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segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Um conto pequenino, mas cheio de significado

Última dose- José Mário Silva

São sete da tarde. Alberto está na sua área, perto da esquina, agitando o braço em semicírculo enquanto espera que algum automobilista se decida a estacionar naquele espaço apertado, entre um jipe e uma carrinha de caixa aberta. O dia não lhe correu de feição. Está ali desde a hora do almoço e ainda só lhe deram moedas de 50 cêntimos ou um euro. O pecúlio que tilinta no bolso do casaco nem dá para um bitoque e uma imperial, quanto mais para a dose de heroína que o seu corpo moído há muito reclama. Alberto tem frio e sabe que esta noite vai ressacar. De vez em quando adormece de pé, os olhos teimam em fechar-se, as mãos não param de tremer. E é então que ela aparece, a velhinha. A velhinha é baixinha, gordinha, coradinha, com um vestido às florzinhas que cheira a naftalina. Parece mesmo a minha avó, pensa Alberto. Arrumado o carro, começa com a cantilena do costume: “Ajude-me, é para uma sopa, tenho fome, estou doente, ajude-me por favor, tenha caridade.” Para seu espanto, a velha puxa logo da carteira e dá-lhe três notas de 50 euros. “Meu filho, toma lá isto ma solha que nunca mais te quero ver nesta vida que levas, ouviste?” Alberto nem quer acreditar: “Sim, sim, minha senhora, nunca mais me verá por aqui nestas tristes figuras, pode ficar descansada.” Dobra as notas e esconde-as dentro das meias, já a pensar na forma mais rápida de ir ter com o seu dealer. A velhinha fecha o carro e segue pela rua fora, como xaile negro pelos ombros. E só então Alberto repara num objeto estranho que ocupa os lugares traseiros do 2CV preto. Uma gadanha.
In Efeito borboleta e outras histórias

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