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sexta-feira, 1 de março de 2013

Questionário com correção- Dentes de Rato, de Agustina


A CIVIDADE

O monte da Cividade era um lugar muito antigo. Os roma­nos tinham lá um quartel que servia para vigiar tudo em volta, e ainda se podiam ver restos das casernas e das habitações deles. Apareciam também púcaros de barro quebrados e até pulseiras de ouro. O monte estava ao lado da quinta de Cavaleiros e era como uma cabeça que saía da terra, com os olhos fechados. Da aldeia de Corvos ele só parecia um monte qualquer, e mais nada.

A aldeia de Corvos ficava em frente da casa de Cavaleiros; era preciso atravessar um campo muito maior do que um estádio de futebol para lá chegar. Era um campo onde dantes os condes faziam justas para se treinarem para a guerra, e Falco dizia que ele fora regado com sangue; por isso é que apareciam espigas vermelhas quando se colhia o milho. Mas dizia isto para assustar Lourença; só que ela já estava habituada.

Na aldeia de Corvos havia muitos cães e todos eram ferozes. Os rapazes atiravam pedradas às portas dos quinteiros, que eram as portas que serviam para passar os carros de bois, e eles ladra­vam como doidos. Até era pena obrigá-los a desesperar-se daquela maneira. Quem tinha os cães mais valentes era a senhora Maria Costa, uma lavradeira rica. Tinha também três filhas e um filho do mais bonito que podia haver. Lourença não se cansava de olhar para eles quando Emília a levava a casa da senhora Maria Costa. Pareciam feitos de barro colorido e tinham cabelos aos cachos, pretos. Até Marta os achou bonitos. E Marta só gostava de gente esbelta e com ar cansado. A senhora Maria Costa era vaidosa, o que quase parecia impossível com aquelas saias de roda e chine­los nos pés com solas de madeira. Sentava-se nos banquinhos de pedra junto das janelas e olhava para os campos com prazer e orgulho. Era tudo dela, o que se via dali. Lourença pensava que as mulheres eram quem mandava; os maridos delas quase não apareciam.

Falco combinou com Xerxes subirem ao monte da Cividade. Levavam batatas para assar e bacalhau cru. Pensavam passar lá o dia inteiro a fazer explorações. Lourença teve inveja da liber­dade que eles tinham e quis ir também.

— Raparigas são um empecilho. Se ela for eu não vou — disse Xerxes. Empurrou Lourença e ela caiu e até se magoou. Falco não fez nada para a socorrer.

— Vais para outra vez — foi tudo o que ele disse. Afastaram--se, e Lourença sentiu o coração apertado ao ver que desapare­ciam sem se importarem mais com ela. Levavam no farnel nozes verdes, de que ela gostava muito.

Apareceram só à noite, e era de desesperar não contarem nada do que viram. Falco guardava segredo de tudo; ou então esquecia-se depressa das suas aventuras. Tal e qual tio António, que dera a volta ao mundo e nunca se lhe arrancava nada do que gozara ou padecera. Pessoas assim não ajudavam os outros a viver.

Passados uns dias aconteceu quase o que a mãe chamava «uma tragédia». Falco apanhou um tiro na cara, e os chumbos miúdos ficaram lá metidos e foi preciso ir curar-se ao hospital. O pai dessa vez veio buscá-lo, já de noite, Lourença estava deitada. Emília fez o possível por esconder-lhe o desastre, mas ela percebeu que havia um movimento desacostumado. Ninguém se importou com ela, e isso magoou-a. Quase lhe apeteceu ter levado um tiro tam­bém; não na cara, isso era repugnante e nunca se sabia o resul­tado. Podia perder o nariz, o que era humilhante. Pensava que Falco perdia o nariz, e aquilo dava-lhe vontade de rir, apesar da pena que sentia por ele. «O ridículo mata», dizia tio António. Lou­rença achava que aquilo, sim, ela percebia.

