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segunda-feira, 11 de abril de 2011

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Homero"

Ao conto segue-se uma ficha de trabalho sobre classes de palavras, recursos estilísticos e divisão e classificação de orações (com a correção no final):
Homero

Quando eu era pequena, passava às vezes pela praia um velho louco e vagabundo a quem chamavam o Búzio.
O Búzio era como um monumento manuelino: tudo nele lembrava coisas marítimas. A sua barba branca e ondulada era igual a uma onda de espuma. As grossas veias azuis das suas pernas eram iguais a cabos de navio. O seu corpo parecia um mastro e o seu andar era baloiçado como o andar dum marinheiro ou dum barco. Os seus olhos, como o próprio mar, ora eram azuis, ora cinzentos, ora verdes, e às vezes mesmo os vi roxos. E trazia sempre na mão direita duas conchas. Eram daquelas conchas brancas e grossas com círculos acastanhados, semi-redondas e semitriangulares, que têm no vértice da parte triangular um buraco.
O Búzio passava um fio através dos buracos, atando assim as duas conchas uma à outra, de maneira a formar com elas umas castanholas. E era com essas castanholas que ele marcava o ritmo dos seus longos discursos cadenciados, solitários e misteriosos como poemas.
O Búzio aparecia ao longe. Via-se crescer dos confins dos areais e das estradas. Primeiro julgava-se que fosse uma árvore ou um penedo distante. Mas quando se aproximava via-se que era o Búzio. Na mão esquerda trazia um grande pau que lhe servia de bordão e era seu apoio nas longas caminhadas e sua defesa contra os cães raivosos das quintas. A este pau estava atado um saco de pano, dentro do qual ele guardava os bocados do pão que lhe davam e os tostões. O saco era de chita remendada e tão desbotada que quase se tornara branca.
O Búzio chegava de dia, rodeado de luz e de vento, e dois passos à sua frente vinha o seu cão, que era velho, esbranquiçado e sujo, com o pêlo grosso, encaracolado e comprido e o focinho preto. E pelas ruas fora vinha o Búzio com o sol na cara e as sombras trémulas das folhas dos plátanos nas mãos. Parava em frente duma porta e entoava a sua longa melopeia ritmada pelo tocar das suas castanholas de conchas. Abria-se a porta e aparecia uma criada de avental branco que lhe estendia um pedaço de pão e dizia:
- Vai-te embora, Búzio.
E o Búzio, demoradamente, desprendia o saco do seu bordão, desatava os cordões, abria o saco e guardava o pão. Depois de novo seguia. Parava debaixo de uma varanda cantando, alto e direito, enquanto o cão farejava o passeio. E na varanda debruçava-se alguém rapidamente, tão rapidamente que o seu rosto nem se mostrava, e atirava-lhe um tostão e dizia:
- Vai-te embora, Búzio.
E o Búzio demoradamente - tão demoradamente que cada um dos seus gestos de via - desprendia o saco do pau, desatava os cordões, abria o saco, guardava o tostão, e de novo fechava o saco e o atava e o prendia. E seguia com o seu cão.
Havia na terra muitos pobres que apareciam aos sábados em bandos acastanhados e trágicos, e que pediam esmola pelas portas e faziam pena. Eram cegos, coxos, surdos e loucos, eram tuberculosos cuspindo sangue nos trapos, eram mães escanzeladas de filhos quase verdes, eram velhas curvadas e chorosas com as pernas incrivelmente inchadas, eram rapazes novos mostrando chagas, braços torcidos, mãos cortadas, lágrimas e desgraça. E sobre o bando pairava um murmúrio incansável de gemidos, queixas, rezas e lamentações. Mas o Búzio aparecia sozinho, não se sabia em que dia da semana, era alto e direito, lembrava o mar e os pinheiros, não tinha nenhuma ferida e não fazia pena. Ter pena dele seria como ter pena de um plátano ou de um rio, ou do vento. Nele parecia abolida a barreira que separa o homem da natureza.
O Búzio não possuía nada, como uma árvore não possui nada. Vivia com a terra toda que era ele próprio. A terra era sua mãe e sua mulher, sua casa e sua companhia, sua cama, seu alimento, seu destino e sua vida. Os seus pés descalços pareciam escutar o chão que pisavam.
E foi assim que o vi aparecer naquela tarde em que eu brincava sozinha no jardim. A nossa casa ficava à beira da praia. A parte da frente, virada para o mar, tinha um jardim de areia. Na parte de trás, voltada para leste, havia um pequeno jardim agreste e mal tratado, com o chão coberto de pequenas pedras soltas, que rolavam sob os passos, um poço, duas árvores e alguns arbustos desgrenhados pelo vento e queimados pelo sol.
O Búzio, que chegou pelo lado de trás, abriu a cancela de madeira, que ficou a baloiçar, e atravessou o jardim, passando sem me ver. Parou em frente da porta de serviço e ao som das suas castanholas de conchas pôs-se a cantar. Assim esperou algum tempo. Depois a porta abriu-se e no seu ângulo escuro apareceu um avental.
Visto de fora, o interior da casa parecia misterioso, sombrio e brilhante. E a criada estendeu um pão e disse:
- Vai-te embora, Búzio.
Depois fechou a porta. E o Búzio, sem pressa, demoradamente como que desenhando na luz cada um dos seus gestos, puxou os cordões, abriu o saco, tornou a atar o saco, prendeu-o no pau e seguiu com o seu cão. Depois deu a volta à casa, para sair pela frente, pelo lado do mar.
Então eu resolvi ir atrás dele. Ele atravessou o jardim de areia coberto de chorão e lírios do mar e caminhou pelas dunas. Quando chegou ao lugar onde principia a curva da baía, parou. Ali era já um lugar selvagem e deserto, longe de casas e estradas.
Eu, que o tinha seguido de longe, aproximei-me escondida nas ondulações da duna e ajoelhei-me atrás de um pequeno monte entre as ervas altas, transparentes e secas. Não queria que o Búzio me visse, porque o queria ver sem mim, sozinho.
Era um pouco antes do pôr do sol e de vez em quando passava uma pequena brisa. Do alto da duna via-se a tarde toda como uma enorme flor transparente, aberta e estendida até aos confins do horizonte. A luz recortava uma por uma todas as covas da areia. O cheiro nu da maresia, perfume limpo do mar sem putrefacção e sem cadáveres, penetrava tudo. E a todo o comprimento da praia, de norte a sul, a perder de vista, a maré vazia mostrava os seus rochedos escuros cobertos de búzios e algas verdes que recortavam as águas. E atrás deles quebravam incessantemente, brancas e enroladas e desenroladas, três fileiras de ondas que, constantemente desfeitas, constantemente se reerguiam.
No alto da duna o Búzio estava com a tarde. O sol pousava nas suas mãos, o sol pousava na sua cara e nos seus ombros. Ficou algum tempo calado, depois devagar começou a falar. Eu entendi que falava com o mar, pois o olhava de frente e estendia para ele as suas mãos abertas, com as palmas em concha viradas para cima. Era um longo discurso claro, irracional e nebuloso que parecia, com a luz, recortar e desenhar todas as coisas. Não posso repetir as suas palavras: não as decorei e isto passou-se há muitos anos. E também não entendi inteiramente o que ele dizia. E algumas palavras mesmo não as ouvi, porque o vento rápido lhas arrancava da boca. Mas lembro-me de que eram palavras moduladas como um canto, palavras quase visíveis que ocupavam os espaços do ar com a sua forma, a sua densidade e o seu peso. Palavras que chamavam pelas coisas, que eram o nome das coisas. Palavras brilhantes como as escamas de um peixe, palavras grandes e desertas como praias. E as suas palavras reuniam os restos dispersos da alegria da terra. Ele os invocava, os mostrava, os nomeava: vento, frescura das águas, oiro do sol, silêncio e brilho das estrelas.
Sophia de Mello Breyner Andresen, "Homero", in Contos Exemplares

Ficha de trabalho sobre classes de palavras, recursos estilísticos e divisão e classificação de orações:

1.    Identifica as classes de palavras na frase que a seguir se apresenta e distribui-as pela tabela:
“Os seus olhos, como o próprio mar, ora eram azuis, ora cinzentos, ora verdes, e às vezes mesmo os vi roxos.”

nomes
verbos
conjunções
adjetivos
determinantes









2.    No fragmento “E o Búzio, demoradamente, desprendia o saco do seu bordão” identifica e classifica a forma verbal quanto ao seu tempo e modo.

3.    Nos excertos/ frases que se seguem, assinala aquelas em que “a” é uma preposição e não um determinante ou um pronome:
a)    Depois fechou a porta.”
b)   “um velho louco e vagabundo a quem chamavam o Búzio”
c)    “atando assim as duas conchas uma à outra”
d)   “Parava em frente duma porta e entoava a sua longa melopeia”
e)    A parte da frente, virada para o mar, tinha um jardim de areia.”
f)    “abriu a cancela de madeira”
g)    que ficou a baloiçar, e atravessou o jardim”
4.    Na frase seguinte, sublinha as preposições e decompõe as que estão contraídas, identificando devidamente os elementos que as compõem: “Havia na terra muitos pobres que apareciam aos sábados em bandos acastanhados e trágicos, e que pediam esmola pelas portas e faziam pena.”
5.    Das quatro citações que a seguir se enumeram, identifica a única onde figuram um verbo no pretérito imperfeito do indicativo, um determinante artigo definido, um advérbio de negação e um pronome indefinido:  
5.1.              “Parava em frente duma porta e entoava a sua longa melopeia”
5.2.               “um velho louco e vagabundo a quem chamavam o Búzio”
5.3.               O Búzio chegava de dia, rodeado de luz e de vento, e dois passos à sua frente vinha o seu cão”
5.4.              “O Búzio não possuía nada, como uma árvore não possui nada.”

