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sábado, 18 de junho de 2011

Excerto da crónica "O vampiro de Berlim" de Agualusa

       "O meu filho quer ser vampiro. Fui com ele a uma livraria, na intenção de lhe comprar O Mandarim, do Eça, e saímos de lá com uma coisa chamada Sangue Fresco. A coisa em causa tem um blogue ao seu serviço e serviu de base a uma série para a televisão, True Blood, criada por Alan Ball, que já se havia distinguido anteriormente ao produzir Sete Palmos de Terra. O meu filho convenceu-me também a comprar e a ver com ele Crepúsculo, sobre uma bela adolescente, Isabella (Kristen Stewart) que se apaixona por Edward Cullen (Robert Pattinson), um colega solitário e excessivamente maquilhado. “Eu não sou um super-herói, pelo contrário, estou do outro lado”, explica Edward à jovem, tentando justificar alguns dos seus estranhos poderes. Ela não se convence da maldade do rapaz, e com razão. Trata-se, na verdade, de um vampiro light, que recusa alimentar-se de sangue humano, o que a mim me parece uma perversão horrorosa.
     Quando eu tinha a idade do meu filho os vampiros eram honestamente mais e por isso gostávamos tanto deles. Agora bebem cerveja sem álcool, café sem cafeína, não fumam, são estudantes aplicados e demonstram uma exasperante propensão para a melancolia e o amor platónico. (…)
     Conheci um vampiro. Foi em 2001. Passei aquele ano em Berlim, a escrever, beneficiando de uma bolsa literária atribuída por uma instituição alemã. Uma noite a minha mulher adoeceu e vi-me forçado a chamar um médico. Creio que fui à lista telefónica e escolhi um ao acaso. Passado meia hora apareceu à porta um sujeito sem nada de notável, exceto a palidez de inválido, e uma ligeira gaguez, que na altura julguei ser consequência de um acanhamento indomável.
     Suponho que se apaixonou pela minha mulher, pois a partir daquela noite passou a visitar-nos às horas mais improváveis, trazendo flores, chocolates e — durante o Festival Internacional de Cinema de Berlim — bilhetes para os melhores filmes. Uma noite convidou-nos para jantar. Levou-nos a um restaurante caro, encomendou um vinho magnífico e tornou-se eloquente e (quase) divertido. Por fim, recostou-se e confessou que nos trouxera ali para revelar algo importante. Fez-nos aguardar alguns segundos, e anunciou: “Sou um vampiro!”
     Soltei uma gargalhada. Milagres de um bom vinho, pensei, capaz de transformar um alemão grave e tímido num razoável humorista. O homem esticou-se na cadeira, ainda mais pálido, e só então compreendi que falava a sério. “Sou um vampiro”, insistiu — voltara-lhe a gaguez. Acrescentou que pertencia a uma antiga confraria de vampiros teutónicos. Dias depois levou-nos a visitar uma amiga, artista plástica, em cujo estúdio se mergulhava através de uma intensa luz púrpura. (…) Também a artista fazia parte — pelo que julguei compreender — da tal confraria de vampiros.
     No dia em que saímos de Berlim foi o nosso vampiro quem nos levou ao aeroporto. Ofereceu-nos a, à despedida, três pequena estatuetas africanas, representando mascarados a dançar (muxiques). Guardo-as até hoje. Guardo igualmente uma série de postais, com temas vampíricos, que o nosso amigo nos enviou durante vários meses, e aos quais nunca respondemos.
     Foi em Berlim, portanto, que comecei a perder a fé nos vampiros. Vivemos num tempo estranho, em que já nem a maldade é genuína. Tentei explicar tudo isto ao meu filho, mas não tive sucesso. Ele insiste. Há de ser vampiro. Pior do que isso só lutador de wrestling. "
     José Eduardo Agualusa, in revista Pública, 19/4/2008 (texto com supressões)

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