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segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Conto proposto pelas novas metas curriculares de Português para o ensino básico

CONTO PROPOSTO PARA O 7º ANO DE ESCOLARIDADE  COM FICHA DE TRABALHO (COM SOLUÇÕES):

Ladino

Grande bicho, aquele Ladino, o pardal! Tão manhoso, em toda a freguesia, só o padre Gonçalo. Do seu tempo, já todos tinham andado. O piolho, o frio e o costeio não poupavam ninguém. Salvo-seja ele, Ladino.

Mas como havia de lhe dar o lampo, se aquilo era uma cautela, um rigor!... E logo de pequenino. Matulão, homem feito, e quem é que o fazia largar o ninho?! Uma semana inteira em luta com a família. Erguia o gargalo, olhava, olhava, e - é o atiras dali abaixo!... A mãe, coitada, bem o entusiasmava. A ver se o convencia, punha-se a fazer folestrias à volta. E falava na coragem dos irmãos, uns heróis! Bom proveito! Ele é que não queria saber de cantigas. Ninguém lhe podia garantir que as asas o aguentassem. É que, francamente, não se tratava de brincadeira nenhuma!

Uma altura! Até a vista se lhe escurecia... O pai, danado, só argumentava às bicadas, a picá-lo como se pica um boi. Pois sim! Ganhava muito com isso. Não saía, nem por um decreto. E, de olho pisco, ali ficava no quente o dia inteiro, a dormitar. Pobre de quem tinha de lho meter no bico...

Contudo, um dia lá se resolveu. Uma pessoa não se aguenta a papas toda a vida. Mas não queiram saber... Quase que foi preciso um pára-quedas.

Mais tarde, quando recordava a cena, ainda se ria. E deliciava-se a descrever as emoções que sentira. Arrepios, palpitações, tonturas, o rabinho tefe-tefe. E a ver as coisas baças, desfocadas. Agoniado de todo! Valera-lhe a santa da mãe, que Deus haja.

- Abre as asas, rapaz, não tenhas medo! Força! De uma vez!

Tinha de ser. Fechou os olhos, alargou os braços, e atirou o corpo, num repelão... Com mil diabos, parecia que o coração lhe saía pelos pés! Ar, então, viste-o.

Deu às barbatanas, aflito.

- Mãe!

Mas afinal não caía, nem o ar lhe faltava, nem coisíssima nenhuma. Ia descendo como uma pena, graças aos amortecedores. Mais que fosse! No peito, uma frescura fina, gostosa... Não há dúvida: voar era realmente agradável! E que bonito o mundo, em baixo! Tudo a sorrir, claro e acolhedor...

A mãe, sempre vigilante e mestra no ofício, aconselhou-lhe então um bonito antes de aterrar. Dar quatro remadas fundas, em cheio, e, depois, aproveitar o balanço com o corpo em folha morta, ao sabor da aragem...

Assim fez. Os lambões dos irmãos nem repararam, brutos como animais! A mãe é que disse sim senhor, com um sorriso dos dela...

E pousou. Muito ao de leve, delicadamente, pousou no meio daquela matulagem toda, que se desunhava ao redor duma meda de centeio.

Terra! Pisava-a pela primeira vez! Qualquer coisa de mais áspero do que o veludo do ninho, mas também quente e segura. Deu alguns passos ao acaso, a tirar das cócegas nos dedos um prazer de que ainda tinha saudades. Depois, comeu. Comeu com fome e com gula os grãos duros que o sol esbagoava das espigas cheias. Numa bicada imprecisa, precipitada, foi a ver, engolira uma pedra. Não lhe fez mal nenhum. Pelo contrário. Ricos tempos! Desde o entendimento ao estômago, estava tudo inocente, puro. Fosse agora, e era indigestão pela certa. Arrombadinho de todo! Por isso fazia aquela dieta rigorosa...

Falava assim, e ria-se, o maroto. Nem pejo tinha da mocidade, que o ouvia deslumbrada.

- A vergonha é a mãe de todos os vícios - costumava dizer.

E tanto fazia a Ti Maria do Carmo pôr espantalho no painço, como não. Ladino, desde que não lhe acenassem com convite para arrozada numa panela, aos saltinhos ia enchendo a barriga. Depois, punha-se no fio do correio a ver jogar o fito, como quem fuma um cigarro. Desmancha-prazeres, o filho da professora aproximava-se a assobiar... Ah, mas isso é que não. Brincadeiras com fisgas, santa paciência. Ala! Dava corda ao motor, e ó pernas! Numa salve-rainha, estava no Ribeiro de Anta. Aí, ao menos, ninguém o afligia. Podia fartar-se em paz de sol e grainha.

