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Sei que há muita gente que consulta este blogue e utiliza os materiais aqui publicados, mas poucos deixam comentários e eu gostava mesmo de saber a vossa opinião... :-)

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Ficha de trabalho sobre Conhecimento Explícito da Língua (CEL) com soluções no final



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     “Ao regressarmos da visita a Divar um dos pneus furou. Enquanto Sal resolvia o percalço, Lili e eu procurámos uma sombra — e uma cerveja! — num pequeno bar à beira da estrada. Lili abriu um caderno de folhas espessas e começou a desenhar, a lápis, indiferente ao ruído dos carros. Quis saber o que ela desenhava. Aves, árvores, Pedro Dionísio afagando o bigode. Tirei-lhe o caderno das mãos, abri-o noutra página, e reconheci surpreso o olhar cansado do encantador de serpentes em Anjuna; eu próprio, comprando uma colcha de um vermelho impossível; o vulto de uma menina equilibrando-se numa corda.
     Incrível! Onde aprendeste a desenhar?
     Não se aprende a desenhar, disse-me ela, aprendem-se apenas algumas técnicas. Contou-me que começou a desenhar com apenas dois anos de idade, antes mesmo de aprender a falar, e que até aos cinco anos comunicava com a mãe através de desenhos. Mais tarde frequentou a Escola Superior de Belas Artes, em Lisboa, antes de optar pelo restauro de livros antigos. Desenha de memória e é capaz de se lembrar dos mínimos pormenores o padrão da camisa que vestia Pedro Dionísio, os adornos de prata, um por um, e o traje fulgurante das mulheres Lamani, de Karnataka. Mostrou-me algumas aguarelas. Disse-me que dorme pouco, que quase não dorme, e que, para se distrair, passa as noites a desenhar o que vê durante o dia. À noite reconstrói o dia.
    
     Ontem à noite, depois do jantar, fui com Lili à praia do Hotel Cidade de Goa. A maré, muito baixa, deixara a descoberto uma larga e plácida baía. Ao longe, junto à outra margem do rio Zuari, via-se um navio enorme, um transatlântico, iluminado como se fosse uma cidade. Lembrei-me de uma famosa chalaça de Mobutu Sese Seko, antigo presidente do Zaire, apontando com desdém para a capital da vizinha República do Congo: “É o brilho de Kinshasa que ilumina Brazzaville”. Com mais veracidade se poderia dizer que o clarão daquele navio enorme iluminava, já não digo Pangim, mas Dona Paula a cidade mais próxima dali.
     Assusta um pouco mergulhar nas águas noturnas, sentindo o lodo debaixo dos pés, e vendo as luzes a dançar ao longe. Ao mesmo tempo sente-se ascender de toda aquela imensa massa líquida uma espécie de força pacificadora que docemente nos empurra para o abismo. Coloquei os óculos de mergulho, esvaziei os pulmões, e deixei-me afundar lentamente. Vi formar-se entre os meus dedos a ardência marítima, fenómeno a que no Brasil também se chama buxiqui, provocado pela existência na água de minúsculos protozoários de corpo luminescente. Estrelas desprendiam-se ao mais pequeno dos meus gestos, ficavam um pouco à deriva formando desenhos de luz, e depois dispersavam-se e subiam, juntando-se à outra noite, ao outro rio, às nítidas constelações que flutuavam lá em cima na eternidade.
     Chamei Lili e ficamos algum tempo a brincar aos deuses, em silêncio, criando estrelas com um simples gesto. Mais tarde, estendidos nas cadeiras, Lili mostrou-me no céu o desenho formado por um grupo de treze frágeis pontos luminosos. Parecia um papagaio de papel com uma longa cauda quebrada.
     — É difícil vê-la nesta altura do ano, — disse — é muito raro. Apresento-te a Constelação de Draco.”
José Eduardo Agualusa, Um estranho em Goa, Biblioteca editores Independentes


Responde às questões assinalando as alíneas corretas (cada alínea vale 5 pontos):

1.    A ação desenrola-se
a.    na Tailândia.
b.    no Egito.
c.    na Índia.
d.   no Brasil.

2.    Em relação ao ruído dos carros, Lili mostra-se
a.    incomodada.
b.    impassível.
c.    agitada.
d.   atenta.

3.    Na frase “Aves, árvores, Pedro Dionísio afagando o bigode.” (ll. 4-5), o uso das vírgulas deve-se à apresentação de uma
a.    adjetivação.
b.    metáfora.
c.    enumeração.
d.   repetição.

