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Sei que há muita gente que consulta este blogue e utiliza os materiais aqui publicados, mas poucos deixam comentários e eu gostava mesmo de saber a vossa opinião... :-)

sábado, 14 de maio de 2011

"Praia" de Sophia de Mello Breyner



Era uma espécie de clube de Verão, um grande casarão quadrado, pintado de amarelo e com grandes verdes na varanda que dava para a avenida onde os plátanos maravilhosos povoavam a noite.

Cheirava a maresia e a fruta. Longas músicas pareciam suspensas das árvores e das estrelas. E entre as casas brancas, na noite escura e azul, passava o rolar do mar.

Tudo isso envolvia o clube e as suas paredes e janelas, e as suas mesas e cadeiras. E envolvia ainda, agudamente, uma por uma, cada pessoa.

Entrava-se pelo «hall» por uma grande porta que estava sempre aberta.

O «hall» era enorme e tinha no meio uma palmeira nostálgica. A decoração era de 1920, num estilo especial que só existia naquela terra.

Nos bancos verdes, encostados às paredes brancas, cobertas até ao meio por grades de madeira verde, estavam pequenos grupos de pessoas sentadas em frente das mesas verdes.

Havia três grupos escuros de homens e dois grupos mais claros de senhoras de uma certa idade.

À medida que eu ia atravessando o «hall» ia dizendo «Boa noite» aos vários grupos. Depois espreitei através da porta da sala de jogo, que era de vidro. Os jogadores pareciam condenados à morte que tentavam entreter com calma as suas últimas horas. Estavam abstractos e suspensos e não me viram. Tomei a atravessar o «hall» e entrei na sala de baile.

Era dia de orquestra. A orquestra vinha duas vezes por semana de uma praia vizinha. Os músicos eram magros e novos e tinham smokings velhos, ligeiramente esverdeados pelo uso e pela humidade das invernias marítimas. Eram músicos falhados: sem grande arte, com pouco dinheiro e sem fama. Deviam ser ou resignados ou revoltados. Espero que fossem revoltados: é menos triste. Um homem revoltado, mesmo ingloriamente, nunca está completamente vencido. Mas a resignação passiva, a resignação por ensurdecimento progressivo do ser, é o falhar completo e sem remédio. Mas os revoltados, mesmo aqueles a quem tudo - a luz do candeeiro e a luz da Primavera - dói como uma faca, aqueles que se cortam no ar e nos seus próprios gestos, são a honra da condição humana. Eles são aqueles que não aceitaram a imperfeição. E por isso a sua alma é como um grande deserto sem sombra e sem frescura onde o fogo arde sem se consumir.

E assim ali nós ríamos, conversávamos, dançávamos, enquanto, com os seus velhos smokings, os músicos no palco tocavam.

As vezes alguém se queixava de que tocavam mal.

Pelas janelas abertas a música saía e ia perder-se lá fora por entre as ramagens dos plátanos, misturada com o leve estremecer da brisa e o ressoar fundo do mar.

A sala de baile era grande e comprida. Tinha duas portas que davam para a varanda, duas portas que davam para o «hall» da entrada e uma quinta porta que dava para um «hall» mais pequeno que servia de passagem e ligação entre a sala de baile e o bar.

No fundo da sala de baile havia um palco, onde os músicos tocavam, mas onde nunca se representava nada. Mas sabia-se que antigamente ali se tinha representado.

Na parede que ficava à esquerda do palco havia três janelas que davam para uma pequena rua sossegada, onde raramente passava alguém.

Às vezes nos intervalos das danças vínhamos encostar-nos a essas janelas: em frente havia uma casa com paredes brancas, onde o luar ficava azul, e onde se desenhavam, trémulas, inquietas e vivas, as sombras das folhas cheias de gestos.

E nós estendíamos o braço e arrancávamos dos ramos uma folha que trincávamos devagar entre os dentes.

Depois respirávamos o perfume das tílias e levantávamos a cabeça para o céu cheio de estrelas e dizíamos:

- Está uma noite maravilhosa!

Outras vezes, quando não dançávamos, conversávamos em pequenos grupos, sentados nos compridos sofás forrados de verde encostados ao longo da parede. Havia um leve rumor de amores adolescentes Era como o rumor da brisa. Pois era o princípio da vida e nada ainda nos tinha acontecido. Ainda nada era grave, trágico, nu e sangrento.

E a noite lá fora, com os seus perfumes misturados, com os seus murmúrios e silêncios e as suas sombras e brilhos, parecia o rosto de uma promessa.

Mas não creio que ninguém, ali, nesse tempo, pensasse realmente no futuro. Só talvez dois ou três, cuja vida, mais tarde, tão eficiente e bem administrada, teve sempre um ar de coisa previamente fabricada. Mas só esses. Os outros todos não faziam nenhum cálculo sobre o futuro. Para eles o presente era um prazo ilimitado de disponibilidade, suspensão e escolha. Não calculavam o futuro -apenas, vagamente, o esperavam.

E tão vagamente que muitas vezes era como se esperassem não o futuro, mas sim o passado.

Pois ali se falava muito no passado. Constantemente nas conversas se contavam histórias das gerações anteriores, histórias dum tempo em que o existir era mais definido e mais visível, um tempo em que os sentimentos se tomavam actos e os destinos se cumpriam inteiramente.

Às vezes, de repente, no fundo dos espelhos havia um brilho que era o brilho de uma hora antiga. E então era como se as antigas noites de Agosto e as abolidas tardes de Setembro pudessem, como D. Sebastião, voltar.

Nas avenidas, nas tílias, nas varandas, no barulho dos passos sobre as ruas de saibro e areia, fazendo rolar as pequenas pedras soltas, no mar, igual a um búzio repetindo o ressoar de passados temporais, e até no chão, nas mesas, nas cadeiras, parecia estar suspensa a espera dum regresso.

E à medida que a noite ia avançando, à medida que quase toda a gente ia saindo, à medida que se ia fazendo tarde, a espera ia-se tomando quase consciente, quase visível. Dir-se-ia que o tempo perdido ia surgir e ser tocado.

As pessoas iam-se embora, as salas iam ficando vazias e passavam no ar interrogação e silêncio, como se qualquer coisa, qualquer coisa obscuramente desejada e prometida, não tivesse acontecido.

Os músicos guardavam os instrumentos e fechavam o piano. Escuros e magros, desciam as escadas do palco e depois desapareciam, suponho que por um alçapão, pois nunca os vi sair por nenhuma porta. Ou talvez se diluíssem no ar. Ou talvez fossem deuses da Pérsia e viessem de noite num tapete mágico, para contemplarem, disfarçados de músicos, o fim da sensibilidade do Ocidente.

Porque a espera, a espera das coisas fantásticas, visíveis e reais, a espera das coisas destinadas, prometidas, pressentidas, ia-se tomando quase lucidamente alucinada.

Encostado à ombreira de uma porta, um homem solitário, alto e magro como urna árvore no Inverno, tirou o relógio do bolso e viu as horas. Depois guardou o relógio depressa como se tivesse vergonha do tempo.

Estávamos à espera.

E já éramos poucos e apagava-se a luz da sala de baile, o «hall» estava deserto, na sala de jogo só já quatro jogadores esperavam a morte e quando entrávamos no bar um homem, sempre o mesmo, voltava-se no banco alto e, trazendo o seu copo, vinha sentar-se connosco numa mesa.

E era difícil dizer de que tempo ele vinha; pois dos personagens das histórias de um tempo antigo ele tinha a voz, o olhar e os gestos. Mas não o destino, nem a vida vivida. Era mesmo como se ele tivesse rejeitado todo o destino, toda a vida vivida, como uma coisa alheia, exterior e falsa e lhe bastasse aquele momento, aquele bar, aquela mesa, aquela conversa, aquele copo.

Era como se ele tivesse querido guardar o seu ser à margem do vivido, por não haver na vida acto nenhum onde o ser pudesse ser cumprido e a existência concreta fosse apenas deturpação, falsificação, profanação.

E assim ele tinha resolvido usar a sua própria vida como não sendo dele, usá-la como os músicos da orquestra usavam os seus fatos alugados.

A hora tardia dilatava, multiplicava e isolava todas as coisas.

Quase toda a gente se tinha ido embora, e o vazio pousava docemente nas mesas e nas cadeiras, enquanto a noite, com a grande sombra das suas árvores atravessadas pelo rumor do mar, entrava pela janela aberta.

E o homem que se tinha vindo sentar junto de nós falava misturando as suas palavras com o tempo, com a noite, com o barulho do mar, com o respirar da brisa nas folhagens. E das suas palavras nascia uma grande imagem que se ia abrindo e desdobrando em inumeráveis espaços.

A sua sensibilidade era tão perfeita que até na própria madeira da mesa a sua mão pousava com ternura. Enquanto falava, abria espantosamente os seus olhos, que eram azuis como o azul de uma chama de álcool. E o seu olhar era desmedido e impessoal como se para além de nós ele olhasse outra coisa. Talvez:

A memória longínqua de uma pátria

Eterna mas perdida e não sabemos

Se é passado ou futuro onde a perdemos.