- Que mais quer um homem?!

- O compadre lá sabe...

- Bem... Tudo é preciso... São necessidades da natureza... Desde que não se abuse...

E continuava, muito santanário, a catar o piolho. Depois, metia-se no banho.

- Rica areia tem aqui o cantoneiro, sim senhor!

D. Micas concordava. E só as Trindades o traziam ao beiral da Casa Grande.

Adormecia, então. E a sono solto, como um justo que era, passava a noite. Acordava de madrugada, quando a manha rompia ao sinal de Tenório, o galo. Isto, no tempo quente. Porque no frio, caramba!, ou usava duma táctica lá sua, ou morria gelado. Aquelas noites da Campeã, no Janeiro, só pedras é que podiam aguentá-las. E chegava-se à chaminé. Com o bafo do fogão sempre a coisa fiava de outra maneira.

Ah, lá defender-se, sabia! A experiência para alguma coisa lhe havia de servir. Se via o caso mal parado, até durante o dia punha o corpo no seguro. Bastava o vento soprar da serra. Largava a comedoria, e - forro da cozinha! Não havia outro remédio. Tudo menos uma pneumonia!

A classe tinha realmente um grande inimigo - o inverno. Mal o Dezembro começava, só se ouviam lamúrias.

- Isto é que vai um ano, Ti Ladino!

A Cacilda, com filhos serôdios, e à rasca para os criar.

- Uma calamidade, realmente. Mas vocês não tomam juízo! É cada ninhada, que parecem ratas!

- O destino quer assim...

- Lerias, mulher! O destino fazemo-lo nós...

Solteirão impenitente, tinha, no capítulo de saias, uma crónica de pôr os cabelos em pé. Tudo lhe servia, novas, velhas, . casadas ou solteiras. Mas, quando aparecia geração, os outros é que eram sempre os pais da criança.

- Se todos fizessem como eu...

- Ora, como vossemecê!... Cala-te, boca. Mudemos de conversa, que é melhor... Segue-se que não sei como lhes hei-de matar a fome... - gemia a desgraçada.

- Calculo a aflição que deve ser...

E o farsante quase que chorava também. Quisesse ele, e a infeliz resolvia num abrir e fechar de olhos a crise que a apavorava. Pois sim! Olha lá que o safado ensinasse como se ia ao galinheiro comer os restos!... Enchia primeiro o papo e, depois, a palitar os dentes, fazia coro com a pobreza.

- É o diabo... Este mundo está mal organizado...

Um monumento! Como ele, só mesmo o padre Gonçalo. Quanto maior era a miséria, mais anediado andava.

- Aquilo é que tem um peito! Numas brasas, com uma pitada de sal...

Mas já Ladino ia na ponta da unha. Não queria quebrar os dentes de ninguém. Carne encoirada, durásia... E acrescentava:

- Isto, se uma pessoa se descuida, quando vai a dar conta está feita em torresmos. Que tempos!

O mais engraçado é que já falava assim há muitos anos, com um sebo sobre as costelas, que nem cabrito desmamado.

De tal maneira, que o Papo Magro, farto daquela velhice e daquelas manhas, a certa altura não pôde mais, e até foi malcriado.

- Quando é esse funeral, ti Ladino?

Mas o velho raposão, em vez de se dar por achado, respondeu muito a sério, como se fizesse um exame de consciência:

- Olha, rapaz, se queres que te fale com toda a franqueza, só quando acabar o milho em Trás-os-Montes.

 Miguel Torga, Os Bichos

 


I-             Interpretação do conto “Ladino”, de Miguel Torga
1.     O título do conto que leste é o nome do seu protagonista- um pardal que se comporta como um ser humano. De acordo com o seu nome, qual é a principal característica da maneira de ser da personagem?
2.     Pela leitura das primeiras linhas, fica-se a saber que Ladino é um pássaro resistente. A que característica psicológica se deve esse facto?
3.     A história do primeiro voo de Ladino é reveladora da sua maneira de ser. Observa, no quadro seguinte, a divisão deste episódio em três momentos.
3.1. Atribui um título a cada um, escolhendo entre os seguintes:
Segurança              Hesitação             Decisão
3.2.  Responde às perguntas relativas a cada momento.

1º momento

 

________________

(1) “Matulão, homem  feito, e quem é que o fazia largar o ninho?!” O que revela esta frase sobre Ladino?

(2) Descreve a sua relação com os outros membros da família.