Ficou sozinha na casa de Cavaleiros. Caiu-lhe o primeiro dente e David ensinou-lhe a atirá-lo para o telhado, para que lhe nas­cesse outro. Xerxes tinha desaparecido. Emilia contou que ele fugira para a Cividade e que só apareceu quando a fome o obri­gou. Mas Lourença não o viu. Andava ocupada a ajudar Emília a fazer a marmelada, e descascava marmelos com uma faquinha aguçada que servia também para tirar as pevides. Emília encheu quatro tigelinhas de barro do tamanho dum tinteiro e Lourença ia todos os dias pô-las ao sol a secar. As vespas fizeram-lhes bura­cos, que até parecia impossível elas comerem tanto em tão pou­cas horas. Emília tinha o cuidado de cobrir a marmelada com uma cortina velha de étamine. E dizia:

— As ladras! As bandidas! — Sacudia-as com o avental, e Lou-rença pensava se alguma vespa lhe entrasse na cabeleira crespa nunca mais podia sair.

Começou a chover e o gado agitava-se muito nos eidos, que era o lugar onde se recolhia. Sabiam quando ia trovejar; a aldeia de Corvos ficava escura e a tempestade caía de repente e trazia um pouco de terror, como uma novidade que o coração estima. A caseira passava com as saias pela cabeça, gritando qualquer coisa, e o homem dela estava à porta de casa, com um saco a fazer de capuz. Mas Xerxes não se via em parte nenhuma. Lourença, que tinha ido com Emília ao celeiro, ficou à espera que ela lhe trouxesse um guarda-chuva. Mas Emília demorava-se; tinha sem­pre que fazer pelo caminho ou não sabia da chave da cozinha, ou encontrava alguém que a desviava e se punha a conversar. Lourença esperou um tempo infinito, e chovia tanto que a água estalava como chicotadas nas pedras. Foi então que ela ouviu baru­lho e pensou nos condes de Cavaleiros, com armaduras de ferro, a mexer-se lá para o lado das adegas. «Agora até me apetece vê-los» — pensou Dentes de Rato. Quando sentia curiosidade tornava-se muito valente. Ninguém podia imaginar do que era capaz nessas ocasiões. Desceu as escadas para a adega e estava tão escuro que só se viam as teias de aranha brancas a balançar ao vento que entrava pelas frestas. Continuava a ouvir o mesmo barulho, como se alguém batesse no ferro com outro ferro. O barulho vinha das prisões dos condes, que na verdade não passa­vam de antigas garrafeiras. Uma voz disse:
— Olha a Dentes de Rato! Arremalada, que fazes aqui? (...)



A Cividade

1.       Qual era  a utilidade do Monte da Cividade antigamente?

2.       Que tipo de descobertas se faziam aí?

3.       Explica a metáfora “regado com sangue” (2º parágrafo).

4.       Explica a utilização do advérbio “até” na frase “Até Marta os achou bonitos.”.

5.       Caracteriza a Sra. Maria Costa.

6.       Que comparação é feita por Lourença entre o irmão Falco e o tio António?

7.       Explica em que consistiu a “tragédia”.

8.        Descreve, por palavras tuas, as tempestades na aldeia de Corvos.

9.       Como foi que Lourença encontrou Xerxes?

 

 

 

Proposta de correção

 


1.       No tempo dos romanos, o Monte da Cividade era uma fortaleza, um posto de vigia e de defesa.

2.       Naquele monte encontravam-se púcaros de barro quebrados e, por vezes, jóias como pulseiras de ouro.

3.       Esta metáfora é usada para realçar que nas batalhas e treinos que se desenrolaram naquele campo muitos homens ficaram feridos ou morreram.

4.       O advérbio “até” é usado para realçar que Marta tinha gostos muito requintados, isto é, para dizer que alguém era bonito tinha de ser excecional.

5.       A Sra. Maria Costa era uma lavradeira rica que tinha uns filhos anormalmente bonitos. Era vaidosa e orgulhosa das suas propriedades.

6.       Lourença compara o irmão ao tio porque ambos guardavam segredo das suas aventuras.

7.       A tragédia deu-se quando Falco levou um tiro na cara e teve de ir ao hospital tirar os chumbos.

8.        Naquela aldeia, as tempestades caíam de repente, escurecendo o céu e provocando algum medo à população.

9.       Lourença tinha ido com Emília ao celeiro quando começou a chover. Ficou à espera que a criada lhe trouxesse um guarda-chuva, mas como esta se demorou, a menina, a certa altura, começou a ouvir um barulho metálico vindo da adega e desceu para ir ver o que era. Foi aí que encontrou Xerxes preso.

 

 

 

 

 

 

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