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sexta-feira, 22 de abril de 2011

"A queda de Santa-Maria" de Agualusa

Mais um maravilhoso conto de Agualusa, seguido de uma ficha de trabalho:

[…] nas cercanias de Pungo Andongo, por exemplo, existe um buraco de onde brota constantemente uma pestilência que os indígenas na região acreditam possuir propriedades curativas. Dizem ainda que, em certas épocas do ano, se escutam vozes vindas do interior do buraco […]
in “O Echo de Angola” de 20 de Janeiro 1882

Foi por uma noite de nuvens baixas: por uma dessas noites tão desprovidas de luz que a brisa parece feita de musgo e o próprio ar de limos e de lodo. Roberto Santa-Maria, escriturário natural de Ambaca, vinha de visitar a noiva nos penedos de Pungo Andongo, quando de repente sentiu o chão dissolver-se debaixo de si e caiu, caiu, caiu, ininterruptamente e longamente, numa queda que parecia não ter fim. Acordou embrulhado em espessas teias de aranha e logo ali percebeu que lhes devia a vida visto que fora caindo por entre elas como quem desliza entre cortinas de seda e chegara assim ao chão mais leve que um breve pássaro. Durante as primeiras horas acreditou haver caído no inferno, não só devido à profundidade do lugar, mas sobretudo por causa do insuportável cheiro a carne podre. Preso de um infinito horror tacteou em volta mas não encontrou nada a não ser húmidas paredes de terra e formas móveis de pequenos insetos. Compreendeu depois que caíra sobre um ninho de formigas-cadáver e teve então a certeza de que já estava morto pois mesmo que alguma vez saísse dali nunca mais aquele cheiro se lhe desentranharia do corpo.
Sete semanas mais tarde, Afonso-o-Caçador passou pelo local acompanhado por uma vintena de serviçais e igual número de cães e deu com o improvável buraco no chão. Curioso, ajoelhou-se sobre ele e gritou para dentro, tentando avaliar pelo eco a profundidade do poço. O grito rolou pelas paredes e despenhou-se, desmedido e múltiplo, dentro da cabeça de Roberto Santa-Maria, como uma trovoada no interior de uma catedral. O ambaquista demorou a levantar-se e a gritar também, fraco como estava de andar há cinquenta e um dias a sorver apenas a humidade das pedras e a comer aranhas e formigas-cadáver. Afonso estranhou o eco, em particular porque lhe chegaram dois, e o segundo era triste e descorado como uma lombriga da terra. Gritou de novo e dessa vez o grito-lombriga chegou antes do seu.
Sucuama! — Espantou-se o caçador —, está um homem lá dentro…
E logo mandou que lhe fossem procurar uma corda para libertar o infeliz. Veio a corda e com ela muito gentio das redondezas, alarmado pela notícia de que Afonso pretendia extrair um homem de dentro de um buraco.
Lançada a corda para dentro do poço, Santa-Maria agarrou-se a ela e os serviçais começaram a puxar, trabalho facilitado pelo pouco peso do desditoso escriturário. Já tinham puxado muitos metros de corda e ainda faltavam puxar outros tantos quando principiou a ascender do buraco um bafo pútrido a pauis antigos e em breve o ar estava tão insalubre que parecia que tinham morto ali mil dinossauros.
Roberto Santa-Maria assomou à luz e ninguém o reconheceu, pois trazia a pele inteiramente recoberta por um veludo verde e os cogumelos brotavam-lhe dos cabelos como se fossem pequenas serpentes em posição de ataque. Houve primeiro um estático segundo de assombro e depois a multidão virou-se para trás e começou a fugir, os mais novos atropelando os mais velhos e estes uns aos outros num irreprimível furor de manada enlouquecida.
Menor não foi o susto de Roberto Santa-Maria ao ver toda a gente a fugir de si. Depois, mais calmo, sacudiu os cogumelos dos cabelos mas foi incapaz de se limpar dos fungos que lhe cobriam a pele. Desalentado pôs-se a caminhar em direção ao norte, murmurando pragas contra a sua sorte maldita. Diante dele caminhava o cheiro: um fedor inconcebível a cidades destroçadas, silencioso e triste como um amor sem esperança. De maneira que antes mesmo do escrivão atingir as cercanias de Ambaca, já uma brisa carregada de presságios e de melancolia afugentara o povo, os bois, as aves e até os bichos silvestres. Roberto Santa-Maria encontrou à sua frente só sanzalas sem vida e foi-as atravessando uma por uma, dentro de um silêncio tão intenso que o respirar das árvores se tornara audível. Ao declinar a tarde encontrou um velho a quem o excesso dos anos enovelara a tal ponto o quebrantado corpo que nele se não distinguia extremidade alguma, quase se confundindo com turva pedra ou chamuscado pedaço de madeira. O velho viu-o aproximar-se com os olhos abertos de estupor e assim se manteve até que Roberto lhe tocou com a ponta dos dedos. Então desdobrou-se como um bicho-de-conta e largou a correr, numa gritaria capaz de despertar os anjos no regaço do Senhor.
Foi este o primeiro milagre de Santa-Maria.
Mais depressa do que o vento se espalhou a novidade da cura e logo no dia seguinte um grupo de aflitos seguiu o caminho inverso do desgraçado cheiro que para sempre se colara ao escrivão e encontrou-o desesperado e pensativo junto ao buraco de onde, acreditava agora, nunca deveria ter saído. Vendo-os chegar julgou Roberto que os traziam propósitos assassinos e de um pulo lançou-se dentro do poço.
A partir desse dia o lugar passou a receber a visita de grande número de peregrinos, trazidos de longe pelo rumor dos milagres que ali se produziam. Vinham escutar a voz do buraco e respirar o ar apodrecido que dele se desprendia e que segundo a crença popular tinha a virtude de curar as mais insólitas malformações do corpo humano.
José Eduardo Agualusa, in A Feira dos assombrados e outras estórias verdadeiras e inverosímeis
Compreensão do texto
 