(3) “Pobre de quem tinha de lho meter no bico…”. Explica o sentido desta frase.

 

 

2º momento

________________

(4) Aponta o motivo que levou Ladino a resolver-se a voar.

a. Desejava saber como era pousar na relva.

b. Estava  farto de comer apenas o que a mãe lhe dava.

c. Queria provar que era tão corajoso como os outros irmãos.

(5)  Transcreve um grupo adverbial e a oração subordinada  que revelam que o primeiro voo ficou para sempre na memória de Ladino.

3º momento

________________

(6) Indica as reações da mãe e dos irmãos ao primeiro voo de Ladino.

4.     Já em adulto, as ações de Ladino continuam a revelar a “cautela” que lhe permite ser o único “do seu tempo” ainda vivo.
4.1. Refere:
a.     a alimentação;
b.     as noites e os dias de Inverno;
c.     sua relação com os pássaros fêmeas.
 
5.     “Falava assim, e ria-se, o maroto.”
A expressão sublinhada, que o narrador utiliza para referir Ladino, contribui para a construção do retrato psicológico do pardal.
5.1. Transcreve, da parte final do texto, outras expressões utilizadas.
6.     A linguagem utilizada no conto apresenta algumas características da oralidade e marcas de um registo de língua popular. Retira, dos primeiros parágrafos, exemplos das seguintes características:
a.     Construção frásica com elipses;
b.     Interjeições e expressões populares;
c.     Frases exclamativas.
7.     Faz corresponder os segmentos textuais aos respetivos recursos retóricos:

a.     “Do seu tempo, já todos tinham andado.”

b.     “Quase que foi preciso um paraquedas.”

c.     “Arrepios, palpitações, tonturas, o rabinho tefe-tefe.”

d.     “Deu às barbatanas, aflito.”

e.     “Ia descendo como uma pena (…)”

 

1.     comparação

2.     metáfora

3.     ironia

4.     enumeração

5.     eufemismo
 
8.     O recurso à personificação do pardal poderá ser utilizado para criticar os seres humanos que têm comportamentos idênticos à personagem.
8.1. Reflete sobre que características humanas são criticadas, indicando os comportamentos de Ladino que as ilustram.
II- Gramática
1.     Classifica as frases do quadro em ativas ou passivas:

 

Frase ativa

Frase passiva

a. O pardal foi alimentado pela mãe até muito tarde.

 

 

b. Ladino não abandonava o ninho.

 

 

c. A mãe mostrou-lhe a coragem dos irmãos.

 

 

d. No fim, Ladino sentiu um grande alívio.

 

 

e. Aquele voo seria recordado por ele mais tarde.

 

 
 
2.     Transforma as frases passivas em ativas e vice-versa.
2.1.         Transcreve os grupos preposicionais com a função sintática de complemento agente da passiva
 
3.     As frases seguintes são frases ativas em que as formas verbais estão em tempos compostos. Converte-as em frases passivas, conforme o exemplo:
Ladino terá vencido a preguiça. A preguiça terá sido vencida por Ladino.
a.     O pardal terá visto muitos companheiros esfomeados.
b.     O bicho tinha guardado algum milho.
c.     Algumas pessoas teriam feito a mesma coisa.
 
4.     Numa frase passiva, nem sempre o complemento agente da passiva está explícito. Indica a(s) frase(s) em que tal acontece:
a.     Ladino foi elogiado pela mãe.
b.     As suas habilidades no ar foram ignoradas.
c.     No Ribeiro de Anta, o pardal não era incomodado.
 
5.     Indica a que classe e subclasse pertencem as palavras da frase “Grande bicho, aquele Ladino, o pardal!”
 
5.1.         Refere a subclasse dos nomes apresentados:

Ladino          freguesia          frio           família           asa          mãe      vergonha      Gonçalo
6.     Identifica as funções sintáticas desempenhadas pelos enunciados sublinhados:

1)    O piolho, o frio e o costelo não poupavam ninguém.”

2)    “(…) e quem é que o fazia largar o ninho?”

3)    “A vergonha é a mãe de todos os vícios

4)    “A mãe, coitada, bem o entusiasmava.”

5)    “Pobre de quem tinha de lho meter no bico.”

6)    (…) e, depois, aproveitar o balanço com o corpo(…)”

7)    “Depois, punha-se no fio do correio a ver jogar o fito(…)”

8)    “Numa salve-rainha estava no Ribeiro de Anta.”

9)    “Depois, metia-se no banho.”

