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segunda-feira, 20 de junho de 2011

A prova de que as aparências iludem...

 CONSIDERO ESTE TEXTO UM CONTO, APESAR DE INSERIDO NUM LIVRO DE CRÓNICAS .
UMA ÁGUA ESCURA

       Fui eu a começar o jogo. Escolhi o sujeito sentado junto à janela, um jovem pálido, estremunhado, óculos de aros grossos. Vestia de preto, mas não como se fosse para um enterro (é o que se diz de alguém vestido de preto): parecia antes que estava a fugir de um enterro.

         Chama-se Cândido Mosso Rabin expliquei a Valéria , estuda filosofia, e vai a Lisboa, de férias, porque quer conhecer a cidade onde viveu Fernando Pessoa.

         Valéria aceitou o desafio:

         Certo. Ele próprio escreve poesia. Mas como conseguiu o dinheiro para a viagem?

         Ajuda muito, a quem lança o jogo, se a personagem estiver a ler. Cândido Mosso Rabin, por exemplo, tinha nas mãos o Livro do Desassossego, organizado por Richard Zenith, na edição brasileira, muito cuidada, da Companhia das Letras. Não era difícil supor que quisesse conhecer a Rua dos Douradores, passear, com o seu Fernando Pessoa debaixo do braço, pela “Rua do Arsenal, a Rua da Alfândega, o prolongamento das ruas tristes que alastram para leste desde que a Alfândega cessa”.

         A pergunta de Valéria, porém, fez-me pensar um pouco. Como é que Cândido tinha arranjado dinheiro para a viagem?

         Ele trabalha à noite num bar, a servir à mesa, provavelmente um lugar frequentado por artistas, poetas, jornalistas. Cândido é um tipo tímido, reservado, embora gentil, que não participa nas conversas. Os frequentadores do bar acham-no um tanto misterioso.

         Valéria entusiasmou-se:

         Não, não foi com o dinheiro ganho no bar que ele conseguiu a passagem para Lisboa. Eu conto como foi: uma noite Cândido conheceu um viajante. O homem era simpático, gostava de uma boa conversa, passava pelo bar todas as noites, bebia uma cerveja, bebia outra, e ia-se embora. Uma ocasião ficou até mais tarde. Já havia poucos clientes quando o Viajante ofereceu uma bebida a Cândido. Quis saber se ele também trabalhava ali durante o dia, onde morava, e finalmente perguntou-lhe se não gostaria de visitar Lisboa.

         Pensei que Valéria pretendia enredar-me numa história de amor. Infelizmente, era algo ainda mais óbvio:

         O Viajante pertencia a uma rede de tráfico de cocaína para a Europa e queria utilizar Cândido como correio. Achava que a polícia nunca desconfiaria de alguém assim, um pobre sujeito com ar de seminarista, estudante de filosofia na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, com a mala cheia de papéis, jornais, livros de poesia.

         Senti-me defraudado:

         O Cândido, um passador? Por amor de Deus, Valéria! Olha bem o tipo: ali está muito sentadinho, assustado com os devaneios de um ajudante de guarda-livros. Aquilo, para ele, é um romance de cavalaria.

         Valéria ficou ofendida com a observação, discutimos, saltamos do jovem Cândido para rancores mais remotos e assim estragamos o resto da viagem. Chovia quando o avião pousou em Lisboa. Abriram as portas, vieram as escadas e descemos debaixo de uma água escura. Enquanto recolhíamos as bagagens vi Cândido, apertado no seu casaco funesto, passar por nós em direção à saída.

         A placa dizia: “Nada a Declarar.” Nada tínhamos a declarar. O funcionário da alfândega, porém, olhou para mim, olhou para a minha amiga, abanou a cabeça com um ar de enfado, e fez-nos passar para a salinha ao lado. Cândido Mosso Rabin também estava lá, ainda mais pálido, piscando os olhos espantados por detrás das lentes grossas. Parecia que o tinham acordado, aos safanões, naquele preciso instante. O polícia colocou a mala dele num pequeno estrado, apalpou-a, como um médico examinando um cadáver, e abriu-a. Vasculhou entre os livros, entre as pilhas de roupa, tirou uma pequena caixa de metal, desenroscou a tampa e eu vi (vimos todos) o pó, muito branco, brilhando angustiado na penumbra.

         Valéria beliscou-me o ombro: “ganhei!” O polícia sorriu (a serpente a sorrir para o passarinho):

         E então, senhor David, você vai-me dizer o que é isso?

         O jovem olhou-o com o cansaço dos vencidos:

         É o meu pai.

         Mostrou um papel cheio de carimbos e assinaturas. Era realmente o pai dele, falecido em Petrópolis, incinerado em São Paulo, e que ao fim de cinquenta anos regressava a Lisboa.

In A substância do amor e outras crónicas, D. Quixote, 3ª ed.

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