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sábado, 26 de março de 2011

“A semente”


            Um belíssimo conto sobre os valores humanos cada vez mais esquecidos:


"A semente"

            A jovem pobre ficou profundamente excitada quando ouviu anunciar que quem quisesse casar com o rei devia dirigir-se ao palácio, pois certo dia tinha-o visto passar a cavalo e ficara apaixonada por ele. Assim, foi a correr ter com a mãe:
            ─ Vou ao palácio ─ disse ─, vou casar com o rei!
            A mãe sorriu e abanou a cabeça:
            ─ Sempre a sonhar! O rei não se refere a raparigas pobres como tu. Aquilo é para as ricas, para as nobres. Se lá fores, eles riem-se de ti e correm contigo.
            ─ Não me importa ─ disse a rapariga ─, vou até lá. Quero casar com ele.
            No dia seguinte foi ao palácio e, tal como a mãe previra, apenas as mulheres mais ricas e mais belas do reino lá estavam. A jovem pobre foi para o lugar que lhe indicaram, no fim da fila, enquanto as outras mulheres troçavam dela entre si e a ignoravam. Pouco depois, o rei apareceu e todas as mulheres afivelaram os seus sorrisos mais coquetes, excepto a jovem pobre, que ficou em pé no fim da fila, com a cabeça curvada, sem se atrever sequer a olhá-lo de frente. O rei percorreu a fila e deu a cada uma um vaso com uma semente. Depois voltou a subir ao estrado e disse:
            ─ Vão para casa. Plantem a semente que está dentro do vaso. Voltem daqui a três meses e casarei com aquela que tiver plantado a flor mais bela.
            A jovem pobre levou o vaso e a semente para casa, com o coração a palpitar. Quando lá chegou, plantou cuidadosamente a semente e regou-a. Todos os dias em que fazia sol ela punha o vaso lá fora e regava-o; levava-o para dentro de noite, quando estava frio. Falava com ele, cantava para ele, mas não nascia nada. Ainda assim não se dava por vencida. Embora os dias se transformassem em semanas e as semanas em meses, continuava a cuidar da semente com esmero, mas, apesar de todos os seus esforços, o vaso com terra não passava de um vaso com terra. Quando os três meses se esgotaram, nem uma folhinha pequena tinha rompido a terra.
            ─ Amanhã é o dia de ir ao palácio ─ disse ela, triste.
            ─ Ir ao palácio? ─ esganiçou a mãe. ─ Tu não podes ir ao palácio. Olha para o teu vaso, está vazio! Eles vão correr contigo, vão-te bater!
            ─ Bem ─ disse ela ─, podem-me fazer o que quiserem, mas pelo menos poderei ver o rei uma vez mais.
            No dia seguinte ela pegou no vaso e dirigiu-se ao palácio. Quando lá chegou, o seu coração esmoreceu, pois estavam lá todas as outras mulheres, e cada uma tinha uma flor mais bonita do que a outra. Cores incríveis, formas fantásticas, aromas maravilhosos. Não faltaram risadas quando viram a jovem pobre com o vaso vazio, mas ela nada disse e foi para o seu lugar no fim da fila.
            O rei não tardou a aparecer. Percorreu a fila de belas mulheres com as suas flores maravilhosas sem sequer olhar para elas. Foi até ao fim da fila, onde estava a jovem pobre com o vaso vazio e pegou-lhe na mão. Conduziu-a até ao estrado e disse:
            ─ É esta a mulher com quem casarei.
            As outras ficaram furiosas.
            ─ Como podeis casar-vos com ela? Ela não trouxe nada! Vede a minha flor, é linda! Olhai para mim, vede o que trago! Ela não trouxe nada! Ela não trouxe nada!
            O rei ergueu a mão pedindo silêncio.
            ─ Esta jovem cultivou a mais bela de todas as flores. E essa flor chama-se honestidade, pois as sementes que vos dei eram todas estéreis.
           
Tim Bowley e Óscar Villán, Contos do mundo

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