10)  “Acordava de madrugada, quando a manhã rompia(…)”

 

 

 

a)     sujeito

b)    predicado

c)     complemento direto

d)    complemento indireto

e)     complemento oblíquo

 
 
7.     Identifica o tempo e o modo verbais dos verbos das frases:
a.     “O piolho, o frio e o costelo não poupavam ninguém.”
b.     Abre as asas, rapaz, não tenhas medo!”
c.     “Deu às barbatanas, aflito.”
d.     “Mais que fosse!”
 
Bom trabalho!!!
A docente: Lucinda Cunha
 
 
Proposta de correção (ficha de trabalho retirada do manual Diálogos 8, da Porto Editora, pp.136-141, até à questão 4 da Gramática, inclusive):
I
1. A principal característica do pardal será ser manhoso, astuto, espertalhão.
2. Deve-se ao facto de ele ser muito cauteloso.
3.1. 1º- Hesitação; 2º- Decisão; 3º Segurança
3.2.  (1) Esta frase revela-nos que Ladino é preguiçoso, comodista, egoísta e pouco corajoso.
(2) Ele tem uma má relação com os irmãos (a quem chama “lambões” e “brutos como animais”) e com o pai, que o incita a voar de forma violenta (“às bicadas”). Com a mãe tem uma boa relação, pois ela incita-o a voar de forma carinhosa.
(3)Esta frase diz-nos que a mãe era uma desgraçada pois tinha de o alimentar.
(4) b.
(5) “Mais tarde, quando recordava a cena”
(6) Enquanto a mãe o aplaudiu, sorrindo, os irmãos ignoraram-no.
4.1. a. Ladino fazia “uma dieta rigorosa”, isto é, ia ao galinheiro comer os restos.
b. Nas noites de inverno, aquecia-se junto à chaminé; durante o dia, quando o vento soprava “da serra”, protegia-se no “forro da cozinha”.
c. Namorava com todas, fossem solteiras ou casadas, mas nunca assumia os filhos que nasciam dessas relações.
5.1. “Solteirão impenitente”, “o farsante”, “o safado”, “o velho raposão”.
6. Por exemplo:
a. “Grande bicho, aquele Ladino, o pardal! Tão manhoso, em toda a freguesia, só o padre Gonçalo.”
b. “Salvo seja ele”, “é o atiras dali abaixo!”, “coitada”, “fazer folestrias”, “”Bom proveito!”, “não queria saber de cantigas”.
c. “Grande bicho, aquele Ladino, o pardal!”, “É que, francamente, não se tratava de brincadeira nenhuma!”
7. a- 5; b- 3; c- 4; d- 2; e- 1
8. Ladino é um pardal espertalhão que vive alegremente, sem preocupações. Quando era pequeno manteve-se no ninho, a ser alimentado pela mãe, por ser cómodo viver às suas custas sem qualquer esforço. Quando cresceu continuou a ser egoísta e a pensar só no seu bem-estar. Cauteloso, não quer que nada de mal lhe aconteça. Mostra-se muito egoísta e não se preocupa com as dificuldades dos outros. É bastante hipócrita, pois não assume os seus erros, e cínico, já que se faz desentendido quando a conversa não lhe agrada.
II
Frases ativas- b, c, d; frases passivas- a, e
a. A mãe alimentou o pardal até muito tarde.
b. O ninho não era abandonado por Ladino.
c. A coragem dos irmãos foi-lhe mostrada pela mãe.
d. No fim, um grande alívio foi sentido por Ladino.
e. Ele recordaria aquele voo mais tarde.
2.1.  b. “por Ladino”; c. “pela mãe”; d. “por Ladino”
3. a. Muitos companheiros esfomeados terão sido vistos pelo pardal.
b. Algum milho tinha sido guardado pelo bicho.
c. A mesma coisa teria sido feita por algumas pessoas.
4. b,c
5. Grande- adjetivo qualificativo
 bicho- nome comum contável
aquele- determinante demonstrativo
Ladino- nome próprio
o- determinante artigo definido
pardal- nome comum contável
5.1. Ladino- nome próprio         
freguesia- nome comum coletivo contável         
frio- nome comum não contável          
família- come comum coletivo contável           
asa- nome comum contável         
mãe- nome comum contável     
vergonha- nome comum não contável     
Gonçalo- nome próprio
6. 1-a; 2-c; 3-b: 4-c; 5-c/d; 6- c; 7-e; 8-b; 9-e; 10-a
7- a. Pretérito imperfeito do indicativo
b. imperativo; presente do conjuntivo
c. pretérito perfeito do indicativo
d. pretérito imperfeito do conjuntivo


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