6.    Identifica as comparações presentes no excerto:
“O Búzio era como um monumento manuelino: tudo nele lembrava coisas marítimas. A sua barba branca e ondulada era igual a uma onda de espuma. As grossas veias azuis das suas pernas eram iguais a cabos de navio. O seu corpo parecia um mastro e o seu andar era baloiçado como o andar dum marinheiro ou dum barco. Os seus olhos, como o próprio mar, ora eram azuis, ora cinzentos, ora verdes, e às vezes mesmo os vi roxos.”
7.    Na frase que se segue identifica um hipérbato e duas triplas adjetivações: “O Búzio chegava de dia, rodeado de luz e de vento, e dois passos à sua frente vinha o seu cão, que era velho, esbranquiçado e sujo, com o pêlo grosso, encaracolado e comprido e o focinho preto.”.
8.    Na frase “Eram cegos, coxos, surdos e loucos, eram tuberculosos cuspindo sangue nos trapos, eram mães escanzeladas de filhos quase verdes, eram velhas curvadas e chorosas com as pernas incrivelmente inchadas, eram rapazes novos mostrando chagas, braços torcidos, mãos cortadas, lágrimas e desgraça.” qual é a figura de estilo que mais se evidencia, além da adjetivação?
9.    E algumas palavras mesmo não as ouvi, porque o vento rápido lhas arrancava da boca.”- que figura de estilo encontras neste excerto?
10.No excerto “O cheiro nu da maresia” encontramos uma sinestesia. Em que consiste?
11.Divide e classifica as orações das frases que se seguem:
a)    Quando eu era pequena, passava às vezes pela praia um velho louco e vagabundo”.
b)   .Na mão esquerda trazia um grande pau que lhe servia de bordão e era seu apoio nas longas caminhadas e sua defesa contra os cães raivosos das quintas”
c)    “Mas o Búzio aparecia sozinho, não se sabia em que dia da semana, era alto e direito, lembrava o mar e os pinheiros, não tinha nenhuma ferida e não fazia pena.”
d)   “Eu entendi que falava com o mar, pois o olhava de frente e estendia para ele as suas mãos abertas, com as palmas em concha viradas para cima.”
e)    “O Búzio não possuía nada, como uma árvore não possui nada.”

CORREÇÃO DOS EXERCÍCIOS:
1.    
nomes
verbos
conjunções
adjetivos
determinantes
olhos
mar
vi

ora
próprio, azuis, cinzentos, verdes, roxos
Os, seus, o, os
2.     “desprendia”- pretérito imperfeito do indicativo.
3.     “c” e “g”.
4.     Havia na terra muitos pobres que apareciam aos sábados em bandos acastanhados e trágicos, e que pediam esmola pelas portas e faziam pena.”
“na”- preposição “em” +  determinante artigo definido “a”
“aos”- preposição “a” + determinante artigo definido “os”
“pelas”- preposição “por” +  determinante artigo definido “as”
5.     5.4.  
6.     “O Búzio era como um monumento manuelino: tudo nele lembrava coisas marítimas. A sua barba branca e ondulada era igual a uma onda de espuma. As grossas veias azuis das suas pernas eram iguais a cabos de navio. O seu corpo parecia um mastro e o seu andar era baloiçado como o andar dum marinheiro ou dum barco. Os seus olhos, como o próprio mar, ora eram azuis, ora cinzentos, ora verdes, e às vezes mesmo os vi roxos.”
7.      O Búzio chegava de dia, rodeado de luz e de vento, e dois passos à sua frente vinha o seu cão (hipérbato), que era velho, esbranquiçado e sujo, com o pêlo grosso, encaracolado e comprido (duas triplas adjetivações) e o focinho preto.”.
8.     Enumeração.
9.     Personificação.
10.  Consiste na mistura de sensações (“cheiro”- olfato; “nu”- visão).
11.  Quando eu era pequena, -oração subordinada adverbial temporal
passava às vezes pela praia um velho louco e vagabundo- oração subordinante
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Na mão esquerda trazia um grande pau- oração subordinante
que lhe servia de bordão- oração subordinada adjetiva relativa restritiva
e era seu apoio nas longas caminhadas e sua defesa contra os cães raivosos das quintas- oração coordenada copulativa
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Mas o Búzio aparecia sozinho- oração coordenada adversativa
não se sabia em que dia da semana, era alto e direito, lembrava o mar e os pinheiros, não tinha nenhuma ferida- orações coordenadas assindéticas
e não fazia pena- oração coordenada copulativa
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Eu entendi- oração subordinante
que falava com o mar- oração subordinada substantiva completiva
pois o olhava de frente- oração coordenada explicativa
e estendia para ele as suas mãos abertas, com as palmas em concha viradas para cima.- oração coordenada copulativa
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O Búzio não possuía nada- oração subordinante
como uma árvore não possui nada- oração subordinada adverbial comparativa
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