E, à medida que ele ia falando, a imagem que nascia das suas palavras ia-se tornando interior à alma daqueles que o escutavam, com o mito. Ele era como um limite, como um marco que dissesse:

«Daqui em diante o mar não é mais navegável».

No entanto ele não se confundia com um deus. Nos deuses ser e existir estão unidos. Nele a vida vivida nem sequer era a serva do ser, nem sequer era o chão que o ser pisava, mas apenas acaso sem nexo, desencontro, acidente sem forma e sem verdade, acidente desprezado.

Eu estava sentada na frente dele, do outro lado da pequena mesa. Ele esteve um longo tempo calado. Depois debruçou-se sobre a mesa e disse:

- Ouve:

There is a sea,

A far and distant sea

Beyond the largest line,

Where all my ships that went astray,

Where all my dreams of yesterday

Are mine.

Lá fora as lâmpadas das ruas já se tinham apagado havia muito tempo.

Era tarde. E o brilho da hora tardia deslizava docemente em roda das mãos e dos copos sobre a mesa polida.

A Lua já tinha desaparecido e o nevoeiro, aéreo e branco, começava a subir do mar e entrava pela janela aberta.

- Voltou o nevoeiro - disse alguém.

Olhámos a janela. Agora o perfume que vinha de fora era ainda mais marítimo e mais fresco.

Às vezes ouvia-se ao longe o apitar dos comboios. Eram os intermináveis comboios de mercadorias da madrugada, com seus vagões de sal, de gado, de madeira e de pedras. E a mulher da linha, muito direita, mostrava no extremo do seu braço estendido a lanterna verde. E um longo rasto de melancolia parecia ficar a dissolver-se devagar nas terras por onde o comboio passava.

Era tarde.

Um criado sonâmbulo deambulava entre as mesas.

- Olha - disse ao meu lado um dos meus amigos, mostrando-me as páginas de uma ilustração aberta. Cidades e cidades bombardeadas, navios, canhões, aviões, máquinas de guerra, e o ridículo Fuhrer, capitão da estupidez, da bestialidade e da desgraça, conduzindo o seu povo.

E de repente levantou-se uma discussão rápida e violenta. Mas, apesar da discussão e das fotografias, a guerra parecia irreal e abstracta como se estivéssemos falando das invasões dos bárbaros ou dos flagelos do ano 2000. A guerra estava longe.

Então o homem do relógio levantou-se e disse:

- Vou ouvir as notícias.

Atrás dele a porta ficou a baloiçar.

Daí a instantes ouviram-se na sala pegada barulhos de telefonia misturados com farrapos de música e línguas estranhas.

Depois uma voz começou a falar claramente. Levantei-me e fui ouvir.

Rommel no deserto recuava, diziam as notícias.

E de repente, para mim, pelo poder dum nome, a guerra tomou-se real.

Voltei para o bar e sentei-me outra vez na mesma mesa, no meio das conversas.

Rommel no deserto recuava.

E tentei imaginar a noite azul do deserto onde os homens silenciosos recuavam. Tentei imaginar as sombras e a doçura das areias, o brilho lucidíssimo das estrelas, o mistério, a presença suspensa do inimigo invisível, a orla da morte, o terror, a paixão e o denso, agudo e exacto peso de cada momento. E tentei imaginar os homens. Os homens: οι ανΘρωποι Os homens: luci- damente vencidos, recuando e combatendo, rodeados de morte, medindo os seus gestos, medindo a medida de eficácia dos seus gestos, combatendo por cada passo, sabendo a causa injusta e o combate perdido. Lucidamente vencidos, combatendo sob o brilho lucidíssimo dos astros.

E era tarde.

Tão tarde que nos levantámos todos e saímos, enquanto, sonâmbulo, o criado tirava da mesa todos os copos, que chocando uns contra os outros, tilintaram longamente na bandeja.

Cá fora, mal passámos a porta que dava para a varanda, o grande sopro do mar cobriu-nos, rodeou-nos, invadiu-nos.

O nevoeiro tinha transfigurado tudo.

Agora só cheirava a mar. Um perfume apaixonado de algas escorria das árvores. Lua e estrelas não se viam. Nem os plátanos se viam. Só se viam muros brancos no nevoeiro branco. Tudo estava imóvel e suspenso.

Só a voz do mar se ouvia, espantosamente real, recriando-se incessantemente.

E parecia que os grandes, verdes e violentos espaços marinhos, como sendo o nosso próprio destino, nos chamavam.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Contos Exemplares (1962)
Fonte: http://nesgadeterra.blogspot.com/2011/02/praia-sophia-de-mello-breyner-andressen.html

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