1.     Roberto Santa-Maria, escriturário de Ambaca, numa noite de infortúnio caiu num buraco profundo. Que processos utilizou o narrador para realçar a profundidade desse buraco?
2.      Apesar da profundidade do buraco, a queda foi suave. Justifica com expressões textuais.
3.     Como reagiu Roberto Santa-Maria ao seu infortúnio?
4.     Que animais encontrou no fundo do buraco? Porque é que o seu nome é sugestivo perante a situação em que se encontra Santa-Maria?
5.     Sete semanas mais tarde, Roberto foi resgatado. Vai à internet ou a um dicionário de símbolos, investiga o valor simbólico do número sete e tenta perceber por que motivo foi utilizado neste conto.
6.     Qual era o estatuto social de Afonso-o-Caçador? Justifica a tua resposta com referências textuais.
7.     Para realçar o cheiro pestilento que saía do buraco durante o salvamento, o narrador recorre a uma hipérbole. Identifica-a e refere o seu valor expressivo.
8.     A referência a cogumelos semelhantes a pequenas serpentes em posição de ataque”, que se destacavam dos cabelos de Roberto Santa-Maria, pode ser associada a uma figura mitológica com macabros poderes – a Medusa. Investiga essa figura e tece uma conclusão sobre essa influência no efeito que o escriturário causou na população.
9.     Como se deu o primeiro milagre de Roberto? Que efeitos provocou nas pessoas e na região?
10.                        Por que motivos este texto é considerado um conto? Não te esqueças de fazer referência à moral (ou morais) adjacente(s).  

Conhecimento explícito da língua

1.      Atenta no enunciado - “Roberto Santa-Maria, escriturário natural de Ambaca, vinha de visitar a noiva nos penedos de Pungo Andongo”. O complexo verbal possui que valor?

2.     Faz a classificação das cinco orações sublinhadas na frase que se segue:
Roberto Santa-Maria, escriturário natural de Ambaca, vinha de visitar a noiva nos penedos de Pungo Andongo, quando de repente sentiu o chão dissolver-se debaixo de si e caiu, caiu, caiu, ininterruptamente e longamente, numa queda que parecia não ter fim.”
            Nesta mesma frase, qual é a função sintática de “escriturário natural de Ambaca”, segundo o Dicionário Terminológico (DT)?
            Ainda segundo o DT, a que subclasse pertencem os advérbios “ininterruptamente” e “longamente”?

3.     Ao atravessar a região, Roberto deparou-se com um silêncio tão profundo que, segundo o autor, permitia que até o respirar das árvores se ouvisse. Estamos perante que figura de estilo?

4.     No enunciado “silêncio tão intenso que o respirar das árvores se tornara audível”, a que classe de palavras pertence “respirar”? Utiliza essa palavra num outro contexto e pertencendo a outra classe.

            4.1.Quando uma palavra, dependendo do contexto, pode pertencer a classes diferentes, estamos perante que processo de formação de palavras?
            4.2.Dá um outro exemplo, provando a tua opção com duas frases em que a mesma palavra pertença a classes ou subclasses distintas.
            4.3.Identifica os processos de formação das seguintes palavras, retiradas do texto:
a)    bicho-de-conta
b)    ininterruptamente
c)    longamente
d)   insuportável

5.     Preenche o quadro que se segue com palavras da mesma família de acordo com as classes indicadas:


nomes
adjetivos
advérbios
rapidez



belo



frequentemente

capaz

lamento




6.     Identifica o adjetivo da frase “Menor não foi o susto de Roberto Santa-Maria ao ver toda a gente a fugir de si.” e indica em que grau se encontra.

7.     Faz a análise sintática da frase “Foi este o primeiro milagre de Santa-Maria.”

8.    Identifica o sujeito da forma verbal do enunciado “Mais depressa do que o vento se espalhou a novidade da cura (…)”.

A professora: Lucinda Cunha

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