4.      Para Lili, enquanto criança. o desenho foi
a.    a sua maior distração.
b.    um meio de comunicação.
c.    um refúgio do mundo dos adultos.
d.   uma aprendizagem orientada.

5.      A citação da “chalaça de Mobutu Sese Seko” serve para
a.    elogiar o antigo presidente do Zaire.
b.    estabelecer  uma comparação.
c.    recordar um antigo dirigente.
d.   revelar concordância com a afirmação em causa.

6.     As “Estrelas” (l. 34) a que o autor se refere são
a.     “buxiqui" (l. 33).
b.     “desenhos de luz” (l. 36).
c.     “minúsculos protozoários de corpo luminescente” (l. 34).
d.   estrelas do mar.
 
7.      Com o recurso a “ela” (l. 4) e de “lhe” (l. 5 ) o autor certifica-se da correta coesão
a.    temporal.
b.    interfrásica.
c.    frásica.
d.   lexical.

8.    Assim, “ela” (l. 4) e “lhe” (l. 5), como mecanismos de coesão, tratam-se de
a.    anáforas.
b.    catáforas.
c.    elipses.
d.   correferentes.

9.    “Incrível!” (l. 9) trata-se de
a.    um nome.
b.    um adjetivo.
c.    uma interjeição.
d.   um advérbio.

10.A oração sublinhada em “Contou-me que começou a desenhar com apenas dois anos de idade (l. 11) é uma oração
a.    subordinada adjetiva relativa restritiva.
b.    subordinada adverbial consecutiva.
c.    subordinada substantiva relativa sem antecedente.
d.   subordinada substantiva completiva.

11.Na frase “Desenha de memória e é capaz de se lembrar dos mínimos pormenores” o sujeito é 
a.    simples.
b.    composto.
c.    nulo subentendido.
d.   nulo indeterminado.

12.A oração “que vestia Pedro Dionísio” ( l. 15) é 
a.    subordinada adjetiva relativa restritiva.
b.    subordinada adverbial consecutiva.
c.    subordinada substantiva relativa sem antecedente.
d.   subordinada substantiva completiva.

13.Com o uso do pretérito perfeito do indicativo na linha 20 e do pretérito mais-que-perfeito na linha 21, o autor assegura a coesão
a.    frásica.
b.    interfrásica.
c.    temporal.
d.    lexical.

14.Na linha 15 o travessão introduz
a.    uma adjetivação.
b.    uma explicação.
c.    uma enumeração.
d.   o discurso direto.

15.Na linha 27 o travessão introduz
a.    uma adjetivação.
b.    uma explicação.
c.    uma enumeração.
d.   o discurso direto.

16.No enunciado “Vi formar-se entre os meus dedos a ardência marítima” (ll. 33-4) que função sintática é desempenhada por “ardência marítima”?
a.    Sujeito.
b.    Complemento direto.
c.    Complemento oblíquo.
d.   Modificador do grupo verbal.

17.Que função sintática é desempenhada por “fenómeno a que no Brasil também se chama buxiqui” (l. 33)?
a.    Sujeito.
b.    Vocativo.
c.    Modificador apositivo.
d.   Complemento oblíquo.

18.Os verbos “subir” (l. 34) e “flutuar” (l. 35) são ambos
a.    intransitivos.
b.    transitivos diretos.
c.    transitivos indiretos.
d.    copulativos.

19.Que função sintática é desempenhada por “por um grupo de treze frágeis pontos luminosos” (l. 41)?
a.    Sujeito.
b.    Complemento direto.
c.    Complemento oblíquo.
d.   Complemento agente da passiva.

20.Na frase “Parecia um papagaio de papel com uma longa cauda quebrada.” (ll. 41-2) que função sintática é desempenhada por “papagaio de papel com uma longa cauda quebrada”?
a.    Sujeito.
b.    Modificador restritivo.
c.    Complemento direto.
d.   Predicativo do sujeito.


Soluções:

1-c
2-b
3-c
4-b
5-b
6-c
7-d
8-a
9-c
10-d
11-c
12-a
13-c
14-c
15-b
16-a
17-c
18-a
19-d
20-d


Bom trabalho!!
A professora: Lucinda Cunha

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