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Sei que há muita gente que consulta este blogue e utiliza os materiais aqui publicados, mas poucos deixam comentários e eu gostava mesmo de saber a vossa opinião... :-)

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Conto com ficha de leitura (com soluções)

Os calções verdes do Bruno


Até a camarada professora ficou espantada e interrompeu a aula quando o Bruno entrou na sala. Não era só o que se via na mudança das roupas, mas também o que se podia cheirar com a chegada daquele Bruno tão lavadinho.
No intervalo, em vez de irmos todos brincar a correr, cada um ficou só espantado a passar perto do Bruno, mesmo a fingir que ia lá fazer outra coisa qualquer. A antiga blusa vermelha tinha sido substituída por uma camisa de manga curta esverdeada e flores brancas tipo Havai. Mas o mais espantoso era o Bruno não trazer os calções dele verdes justos com duas barras brancas de lado. A pele cheirava a sabonete azul limpo, as orelhas não tinham cera, as unhas cortadas e limpas, o cabelo lavado e cheio de gel. Até os óculos estavam limpos. Tortos mas limpos.
Lá fora a gritaria continuava. O Bruno, ao contrário dos últimos seis anos de partilha escolar, estava mais sério e mais triste.
Fiquei no fundo da sala. Eu era grande amigo do Bruno e mesmo assim não consegui entender aquela transformação. Olhei o pátio onde as meninas brincavam “trinta e cinco vitórias”. Na porta, uma contra-luz do meio-dia iluminava a cara espantada da Romina. Eu olhava a Romina, o sol na porta e o Bruno também.
O mujimbo já tinha circulado lá fora e eu nem sabia. Havia uma explicação para tanto banho e perfumaria. Parece que o Bruno estava apaixonado pela Ró. A mãe do Bruno tinha contado à mãe do Hélder todos os acontecimentos incríveis da tarde anterior: a procura de um bom perfume, o gel no cabelo, os sapatos limpos e brilhantes, a camisa de botões. A mãe do Bruno disse à mãe do Hélder, “foi ele mesmo que me chamou para eu lhe esfregar as costas”.
Depois do intervalo o Bruno passou-me secretamente a carta. Começava assim:

Romina: nos últimos dias já não consigo lanchar pão com marmelada e manteiga, e mesmo que a minha mãe faça batatas fritas nunca tenho apetite de comer. Ainda por cima de noite só sonho com os caracóis dos teus cabelos tipo cacho de uva…

A carta continuava bonita como eu nunca soube que o Bruno sabia escrever assim. Ele tinha a cara afundada nos braços, parecia adormecido, eu lia a carta sem acreditar que o Bruno tinha escrito aquilo mas os erros de português eram muito dele mesmo. Era uma das cartas de amor mais bonitas que ia ler na minha vida, e eu próprio, anos mais tarde, ia escrever uma carta de amor também muito bonita, mas nunca tão sincera como aquela.
A camarada professora era muito má. Veio a correr e riu-se porque eu tinha lágrimas nos olhos. Pegou na carta e rasgou tudo em pedacinhos tão pequenos como as minhas lágrimas e as do Bruno. A Romina desconfiou de alguma coisa, porque também tinha os olhos molhados.
O sino tocou. Saímos. Era o último tempo.
No dia seguinte, com um riso que era também de tristeza e uma espécie de saudade, o Bruno apareceu com a blusa dele vermelha e os calções verdes justos com duas riscas brancas de lado. Deu a gargalhada dele que incomodava a escola toda e veio brincar connosco.
Na porta da sala, uma contra-luz amarela do meio-dia iluminava a cara bonita da Romina e os olhos dela molhados com lágrimas de ternura. E o Bruno também.
Ondjaki, in Os da Minha Rua
1.    Lê atentamente o conto “Os calções verdes do Bruno” de Ondjaki e seleciona a alínea correta para cada ítem:

1.1.        Além da roupa, Bruno espantou todos por causa
a.    do cheiro.
b.    dos sapatos novos.
c.    da mochila.
 
1.2.        A antiga blusa vermelha do Bruno foi substituída por
a.    uma amarela com o desenho de um tubarão.
b.    uma camisa esverdeada com flores.
c.    uma branca lisa.

1.3.        O motivo de Bruno estar triste era porque
a.    estava doente.
b.    estava cansado.
c.    estava apaixonado.

1.4.        Na carta que escreveu, Bruno dizia que não tinha vontade de
a.    brincar.
b.    estudar.
c.    comer.

1.5.        A professora riu-se porque o narrador
a.    estava com lágrimas nos olhos.
b.    tinha negativa no teste.
c.    estava mais limpo que de costume.

1.6.        Ao ver a carta que Bruno tinha na mão, a professora
a.    guardou-a.
b.    foi mostrá-la ao diretor.
c.    rasgou-a.

1.7.        No dia seguinte, Bruno
a.    apareceu na escola alegre, como de costume.
b.    continuava triste.
c.    não apareceu na escola.

  Correção: a, b, c, c, a,c a

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