contado à mãe do Hélder todos os acontecimentos incríveis da tarde anterior: a procura de um bom perfume, o gel no cabelo, os sapatos limpos e brilhantes, a camisa de botões. A mãe do Bruno disse à mãe do Hélder, “foi ele mesmo que me chamou para eu lhe esfregar as costas”.
Depois do intervalo o Bruno passou-me secretamente a carta. Começava assim:

Romina: nos últimos dias já não consigo lanchar pão com marmelada e manteiga, e mesmo que a minha mãe faça batatas fritas nunca tenho apetite de comer. Ainda por cima de noite só sonho com os caracóis dos teus cabelos tipo cacho de uva…

A carta continuava bonita como eu nunca soube que o Bruno sabia escrever assim. Ele tinha a cara afundada nos braços, parecia adormecido, eu lia a carta sem acreditar que o Bruno tinha escrito aquilo mas os erros de português eram muito dele mesmo. Era uma das cartas de amor mais bonitas que ia ler na minha vida, e eu próprio, anos mais tarde, ia escrever uma carta de amor também muito bonita, mas nunca tão sincera como aquela.
A camarada professora era muito má. Veio a correr e riu-se porque eu tinha lágrimas nos olhos. Pegou na carta e rasgou tudo em pedacinhos tão pequenos como as minhas lágrimas e as do Bruno. A Romina desconfiou de alguma coisa, porque também tinha os olhos molhados.
O sino tocou. Saímos. Era o último tempo.
No dia seguinte, com um riso que era também de tristeza e uma espécie de saudade, o Bruno apareceu com a blusa dele vermelha e os calções verdes justos com duas riscas brancas de lado. Deu a gargalhada dele que incomodava a escola toda e veio brincar connosco.
Na porta da sala, uma contra-luz amarela do meio-dia iluminava a cara bonita da Romina e os olhos dela molhados com lágrimas de ternura. E o Bruno também.
Ondjaki, in Os da Minha Rua
1.    Lê atentamente o conto “Os calções verdes do Bruno” de Ondjaki e seleciona a alínea correta para cada ítem:

1.1.        Além da roupa, Bruno espantou todos por causa
a.    do cheiro.
b.    dos sapatos novos.
c.    da mochila.
 
1.2.        A antiga blusa vermelha do Bruno foi substituída por
a.    uma amarela com o desenho de um tubarão.
b.    uma camisa esverdeada com flores.
c.    uma branca lisa.

1.3.        O motivo de Bruno estar triste era porque
a.    estava doente.
b.    estava cansado.
c.    estava apaixonado.

1.4.        Na carta que escreveu, Bruno dizia que não tinha vontade de
a.    brincar.
b.    estudar.
c.    comer.

1.5.        A professora riu-se porque o narrador
a.    estava com lágrimas nos olhos.
b.    tinha negativa no teste.
c.    estava mais limpo que de costume.

1.6.        Ao ver a carta que Bruno tinha na mão, a professora
a.    guardou-a.
b.    foi mostrá-la ao diretor.
c.    rasgou-a.

1.7.        No dia seguinte, Bruno
a.    apareceu na escola alegre, como de costume.
b.    continuava triste.
c.    não apareceu na escola.

