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Sei que há muita gente que consulta este blogue e utiliza os materiais aqui publicados, mas poucos deixam comentários e eu gostava mesmo de saber a vossa opinião... :-)

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Mais um texto de Agualusa


Pré-leitura:


  1. Sobre este quadro, o seu autor disse uma das frases abaixo. Indica qual terá sido, justificando a tua escolha:
Procurar "Edward Hopper, Nighthawks, 1942"

  1. Pintei a solidão de uma grande cidade.
  2. Pintei o convívio que se estabelece numa cidade.
  3. Pintei um animado local de convívio.

 
  1. Lê, agora, o texto e estabelece uma ligação possível com o quadro.

 

“Havia muito sol do outro lado”, José Eduardo Agualusa

 

Aquilo tornara-se um vício. Ele ouvia um telefone a tocar e logo estendia o braço e levantava o auscultador.
          - E se fosse para mim?
         Os amigos faziam troça:
         - No consultório do teu dentista?
         Uma noite estava sozinho, no Rossio, à espera de um taxi, quando o telefone tocou numa cabine ao lado. Era no fim da noite e chovia: uma água mole, desesperançada, tão leve que parecia emergir do próprio chão. Ruben enfiou as mãos nos bolsos do casaco.
         - É claro que não vou atender - disse alto. - Não pode ser para mim. Se atender este telefone é porque estou a enlouquecer.
         O telefone voltou a tocar. Não chegou a tocar cinco vezes. Ele correu para a cabine e atendeu.
          - Está?
         Estava muito sol do outro lado. Era, tinha de ser, uma tarde de sol.
         - Posso falar com o Gustavo?
         A voz dela iluminou a cabina. Ruben pensou em dizer que era o Gustavo. Estava ali, àquela hora absurda, abandonado como um náufrago na mais triste noite do mundo. Tinha direito de ser o Gustavo (fosse ele quem fosse).
         - Você não vai acreditar mas a sua chamada foi parar a uma cabina telefónica.
         Ela riu-se. Meus Deus – pensou Ruben- era como beber sol pelos ouvidos.
        - Não brinques! És tu, Gustavo, não és?...
         Sim ele tinha o direito de ser o Gustavo:
        -Infelizmente não. Você ligou para uma cabina telefónica, no Rossio, eu estava à espera de um taxi e atendi.
       Quase acrescentou: "pensei que pudesse ser para mim". Felizmente não disse nada. Ela voltou a rir:
       -Tenho a sensação de que esta chamada vai ficar-me cara. Sabe onde estou?
       Estava em Pulau Penang, na Malásia, e dali, do seu quarto, num hotel chamado Paradise, podia ver todo o esplendor do mar.
      -Nunca vi nada com esta cor- sussurrou- só espero que Deus me dê a alegria de morrer no mar.
       Ele ficou em silêncio. Aquilo parecia a letra de um samba. Ela começou a chorar:
      - Desculpe que vergonha...Nem sequer sei como se chama.
       Ruben apresentou-se:
      - Ruben, 34 anos, trabalho em publicidade.
       Pediu-lhe o número de telefone e ligou utilizando o cartão de crédito. Aquela chamada ficou-lhe cara. Casaram oito meses depois. Ele diz a toda a gente que foi o destino. Ela, pelo sim pelo não, proibiu-o de atender telefones.
                                                                                              José Eduardo Agualusa, in A substância do amor e outras crónicas

FICHA DE AFERIÇÃO DE LEITURA DO CONTO

 

3.    Esta crónica começa com a frase “Aquilo tornara-se um vício.”. Indica as palavras para que remete o pronome demonstrativo “Aquilo”.

 

4.    “Era no fim da noite e chovia: uma água mole, desesperançada, tão leve que parecia emergir do próprio chão.”

4.1.        Comprova as seguintes características da descrição transcrita em 4:

a.    emprego do verbo ser e outros verbos caracterizadores de qualidades, de estados;

b.    uso do presente ou do pretérito imperfeito do indicativo;

c.    abundância de adjetivos qualificativos.

 

4.2.        Podemos distinguir, nesta descrição, elementos objetivos e subjetivos. Indica uns e outros, justificando.

4.2.1.    Transcreve outro excerto do texto relativo ao tempo que reforça o caráter subjetivo desta descrição.

 

4.3.        Identifica a principal função desta descrição:

a.    informar sobre o tempo em que a acção se desenrola.

b.    revelar indiretamente o estado de espírito da personagem.

c.    ornamentar a narrativa.

 

5.    A situação em que ele e ela se encontravam é em tudo oposta: local, momentos do dia, clima. Comprova esta afirmação.

 

6.    Transcreve as frases que revelam o efeito que a voz e o riso dela provocaram em Ruben. Comenta a sua expressividade.

 

7.                    Que consequências teve aquele telefonema na vida das duas personagens?

 

8.                    Ruben descobriu o amor graças ao seu “vício” de atender qualquer telefone que tocasse.

8.1.        Como interpretas essa necessidade? Na tua opinião, o que revelará sobre a personagem?

 
BOM TRABALHO!!

A professora: Lucinda Cunha

 


Proposta de correção (ficha e correção retiradas do manual Diálogos 8, da Porto Editora, pp.160-163):

1. a

2. No texto, há uma personagem que é “viciada” em atender telefones. Esta procura constante de ouvir os outros pode ser uma forma de fugir/ enganar a sua solidão.

3. Remete para a frase que vem imediatamente a seguir: Ele ouvia um telefone a tocar e logo estendia o braço e levantava o auscultador.

4.1. a. “Era”, “parecia”; b. pretérito imperfeito do indicativo; c. mole, desesperançada, leve

4.2. objetivos: “era no fim da noite e chovia”; subjetivos: “uma água mole, desesperançada, tão leve que parecia emergir do próprio chão.”

4.2.1. “na mais triste noite do mundo”

4.3. b

5. Ele estava num espaço exterior, no Rossio, em Lisboa, numa noite de chuva. Ela encontrava-se num espaço interior, num quarto de hotel em Pulau Penang, na Malásia, num dia de sol.

6. “A voz dela iluminou a cabina.”; “era como beber sol pelos ouvidos”. Estas frases revelam o prazer intenso que a voz dela conseguiu provocar em Ruben, transformando a “noite mais triste do mundo” num dia luminoso de sol.

7. Os dois casaram e ele deixou de atender telefones.

8.1. É possível que essa necessidade pudesse corresponder a um desejo de procurar (e descobrir) o amor.

 

2 comentários: