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Sei que há muita gente que consulta este blogue e utiliza os materiais aqui publicados, mas poucos deixam comentários e eu gostava mesmo de saber a vossa opinião... :-)

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Teste diagnóstico de 11º ano (ou 10º)- com correção


Proponho este teste (que segue a estrutura do exame nacional do 12º ano- como todos aqui publicados para o secundário) como diagnóstico de 11º ano (ou mesmo para a unidade do texto narrativo no 10º ano) pois este texto/ teste não é dos mais fáceis. A interpretação exige algum raciocínio que, a meu ver, a par da escrita, é uma das principais dificuldades dos nossos alunos.

IA
Conto integral:
O homem que parecia um domingo”
         O Velho Fausto parecia um domingo. Costumava vê-lo, manhã cedo, cruzar o passeio, pisando sem ruído as flores das acácias, muito aprumado no seu fato de linho branco, chapéu de palha, laço e bengala, e tão sem pressa, meu Deus!, cumprimentando com acenos lentos (largos sorrisos) a turba ansiosa. Um dia alguém o provocou:
         “Afinal, o que faz você nos dias úteis?”
         Ele sorriu, ainda mais generoso, e o claro fulgor dos seus dentes perfeitos cegou o atrevido:
         “Todos os meus dias são inúteis”, respondeu com solene orgulho: “Eu os passeio.”
         Durante muitos anos, devo confessar, quis ser como ele. Hoje sei que pecava por excessiva ambição. Trabalhando intensamente qualquer pessoa é capaz de alcançar, no fim da vida, relativa prosperidade e a admiração dos outros. Um ladrão hábil pode ficar rico em dez ou quinze anos. A conquista do poder também impõe considerável esforço; isto, já para não falar em santidade ou heroicidade. A inutilidade, porém, exige algo mais difícil: talento. Nem todos podem ser inúteis, realmente inúteis, da mesma forma que poucos conseguem fazer chorar um violino. Também nem todos merecem ser inúteis. Fausto sim, era inútil e merecia-o. Foi, enquanto viveu, ocioso e magnífico como uma tela de Gauguin.
         Depois veio a revolução. Nenhuma revolução tolera pessoas desnecessárias. Nas revoluções há os revolucionários e os reacionários; não há lugar para observadores e muito menos para imprestáveis. Fausto percebeu isso num dia em que, tendo decidido passar pela Cervejaria Biker para refrescar a alma, encontrou a velha e gloriosa catedral da boémia luandense transformada numa espécie de centro cultural. Alguém se tinha lembrado de organizar ali uma receção a um poeta, antigo preso político, há poucos dias regressado do Tarrafal. O poeta era um homenzinho miúdo, de densa barba negra, rosto pálido, liso como o de uma criança, mãos muito finas, de dedos longos, que se moviam com veemência, como se fossem independentes do corpo. Leu alguns poemas e contou histórias da cadeia. Explicou que para conseguir sobreviver à solidão e ao desespero, fechado sozinho numa minúscula cela escura, se entretivera durante anos e amestrar insetos. Em particular fizera amizade com uma barata, um bicho amável e inteligente, à qual ensinara a dançar. O poeta calou-se, a cabeça entre as mãos, enquanto na sala se fazia um silêncio comovido. Então Fausto levantou-se e pediu a palavra:
         “O que aconteceu à barata?”
         A pergunta ecoou na sala como um traque. Alguém gritou: “Fascista!” Um tipo alto, de bigodes, sentado ao lado do escritor, encolheu os ombros:
         “Calma! O camarada que falou é um notório vadio.”
O desprezo com que disse aquilo serenou os ânimos. Encontrei Fausto, horas mais tarde, ainda na mesma mesa. Ardia ao lume brando do crepúsculo. “Gostaria realmente de saber o que aconteceu à barata”, disse-me com tristeza. Ele queria saber que género de música dançava o inseto: rumba, valsa, a velha rebita? Recomendei-lhe mais cuidado com a língua. Podia-se ser preso, naquela época, por coisas assim. Fausto encolheu os ombros, cético, terminou de beber a sua cerveja e foi-se embora. Morreu, tempos depois, atropelado por um camião do exército.
Voltei a lembrar-me dele quando, há poucos dias, um amigo me disse ter descoberto no Cemitério do Alto das Cruzes uma lápide partida: “Aqui repousa Fausto Bendito. Foi ele quem renunciou à vida/ podeis continuar a ocupar o seu lugar/ vós, que nos roubastes/ Não foi, nunca foi, renunciou-se/ atingiu o zero.” Reconheci os versos de Agostinho Neto, musicados depois pelos Irmãos Kafala no belo álbum “Salipo”. “E agora vivei, cantai, chorai/ e agora casai-vos, matai-vos/ embriagai-vos/ e agora dai esmolas aos pobres/ nada me pode interessar/ que não sou, não sou/ Atingi o zero/ Nada me pode interessar/ Não sou, não sou/ Atingi o zero.”.
AGUALUSA, José Eduardo, Catálogo de Sombras, 4ª ed., Publicações D. Quixote, Lisboa, 2003.

1.    Diz-se, no conto, que “O Velho Fausto parecia um domingo.”. Explica esta afirmação partindo do texto que leste.
2.    Segundo o narrador, ser inútil é muito difícil. Explica a afirmação por palavras tuas.
3.     No texto conta-se um episódio da vida do ocioso Fausto. Faz o seu breve resumo e explica a importância desse episódio no contexto social e político em que aconteceu.
3.1.        Explica a expressividade da comparação “A pergunta ecoou na sala como um traque.”.
4.    Explica a ironia do tipo de morte sofrida por Fausto.
B


Esta é uma tela de Gauguin, pintor francês do século XIX. Num breve texto, entre 60 e 100 palavras, explica a afirmação “Foi, enquanto viveu, ocioso e magnífico como uma tela de Gauguin.”

 II

Lê o seguinte texto com atenção:

Superpotências: ao assalto da África
Por: CARLOS REIS, Jornalista
“No século XXI, África constitui-se definitivamente como fornecedor de recursos naturais das duas superpotências. A China não impõe contrapartidas políticas, enquanto os Estados Unidos não são indiferentes aos problemas de segurança e às emergências humanitárias. A não ingerência de Pequim é mais sedutora para os Estados africanos.
Com a ascensão da China ao estatuto de superpotência, o novo milénio apresenta-se como um mundo bipolar tendo como centros Washington e Pequim. A nova realidade é visível especialmente no relacionamento do G2, a China e Estados Unidos, com África. Os países do continente menos desenvolvido passaram a contar com as opções das vias norte-americana ou chinesa. Pequim oferece a harmonia ao proclamar a ajuda ao desenvolvimento sem pré-condições e ao prezar a paz, desenvolvimento e comércio e ignorar modelos políticos ou económicos. O gigante asiático não está nos negócios com África para exportar modelos de desenvolvimento ou projetos políticos, em oposição aos Estados Unidos, que pretendem contrapartidas como mais democracia, liberdade, direitos humanos e o domínio da lei.
O Governo de Hu Jintao pretende apenas fazer negócios em paz sob a sua conceção do mundo em que o crescimento é o objetivo absoluto. Uma visão estratégica assente na convicção de que a economia resolverá a maioria dos problemas de direitos e desenvolvimento humano do continente. Esta ênfase na harmonia abona a favor de Pequim, tanto mais que rivaliza com a estratégia de compensações norte-americana. «Se o consenso de Washington é ideologicamente intervencionista, o emergente consenso de Pequim parece ideologicamente agnóstico», observa Roger Cohen, colunista do diário «The New York Times».

Enquanto a Administração norte-americana condiciona a ajuda a África à democracia e combate à corrupção, a China faz acordos energéticos sem pré-condições como o estabelecido no FOCAC, o fórum de cooperação China-África. Os países africanos têm agora uma superpotência alternativa e podem desvalorizar não só os Estados Unidos, como o G8, grupo dos países mais industrializados, e as ONG de ajuda ao desenvolvimento, muito preocupadas com a boa governabilidade e os direitos humanos. (…)”
1. Para cada um dos itens de 1.1. a 1.7., escolhe a alternativa correta, de acordo com o sentido do texto:
1.1. Segundo o primeiro parágrafo do texto,

a. os negócios entre África, a China e os Estados Unidos são harmoniosas.

b. as negociações com a China são consideradas mais vantajosas.

c. os Estados Unidos são um país sem preocupações sociais.

d. o regime chinês não necessita dos recursos naturais africanos.


1.2. Neste novo século,

a. continua a verificar-se a supremacia dos Estados Unidos da América sobre o mundo.

b. a China aspira cada vez mais ao estatuto de superpotência.

c. o continente africano já depende pouco da ajuda externa.

d. o maior país da Ásia continua a não valorizar os direitos humanos.

1.3. O que significa o enunciado “em oposição aos Estados Unidos, que pretendem contrapartidas como mais democracia, liberdade, direitos humanos e o domínio da lei.” (2º parágrafo)?

a. Os Estados Unidos seguem as mesmas ideologias da China.

b. Os Estados Unidos procuram fazer respeitar a democracia no seu país.

c. A China e os Estados Unidos têm pontos de vista diferentes no que concerne aos negócios com África.

d. Os Estados unidos não são uma nação interventiva.


1.4. Qual é o processo irregular de formação de palavras que se verifica em “FOCAC” (último parágrafo)?

a. Truncação.

b. Empréstimo.

c. Sigla.

d. Acrónimo.



1.5. A expressão “O gigante asiático”, referido no segundo parágrafo, pretende retomar a palavra “China”, sendo considerada, por isso,

a. uma anáfora.

b. uma catáfora.

c. um correferente.

d. uma elipse.



1.6. Que figura de retórica se verifica no enunciado “continente menos desenvolvido” (2º parágrafo)?

a. Eufemismo.

b. Perífrase.

c. Antonomásia.

d. Metonímia.



1.7. Que figura de retórica se verifica no enunciado “Pequim oferece a harmonia (…)” (2º parágrafo)?

a. Metonímia.

b. Metáfora.

c. Eufemismo.

d. Pleonasmo.



2. Responde, de forma correta, aos itens apresentados.



2.1. Indica a que classe de palavras pertence a palavra sublinhada em “Pequim oferece a harmonia ao proclamar a ajuda ao desenvolvimento sem pré-condições”.

2.2. Identifica a função sintática sublinhada no enunciado “Os países do continente menos desenvolvido passaram a contar com as opções das vias norte-americana ou chinesa.” (2º par.).

2.3. Classifica a oração subordinada presente no enunciado “em oposição aos Estados Unidos, que pretendem contrapartidas como mais democracia, liberdade, direitos humanos e o domínio da lei.” (2º par.).


III



         Num texto bem estruturado, entre 150 e 200 palavras, comenta o cartoon apresentado, refletindo sobre a importância que os computadores assumem na vida do Homem: moderno.


BOM TRABALHO!!!

COTAÇÕES:
Grupo I………… 100 pontos
1………………… 15pontos (C=9+O=6)
2………………….10 pontos (C=6+O=4)
3.………………..20 pontos (C=12+O=8)
3.1……………..10 pontos (C=6+O=4)
4………………. 15 pontos (C=9+O=6)
B…………………….. 30 (C=18+O=12)
Grupo II …………….. 50 pontos
1……………………… 35 pontos
2……………………… 15 pontos
Grupo III…………….. 50 pontos (C=30+O=20)


                       Conteúdo = C                                                        Organização e Correção Linguística = O

QUERO FRISAR AQUI QUE QUANDO OS EXERCÍCIOS NÃO SÃO DA MINHA AUTORIA EU REFIRO SEMPRE A FONTE. ESTE TESTE É DA MINHA INTEIRA RESPONSABILIDADEJ (peço desculpa por qualquer lapso):
Proposta de Correção:
1.O Velho Fausto parecia um domingo visto que era considerado um “inútil”, alguém ocioso que não fazia nada de útil para a sociedade. Limitava-se a passear o seu fato de linho branco pela cidade de Luanda, sem preocupações, “sem pressa” e a irradiar simpatia e sorrisos. Ora, sendo o domingo o dia de descanso semanal, em que as pessoas podem passar o seu tempo despreocupadamente, é assim que se justifica esta afirmação que dá também o título ao conto.

2.Segundo o narrador, ser inútil exige um talento que nem todos possuem. Ou seja, será mais fácil ficar-se rico, ser-se poderoso, tornar-se um herói ou ser considerado santo que ser considerado um verdadeiro inútil e merecer sê-lo.

3.Um dia, Fausto decidiu refrescar-se com uma bebida numa cervejaria famosa de Luanda onde se juntavam pessoas ligadas à cultura. Nesse dia homenageava-se um poeta que tinha sido libertado há poucos dias da prisão do Tarrafal. O poeta contou que, para sobreviver à solidão e não perder a sanidade, amestrou alguns insetos, em particular uma barata que até aprendeu a dançar. Fausto quis saber o que foi feito da barata e aquela pergunta foi considerada terrivelmente ofensiva para aqueles que ali discutiam a revolução e alguém como Fausto, sem preocupações e indiferente quanto à política, era visto como alguém desprezível e sem importância.

3.1. A pergunta inofensiva e sem conotação política foi vista como uma ofensa por aqueles cuja única preocupação se prendia com a revolução e a mudança do regime político opressor que vigorava na altura.

4. Fausto, que não se importava minimamente com política nem com as coisas sérias da vida, e que foi apelidado de “fascista” durante aquele encontro na Cervejaria Biker, ironicamente foi morto por um veículo do governo.

B. Sugestão de resposta:

Neste quadro de Gauguin vemos três raparigas à sombra de uma árvore acompanhadas de dois animais, um deles também a descansar refugiado do calor. Pela cor da erva percebe-se que a cena se passa no auge do verão. Num plano mais afastado vemos uma série de montanhas e um lago, o que transmite uma sensação de tranquilidade e serenidade. Este quadro retrata-nos um belo e maravilhoso momento de descanso, através de cores fortes, tanto nos seres animados como na própria natureza, tão próprias da técnica do artista. (87 palavras)

II. 1.1. b; 1.2. d; 1.3. c; 1.4. d; 1.5. c; 1.6. b; 1.7. a;

2.1. Preposição.

2.2. Complemento oblíquo.

2.3. Oração subordinada adjetiva relativa explicativa.

III. Resposta aberta.

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