  Correção: a, b, c, c, a,c a

terça-feira, 22 de março de 2011

“Jangada para longe”, Ondjaki

“Jangada para longe”, Ondjaki

Si rotcha é pâgina! Pêra ê sílaba
si corpé é caneta! Coraçon ê tinta

Corsino Fortes, Árvore & tambor

Para ele o mundo era um quintal enorme dotado de compartimentos separados por água, e fenómenos como as chuvas, as tempestades, ou mesmo os ódios dos homens carregados em navios enormes, eram gotículas para qualquer sorriso desfazer.
Por hábito, sentava-se no monte observando navios partir e chegar. Vivia obcecado com a ideia de conhecer outros países, mais do que isso!, outras gentes, como se as suas veias fossem irrigadas por sensações movediças e volúveis ao empurrão do  vento, nisso que era o seu prazer mais íntimo: observar os que chegavam, cheirar-lhes os cabelos, catalogar-lhes o sorriso segundo a proveniência, e, quase impercetivelmente, fazê-los falar de coisas banais acontecidas do outro lado do mundo.
Trabalhava há meses na secreta engenhoca, desenvolvendo no alpendre barulhos entrecortados com pancadinhas, importando para o habitáculo toda uma gama variada de pregos, panos, tubagens diversas, correntes, metais, tintas, até ao dia em que a barulhagem cessou e apenas restou o som de um assobio simples, desnutrido de qualquer ritmia mais complicada ─ como cantam os pássaros antes de terem molhado o bico na frescura da manhã.
Sem cerimónias para empolar o acontecimento, retirou o engenho da casa num lento mas eficaz berço semimecanizado, e o povoado sorriu em uníssono numa candura de espanto e respeito pelo enorme objeto misterioso que desfilava pelas pedras da calçada. O desfile solitário cessou na praça principal.
A estranha criatura de madeira era perturbante e bela, fria e poética, ridícula e cativadora, o que impelia os observadores locais a sorrir de modo involuntário, como se a incompreensão do seu funcionamento em vez do rancor pelo inventor antes instigasse uma sensação de autoria coletiva. Todos, cada um a seu tempo, modo e sorriso, sentiam patentes na obra o cunho da sua contribuição pessoal e nunca se saberá quem foi o primeiro jovem ou a primeira velha a depositar no corpo do ser móbil a primeira recordação, o segundo objeto de decoração, a terceira folha de árvore, a quarta estátua de madeira ou a quinta folha de secção de poesia do único jornal local. Naquilo que se julgou ser o guiador da máquina, a velha mais velha do povoado (sendo por isso a mais bela) amarrou com vigor o único sibitchi que o engenho levava.
Durante dois dias a exibição perdurou, numa ânsia que crescia por si e se alimentava de horas e olhares, tendo originado que a máquina fosse já outra, repleta de decorativos tradicionais, besuntada de cores vivas, vítima de peso duplicado pelas oferendas que as duas bagageiras abarrotavam. Crianças, aleijados e idosos, bebés de colo e cães vadios, nuvens e sóis, centopeias negras e pássaros brancos, marinheiros e putas pobres, comerciantes e doidos serenos, pescadores com estórias de sereias e ventos místicos, farmacêuticos e padres, bêbados e beatas, o governador e a esposa gorda e até um caixeiro-viajante, estiveram todos na praça, no terceiro dia, aguardando as primeiras palavras do inventor da escultura já carnavalesca. A velha mais velha do povoado (sendo por isso a mais sabedora) viu o mundo e o povoado banhados pela névoa da sua lágrima idosa e todos então souberam: era uma máquina de se pedalar para longe. 
Depois das palavras do governador, encorajando a atitude criativa do cidadão, elogiando com emoção a sua iniciativa cultural e declarando aquele dia feriado nacional, o inventor tomou a palavra e, nuns modos verbais desajeitados, instigou a população a contribuir com gravuras, comida seca, plantas medicinais, panos, sementes e livros ou registos pessoais de poesia:
Poesia, sim… ─ disse, em banho de comoção. ─ Porque é isso que um povo deve oferecer a outro!
Mais adiantou o local da sua derradeira partida, explicando que faria esse longo percurso em velocidade lentíssima para que os conterrâneos apreciassem as qualidades da máquina, indagassem de suas potencialidades e lhe fossem entregando nesse percurso inclinado para o lado de lá do mundo, as cartas, os recados e os conselhos válidos para a movimentação humana que aquela viagem materializava.
Ao longo da estrada, entre um e outro solavanco de pedra, exibiu ao povoado o complicado engenho que a sua imaginação fizera eclodir: uma labiríntica máquina de ventos e popas, tubos de refrigeração e reaproveitamento de líquidos e sopros, compartimentos impossíveis, reguladores de temperatura e duas enormes bagageiras para livros já com cantos falsos previstos para a naftalina em bola branca. Era máquina para ocupar meia dúzia de metros quadrados mas com estabilidade estudada e apetrechos científicos que a permitiam mover-se a vento, ácido úrico ou força humana que se expressasse em ato de pedalação.
Quando chegou à praia, nesse lento cortejo que havia acontecido, alguns dos ilustres convivas do povoado já lá o esperavam e, na tendência narcísica de se voltarem a ouvir, quiseram mesmo reinventar novos discursos. O dono da engenhoca dissuadiu-os de o fazer, enquanto se desfazia de alguns volumosos mantimentos gastronómicos que a população ofertara, sendo que a praia, azulada e linda, foi palco de um improvisado banquete de que as crianças puderam usufruir com certa euforia.
O fim da tarde, propício a momentos de marítima aventuragem, havia-se já instalado. Pássaros aos longe, o sol se extinguindo na água salgada, o violão sorridente de Kaká Barbosa, as cervejas derretendo os corações e a mulata triste, ao longe também, que com o olhar se despedia do homem que partia.
Movimento humano, rústico, o homem iniciou as movimentações ─ correntes puxadas e velas içadas, duas espécies de pedais que se desdobravam de tubos secretos, e a máquina de se pedalar revelou uma poética simbiose de jangada com algo que existisse sob a designação de bicicleta naval. As gentes afastaram-se do homem deixando-o de braços suados com a sequencial preparação mecânica que o ato requeria. E moveu-se ─ aquilo.
Uma onda embateu estrondosa na janguicleta, como seria mais tarde chamada, e os lábios de baixo ─ espanto e burburinho, pois a máquina dançava encaixada na curva das ondas, resistindo às laterais investidas da água, desenvolvendo brilhos d’água nas gotas de sol que as enormes pás movimentavam.
A estranha criatura de madeira e o homem nela baloiçavam na direção do horizonte estirado, e só então um padre despertou para a evidência do que não havia sido indagado:
Ô nhôôôô… ─ o berro sobre as gentes, sobre as águas. ─ Undi ki nhu átabai?[1]
Lá das guelras salgadas da sua garganta, entre o sorriso-só e suor-delícia, entre sombra de sol e raio lunar, entre certezismo hirto e utópico deslumbramento, o homem pedalante gritou assim:
N’ta ba tê Spanha…, ta ba tê Merca di bicycleeeetaaaaa![2]


[1] Onde é que vai?
[2] Vou até Espanha… Até à América, de bicicleta! [Versos do poeta cabo-verdiano Corsino Fortes.]