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segunda-feira, 14 de março de 2011

Agualusa, "O homem da luz"

Para o Miguel Petchkovsky e Paula Tavares
Nicolau Alicerces Peshkov tinha uma cabeça enorme, ou talvez o corpo fosse mirrado para ela, o certo é que parecia colocada por engano num físico alheio. O cabelo, o que restava, era daninho e ruivo e o rosto coberto de sardas. O nome improvável, a fisionomia ainda mais extraordinária, tudo isso se devia à passagem pelas terras altas do Huambo de um russo extraviado, um russo branco, que nos seus delírios alcoólicos se vangloriava de ter servido Nicolau II como oficial de cavalaria. Além do nome e das sardas Nicolau Alicerces Peshkov herdara do pai a paixão pelo cinema e uma velha máquina de projectar. Foi precisamente o nome, as sardas, a máquina de projectar, digamos pois, a herança russa, que quase o levou a enfrentar um pelotão de fuzilamento.
Antes disso havia passado dois dias e uma noite escondido dentro de uma caixa de peixe seco. Acordara sobressaltado com o latido dos tiros. Não sabia onde estava. Isso acontecia-lhe sempre. Sentou-se na cama e procurou lembrar-se, enquanto o tiroteio crescia lá fora: chegara ao entardecer, pedalando na sua velha bicicleta, alugara um quarto na pensão de um português, despedira o miúdo James, que tinha família na vila, e fora-se deitar. O quarto era pequeno. Uma cama de ferro com uma tábua por cima e sem colchão. Um lençol, limpo mas muito usado, puído, a cobrir a tábua. Um penico de esmalte. Nas paredes alguém pintara um anjo azul. Era um bom desenho, aquele. O anjo olhava-o de frente, olhava para alguma coisa que não estava ali, com o mesmo alheamento luminoso e sem esperança de Marlene Dietrich.
Nicolau Alicerces Peshkov, a quem os mucubais chamavam o Homem da Luz, abriu a janela do seu quarto para se inteirar das razões da guerra. Espreitou para fora e viu que ao longo de toda a rua se agitava uma turba armada, militares alguns, a maioria jovens civis com fitinhas vermelhas amarradas na cabeça. Um dos jovens apontou-o aos gritos e logo outro fez fogo na sua direcção. Nicolau ainda não sabia que guerra era aquela mas compreendeu que, qualquer que fosse, estava do lado errado – ele era o índio, ali, e não tinha sequer um javite (machadinha) para se defender. Saiu do quarto, em cuecas, entrou pela cozinha, abriu uma porta e encontrou um quintalão estreito, fechado ao fundo por um alto muro de adobe. Conseguiu saltar o muro, trepando por uma mangueira esquálida, que crescia ao lado, e achou-se num outro quintal, este mais ancho, mais desamparado, junto a uma barraca de pau a pique que parecia servir de arrecadação. Pensou em James Dean. O que faria o garoto naquela situação? Certamente saberia o que fazer, James era um especialista em fugas. Viu um tanque de lavar roupa, com água até cima, coberto por uma lona. James Dean entraria para dentro do tanque, e ficaria ali, o tempo que fosse necessário, à espera que lhe nascessem escamas. Ele, porém, não cabia naquela prisão. O corpo até se encaixava mas não a cabeça. Estava neste desespero, podia ouvir a turba a aproximar-se, quando deu com a caixa de peixe. O cheiro era pavoroso, um odor forte a mares putrefactos, mas tinha o espaço exacto para um homem agachado. Assim meteu-se dentro da caixa e aguardou.
Espreitando por uma fresta viu chegar a malta das fitinhas. Arrastavam pelo pescoço, empurravam, faziam avançar a pontapé e à coronhada, cinco pobres tipos cuja única culpa, aparentemente, era falarem umbundo. Deitaram os homens de costas e recomeçaram a bater-lhes, com as armas, com os cintos, com grossos paus, gritando que aquilo era apenas o matabicho. Uma mulher apareceu pouco depois segurando uma pistola, afastou os agressores com um simples olhar, encostou a arma à nuca de um dos desgraçados e disparou. A seguir fez o mesmo com os outros quatro. Trouxeram a seguir dois rapazes e quatro senhoras, uma delas com um filho pequeno às costas, todos chorando e lamentando-se muito. Ao verem os cadáveres a gritaria aumentou. Um dos soldados destravou a arma: “Quem chorar os mortos morre também”.
Os outros começaram a espancar o grupo, não poupando sequer a criança, ao mesmo tempo que um sujeito com uma câmara de filmar dançava em redor.
Nicolau Alicerces Peshkov afastou o rosto da fresta e fechou os olhos. Não lhe valeu de nada: mesmo com os olhos fechados viu dois dos jovens com fitinhas violarem uma das senhoras; viu-os matarem a criança, à coronhada, e o resto do grupo a tiro e pontapés.
Saiu da caixa ao entardecer do dia seguinte. Estava tão exausto, era tal o tumulto no seu peito franzino, que não se apercebeu do militar, ali mesmo, sentado junto à caixa, vigiando os cadáveres. O homem olhou-o surpreso, alegre como um garoto que tivesse acabado de achar um brinde dentro de um bolo-rei, e conduziu-o pela mão ao quartel da polícia. À entrada um homem muito alto, magro, de barba cerrada, parecia esperar por eles. Levaram-no até uma sala sem janelas, fizeram-no sentar-se numa cadeira. O homem alto perguntou-lhe o nome.
“Peshkov? Nicolau Peshkov?! O camarada é russo? Calha bem. Eu estudei em Moscovo, na Lubianka, falo russo melhor do que português”.
E desatou numa algaraviada hermética que pareceu divertir toda a gente. Nicolau Peshkov riu-se também, vendo os outros rir, mas apenas por uma questão de cortesia, porque o que realmente lhe fazia falta era chorar.
O homem alto ficou bruscamente sério. Apontou para uma maleta de couro sobre a sua secretária:
“Conhece isto?”.
Nicolau Peshkov reconheceu a mala onde guardava o projector e os filmes. Explicou quem era. Há quarenta anos que percorria o país com aquela máquina. Orgulhava-se de ter levado a sétima arte aos desvãos mais longínquos de Angola – lugares esquecidos pelo resto do mundo. Na época colonial viajava de comboio. Benguela, Ganda, Chianga, Lépi, Catchiungo, Chinguar, Cutato, Catabola, Camacupa, Munhango, Luena. Onde o comboio parava ele saía. Estendia a tela, colocava o projector sobre o tripé, armava meia dúzia de cadeiras de lona para os notáveis da vila. O povo, esse, vinha de muito longe, dos sertões em redor, de lugares com nomes secretos, inclusive de lugares sem nome algum. Ofereciam-lhe cabras, galinhas, ovos, carne de caça. Sentavam-se do outro lado da tela, contra a luz do projector, e viam o filme pelo avesso.
A guerra após a independência destruiu o caminho de ferro e ele ficou amarrado às cercanias das grandes cidades. Perdeu em pouco tempo tudo quanto havia conseguido nos vinte anos anteriores. Fixou-se no Sul. Viajava de bicicleta, com o seu ajudante, o jovem James Dean, entre o Lubango e a Humpata, entre a Huíla e a Chibia. Por vezes arriscava descer a Mossamedes. Talvez Porto Alexandre. Baía dos Tigres. Não saía dali. Levava um lençol branco, prendia-o à parede de uma cubata, qualquer parede servia, preparava o projector e passava o filme. James Dean pedalava a sessão inteira para produzir a electricidade. Numa noite serena, sem lua, não havia melhor sala de cinema.
O homem alto ouviu-o com interesse. Tomou notas.
“Pode provar que é efectivamente o cidadão que pretende ser?”.
Provar? Nicolau Peshkov tirou do bolso da camisa um papel amarelado e desdobrou-o cuidadosamente. Era um recorte do Jornal de Angola. Uma entrevista publicada cinco anos antes: O Último Herói do Cinema. Na fotografia, a preto e branco, Nicolau Alicerces Peshkov posava ao lado da sua bicicleta, as mãos no guiador, a enorme cabeça ligeiramente fora de foco.
O homem alto agarrou no recorte, voltou-o, e começou a ler um artigo qualquer sobre a importação de farinha de bombó. “Não é esse, chefe, não é esse”, gemeu Nicolau Peshkov, “leia por favor a reportagem que está do outro lado. Veja a fotografia. Sou eu”. O homem alto olhou-o com desdém:
“Camarada Peshkov, você, um sujeito que ignora a língua paterna, é você que me diz o que devo ou não devo ler?!”.
Leu o artigo até ao fim. Até ao fim, não, porque o artigo estava cortado a meio.
“Onde está o resto desse artigo?”.
Nicolau Alicerces Peshkov falou devagar:
“Chefe, não é esse o artigo. O artigo que interessa, através do qual posso provar que sou de facto a minha própria pessoa, esse artigo está do outro lado”.
O homem alto perdeu a paciência:
“Porra! Pensas que aqui somos todos burros?! Estou a perguntar onde está o resto deste artigo. Se você não responder eu lhe mando fuzilar por ocultar informação. Vou contar até dez”.
Talvez ele não saiba contar até dez – pensou Nicolau Peshkov. Infelizmente sabia. Contou até dez, pausadamente, e depois girou a cadeira e ficou um longo momento a olhar a parede. Voltou-se, abriu a maleta que estava sobre a secretária e retirou o projector.
“Mostra-nos lá o filme, fantoche. Quero saber o que andaste a filmar. Objectivos militares, está-se mesmo a ver”.
Nicolau Peshkov pediu um lençol limpo, um martelo e pregos. Esticou o lençol e pregou-o à parede. Montou o projector sobre uma cadeira. Não disse nada. Tinha aprendido muito nas últimas horas. O filme era, de alguma forma, obra sua. O trabalho de uma vida. Montara-o, quase fotograma a fotograma, recorrendo ao que sobrara dos filmes do pai. Pediu que apagassem a luz. Um dos soldados subiu para um banco e desenroscou com cuidado a lâmpada do tecto.
Peshkov ligou a máquina à corrente e uma luz puríssima caiu sobre o lençol. Na primeira cena via-se uma família a ser atacada por pássaros dentro da sua própria casa. O episódio impressionou muito os assistentes (impressionava sempre). O homem alto falou por todos: “Já viram?! Passarinhos tipo mabecos”. A seguir apareceu um velho empoleirado sobre um telhado a tocar violino. “É para enxotar os pássaros”, concluiu um dos guardas, “esse cota é feiticeiro”. Viu-se ainda um caubói a beijar namorada em frente a uma cascata. Finalmente um homem de olhos tristes, chapéu na cabeça, despediu-se de um casal num aeroporto. Quando o casal embarcou apareceu um outro sujeito com uma pistola, mas o tipo do chapéu foi mais rápido e deu-lhe um tiro. O casal devia estar ainda a fugir dos pássaros. The End.
A luz do projector tremeu, apagou-se, e fez-se um grande silêncio. Finalmente o homem alto levantou-se, subiu para o banco, e voltou a enroscar a lâmpada da sala. Suspirou.
“Você pode ir Peshkov. Desapareça. O filme fica”.
Nicolau Alicerces Peshkov saiu para a rua. Uma lua imensa brilhava sobre o mar. Puxou um pente do bolso traseiro das calças e alisou com ele os seus últimos cabelos ruivos. Endireitou as costas e foi à procura de James Dean. O miúdo saberia o que fazer.

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